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O mesmo destino das formigas



                                                                                         
Às vezes, meus personagens me dão medo. São tão reais nas suas mazelas e vicissitudes, que acabo por escravizá-los durante algum tempo e, abandonados ficam, sobre a mesa, à espera de liberdade.

 Passado o tempo que me é indispensável, passada a sensação de estranhamento que me inspiram, depois de armada a trama, dou-lhes carta de alforria e jogando-os no mundo, deixo-os viver simplesmente.

E assim surge Antera, mulher de origem lusitana, cujo rosto mantinha ainda vestígios de uma mocidade de rara beleza. Os cabelos de comprimento mediano, à altura dos ombros, aproximavam-se da cor da aruá-do-banhado, cor castanho amarelado, e mantinham-se ocultos dentro de toucas tricotadas, tecidas por suas próprias mãos ou escondidos no amarrado de seda branca, guardados do antigo enxoval que usava, como agora, para preparar a massa do pão doce cheirando à canela e Cravinhos da Índia.

Ninguém tinha tanta habilidade para preparar aquele saboroso pão que depois de bem sovado, era assado, no forno de lenha, sobre as folhas colhidas ainda verdes, da imensa figueira, cujos galhos estendiam-se até a porta de entrada do rancho de paredes caiadas e piso de chão batido, coberto com pequenas esteiras, trançadas de palha de milho, colocadas à entrada e em grandes espaços, à frente dos móveis rústicos e limpos, cheirando a madeira nova.

Muita coisa Antera aprendera a fazer, não só o pão doce que levava à mesa. Tornara-se o tipo da mulher prendada. Lavava a roupa com capricho nas tinas, no sangradouro do açude ou nas águas da sanga que dilaceravam parte da campina, próxima à serra que acompanhava o arroio de pedras. Cozinhava com gosto a carne de carneiro acompanhada de batatas tostadas, colhidas na pequena horta, farta de legumes e verduras que muitas vezes ela própria plantara depois de Euclides virar a terra.  Carne de carneiro com batatas tostadas, acompanhadas de saladas verdes era o prato preferido de Euclides.Cuidava o pequeno jardim, cheio de margaridas e rosinhas miúdas que Sofia lhe trazia...É bem verdade que toda essa habilidade de mulher prestimosa do lar, devia a cabocla Sofia.

Quando tinham decidido viver juntos, Antera lembrava como num fluxo de consciência, que Euclides parara muitas vezes, à chegada do rancho para colher uma rosa vermelha, das mais delicadas que encontrava, colocando-lhe no cabelo e isso a fazia muito feliz. Ficavam horas abraçados, trocando carícias, e depois cansados, repousavam nos alvos lençóis bordados por Antera e lavados com esmero. Amavam-se, faziam planos, esperavam o filho que nunca geraram...

 A voz da mãe soava-lhe aos ouvidos como agora. Nunca fizera gosto naquela união. Sonhara para a filha um partido melhor, não um caboclo rude como Euclides. E depois de muitos conselhos, muitas brigas, fora expulsa de casa pelo pai, carregando, nada mais que uma arca de panos bordados e engomados, camisolas e vestidos que preparara junto com a mãe e as mucamas, antes de “ virar a cabeça”, como diziam na casa. .

Os pais, diante da enorme decepção que a filha lhes causara, voltaram para Portugal em companhia da irmã mais nova. E Antera, embora sofrendo com o abandono da família, dedicara-se à vida na companhia de Euclides e dia sim, dia não, na companhia de Sofia.  A cabocla Sofia era ainda uma mulher  nova, casara-se com Raimundo, aramador de profissão, que muitas vezes prestava serviços nas terras de Euclides, e vez por outra, afastava-se para aramar campos de outros plantadores e criadores da região. Raimundo construíra o pequeno e gracioso rancho próximo ao sangradouro do açude. Sofia, orientada pela mãe, que não mais existia, era uma exímia dona de casa e seus conhecimentos  foram muito úteis a Antera.

Por que Antera recordava-se disso agora, não se sabe. Algo lhe faltava, sentia-se dentro de uma concha. Euclides já não era o mesmo. Não havia mais palavras bonitas, nem recebia rosas vermelhas no cabelo. O jardim continuava ali, até com maior quantidade de flores e o cabelo ela não perdera o costume de solta-los, bem escovados, até os ombros, depois de terminadas as tarefas domésticas.

Euclides chegava do trabalho, imergia na grande banheira de ferro esmaltado, cuja água Antera retirava da caldeira do fogão à lenha. Depois se prostrava à mesa. Pouca conversa o olhar parado...

