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NA SOCIEDADE FILOSÓFICA

de
CHE QUEVARA
e a
Transformação da sociedade

FLÁVIO MARTINS PINTO

Fundação BIBLIOTECA NACIONAL/MEC
Escritório de Direitos Autorais
Nº de registro: 332.524-Livro:590-Folha:184
Protocolo de registro-2004RS_332

A todos que se indignam contra aqueles que manipulam a mente humana para fins escusos e os que tentam justificá-la alardeando que é para a salvação do homem.
O autor

Esta é uma obra de ficção e os aspectos apresentados são mera coincidência.

NA SOCIEDADE FILOSÓFICA

Depois das apresentações na área médica, Quevara foi intimado por um grupo de jovens a “prestar esclarecimentos” de porquê ter inserido Platão nas suas pesquisas e no seu trabalho. Queriam saber em detalhes.
“ Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Não se pode misturar” diziam.
Mas lá, na Sociedade Filosófica Amigos Eteroetílicos de Platão e Sócrates-SOFIA, desenvolviam-se estudos de alto nível. Aliás, muito altos, como dizia Antonio Armando, freqüentador assíduo da Sociedade, quando se referia aos debates até altas horas da madrugada regados a um bom guaraná de Santo Antonio da patrulha.
- Ainda tenho saudades das antigas parcerias...tempos bons aqueles..falávamos de tudo e tudo dava gancho para as tiradas filosóficas , exotéricas e as esotéricas relembrava saudoso Antonio Armando.
A sociedade era uma casa comum, nada de mais nem de menos. Apenas se destacava pela quantidade de jovens que lá se reuniam periodicamente para tratar de temas filosóficos, tumultuando  já estreita rua sem saída onde era localizada.
Passavam-se pouco mais das sete horas da noite, quando Quevara chega escoltado por D.Calú.
Tocam a campainha.
Logo que a porta é aberta, D.Calú surpreende-se:
- Mas quem vejo: Armandinho das Candongas, meu grande parceiro das jornadas profícuas que não voltam mais. Venha aqui me dar um abraço, diz D.Calú.
- Pois é, Índio véio, fala baixo que aqui ninguém conhece o meu passado. É que estou numa bem diferente daqueles nossos salseiros que enfrentávamos, sabe!
- Esse é o nosso amigo Quevara. Mas que me contas, Armandinho?
- Grande Quevara, a turma aqui está só te aguardando para umas explicações. Mas não se assuste, eles não mordem.
- Si, si, si.
- Mas vamos entrando que a porta não tem tramela.
A recepção era uma sala muito bonito, decorada com motivos esotéricos, mais parecendo uma casa de bruxas, pensou Quevara como querendo dizer o que diria João sobre o local.
- Mas que saudades, D. Calú, quanto tempo, que lembranças boas nos trazem de volta, falou Armandinho.
- É, Armandinho, naquele tempo eras um borrador de paredes nas horas vagas. Não esqueço aquela vez que recebeste uma trocados para pintar a casa do Vadinho que ia casar. A promessa era só de conferir o serviço depois da lua-de-mel. E a surpresa foi de que a casa mais parecia um arranjo psicodélico do que ..
- Ah, é. Foi terrível aquela pintura. Mas o Vadinho queria uma peça de cada cor...e o caso é que tomei tudo que tinha direito, acho que até parte da tinta bebi e saiu aquela obra prima.
- Mas que obra prima, Armandinho? A mulher quase que desfez o casamento por causa daquela pintura...
- Mas não perdemos o parceiro das noitadas, não é , D.Calú?
- Que tempos aqueles.
- E a surpresa, D.Calú, é que me tornei um pintor famoso por causa daquelas pinturas esquisitas. Quem diria ...
- É, quem diria.
- E outra, só quem fuma aqui dentro sou eu: fumaça só das minhas e dos incensos indianos. Tô com moral com essa gurizada, bixo, disse segurando sua inseparável piteira prateada de um modo peculiar: só com o polegar e o dedo indicador, mantendo os outros esticados e apontados para cima.
- Não te preocupa, sabes que não fumo. Mas, vem cá e me conta um pouco da tua vida desde que desapareceste. Afinal um Highlander como tu não some sem deixar algo para trás, não é?
- Pois é, índio veio, naquele tempo eu era que nem cavalo que come erva braba: não tinha cerca que atacasse. Clareava eu pateava. Era igual Clausewitz: aparecia um alvo eu atacava.
- Então essa gurizada te fez a cabeça, Armandinho?
- Mais ou menos. Mas, Quevara, te chega  prá cá.