Antera busca no passado, através de lembranças, coragem para viver o presente e enfrentar os fantasmas que a perseguem. A saudade da mãe ausente. Viveria ainda? E o pai se vivesse ainda gostaria de vê-la? A irmã teria se casado, teria filhos? Ela não os tivera e, deprimida, via a amiga Sofia andar empinada para trás pelo peso do ventre que crescia.
Um dia, o marido chegou da cidade com um pequeno embrulho: eram uns sapatinhos de bebê, de napa branca e disse a Antera que pensara   presentear  o amigo Raimundo.  Antera sentiu uma ponta de ciúmes, mas nada disse ao marido.

Foi numa luminosa manhã de setembro. Talvez das mais bonitas, pelo seu ar primaveril, os campos eram imensos tapetes de minúsculas florzinhas que a mais leve brisa oscilava.

Antera não percebia a beleza da paisagem Levando uma pequena trouxa de lençóis bordados, já desgastados pelo tempo, dirigiu-se para a sanga, como era de costume, e nas tinas do sangradouro do açude largou o pequeno atado. Fixou os olhos no ambiente aquático, com sua vegetação característica. Observou as esponjas que se fixavam às pedras do arroio, os mexilhões e insetos que serviam de alimento a muitas aves que ali viviam, livres dos caçadores, visto que Euclides não os deixava entrar em suas terras.

Mas de repente eis que um som gutural ouve. A princípio parecem-lhe aves em busca dos mexilhões... Seus ouvidos tornam a ouvir, parecem vir do rancho de Sofia. Antera aproxima-se e é como se uma lança lhe cravasse no peito, na esteira de vime que ajudara tecer, vê Sofia, com uma minúscula rosa vermelha no cabelo e Euclides, juntos. Seus corpos nus a rolarem no chão de esteira...

Sufoca o grito, o ódio, a humilhação e corre. Corre próximo ao sangradouro do açude, passa pelas pedras do arroio, assustando os insetos e espantando as aves que se alimentam e chega a casa. A casa cuja juventude dedicara, o homem por quem lutara e abandonara a própria família. Tudo lhe era estranho, sorte mesquinha. Fim de um sonho, desilusão...
Olhou-se no espelho, sentia-se um caco, envelhecida como a velha arca de panos bordados... Mais de vinte anos de sua vida perderam-se ali, a fazer pães, a cuidar do jardim e da horta, a lavar nas tinas, a amar Euclides.

Olha, agora, o jardim cheio de flores... Eram tantas... Percebe um rastro deixado pelo carreiro de formigas mortas que tinham se atrevido a invadir o canteiro de rosas vermelhas... Restava apenas o negro rastro, fazendo um caminho na areia que circundava os canteiros. Dera-lhes um tempero: arsênico puro. E nem ainda tivera tempo de recolhê-las.

Como uma sombra ambulante, dirige-se ao fogão, enche a caldeira e atiça o fogo. Logo o calor é imenso, a chapa quase em brasa. Antera tem pressa.

Na panela de ferro, prepara a carne de carneiro com batatas douradas, apetitosas, temperadas. Ah! O tempero...
Da arca retira a fina toalha franjada, engomada, que nunca usara e coloca-a na mesa para receber Euclides.

O carneiro fumegante, as batatas douradas, a salada verde e o tempero que espalhara no tostado da carne, em duas medidas rasas. Era suficiente.

Solta os cabelos que conservam ainda a cor da aruá-do-banhado.

Ao meio dia, como fazia sempre, para manter as aparências, Euclides chega e Antera vê com clareza o que antes não via ou não queria ver.

A mesa posta, o cheiro irresistível da carne de carneiro muito bem temperada. Senta-se à mesa e serve-se, faminto.
Não percebe a toalha franjada, não percebe nem mesmo os cabelos que Antera soltara para agradá-lo.

Antera chega-se à janela. O calor que vem do fogão parece queimar-lhe a alma. Observa mais uma vez o caminho... Somente o caminho negro das formigas que se atreveram a roubar-lhe as rosas vermelhas.

Em seus ouvidos, um som gutural, não é das aves que se aproximam do sangradouro para comer os mexilhões, nem tampouco se parece com o som que ouvira durante a manhã, vindo da esteira do rancho...

Volta-se, mecanicamente. O corpo doído, a alma em frangalhos, os olhos que antes olhavam Euclides com tanto amor, estão apagados, sem vida e observam o corpo que pende da cadeira, os lábios semi-abertos, as mãos crispadas, um fio quase invisível de saliva a correr pelo canto da boca. A cabeça que pende inerte, o corpo que tanto amara...
O mesmo destino das formigas...







































Eliza Fernandes
Enviado por Eliza Fernandes em 23/02/2006
Reeditado em 01/04/2006
Código do texto: T115255
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Sobre a autora
Eliza Fernandes
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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