Estavam informalmente reunidas umas dez pessoas na confortável saleta e conversa vai conversa vem, uma garota toda de preto cheia de anéis, piercings e brincos por todo o corpo, parecendo hippie mas dizia que era grunge, perguntou ao Quevara como visualizou Platão naquele babado todo.
- Mas que babado, minha filha?
- Oh, garota, isso é modos de se dirigir ao único psiquiatra psico-etílico-político destas redondezas? Falou Armandinho
- Esse do Mico da caverna, ora? E estou curiosa para saber como fundiste Platão com Freud, ta.
- Ah, bom. Vou responder sim. Deves ter ouvido falar da palestra da minha tese na Academia e na Sociedade, não é? Pois bem. Falei até em MATRIX, mas um MATRIX horroroso: um submundo criado a revelia das verdades universais nivelando tudo por baixo. É a cultura anti-helênica.
- Quevara, posso abordar esse tema? falou D.Calú
- Si, si, si.
- Quevara se referiu ao MATRIX, aquele mundo criado dentro de uma realidade virtual, mas repleto de verdades e valores universais. Também falou da Caverna do Platão. E esta é a chave da questão, no meu entender. Sair da Caverna por valores universais e não por se sentir cidadão, participativo e coisa e tal, como muito se tem dito atualmente. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Uma é sair fortalecido por crenças verdadeiras e outra por se sentir participante com valores temporais e submisso a valores impostos. Como boa aluna da SOFIA, deves ter em mente os ideais helênicos, não? Ocorre que Verdade é uma só e os enquadrados no processo esquizofrênico descoberto pelo nosso amigo, insistem em deturpar tudo, criando e impondo a sua Verdade como se fossem donos dela e só eles os puros, incorruptíveis. Na realidade, verdades de um mundo irreal e que provavelmente nem eles acreditam, mas o suficiente para angariar novos adeptos ao seu credo político escravagista mental. Veja como repetem conceitos e jargões desgastados pelo tempo e insistem em negar tudo o que fizeram para impor seu credo político. E eles vão caminhando e cantando velhas e surradas lições e nem se coram com isso. Até Pavlov aparece nas suas atitudes estereotipadas e alguns sugerem Freud à medida que levantam bandeiras e flôres a homossexualidade, homogenismo, transversalidade e outros bichos.
- Pavlov com Freud, essa não? Falou Zeca Flores, um dos mais importantes filósofos da Sociedade Filosófica.
- Pois é, misturar conceitos e jogá-los na cabeça dos seus pretensos alvos e confundi-los é o que de melhor fazem. Por acaso consegues discutir com tipos desses? Certamente que não. Eles tem resposta para tudo e quando não tem , partem para ironia ou, normalmente, desqualificação do adversário. Claro que nenhuma sociedade é perfeita e aí arrumam brechas. Quem não tem furos?
- Mas e a Ética, onde fica, pergunta Zeca.
- Sabes que cada um tem a sua Ética, de acordo com seu caráter, propósitos, etc...continuou D.Calú. sabes bem de uma Ética atemporal, não é?

De repente, ouve-se um estrondo na porta da garagem, sucedido de muita gritaria, parecendo uma briga generalizada. Armandinho corre para ver o que era e pede ajuda. Todos saem e do meio da confusão sobressai João,  com um rebenque de rabo de tatu golpeando para todo lado. Ao seu lado dois jovens com bastões o ajudavam a se defender.
- Gurizada safada, o que estão pensando. Que venha mais um para sentir no lombo o meu rebenque de rabo de tatu, gritava João a cada investida. E tome rabo de tatu....
- Mas vamos chamar a Brigada, gritou alto Armandinho.
        - Que nada, vamos cagar eles de pau, depois chamamos, falou alto e em bom som João.
- Vamos parar com isso, João interrompeu D.Calú, ameaçando todos com um porrete.
João estava possesso. Pudera, segundo ele, dirigia-se para a Sociedade para prestigiar os amigos, quando presenciou a conversa de uma turma de maconheiros dizendo que iriam invadir a Sociedade. Eram mais ou menos uns dez, poucos para mim, gabava-se, mas seguiu-os e , ao notar seu real intento, atracou-se com eles. Teve a ajuda de dois rapazes que por ali passavam até a intervenção do pessoal que estava dentro da casa.
D.Calú, desconfiado da turma de agressores, saiu com Jacózinho, faxineiro da Sociedade, para dar uma volta na quadra e verificar se eles ainda se encontravam por ali, se preparando para outro ataque ou apanhar mais.
Foram encontrados perto da igreja reclamando das dores no corpo fruto dos golpes com o rebenque de rabo-de-tatu do João.
- Como dói isso, reclamava um deles. Ih, olha o padre vindo para cá.
- Era só o que faltava. Mas com certeza foi a mando daqueles capitalistas nojentos, dizia chorosa uma garota muito esquisita.
- É, o capitalismo agonizante unido nos agrediu, turma, falou um garoto que parecia ser o líder.

Após ouvir nisso, D.Calú não teve dúvidas das suas suspeitas: eram integrantes da TRIPA e do GRUDE que estavam por trás daquela agressão. Os havia reconhecido pelo modo de agir.
- Só agem tipo chacais, ou seja, em grupo, não é Jacó?
- É, menos mal que a Brigada recolheu todos para averiguações. Menos mal....Ficarão uns tempos ressabiados e não incomodarão. Vamos voltar , Seu Calú.

Bem próximos da casa, avistaram o pessoal da Sociedade cercando o João, que certamente estava gesticulando, falando alto e contando, certamente, e aumentando suas bravatas contra os integrantes da TRIPA e do GRUDE.
- É, Jacó, não sei qual o pior: brigar com essa turma ou agora ter de agüentar o João.




FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 23/02/2006
Código do texto: T115413

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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