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Um Simples Contraste

              Era um dia de festa – dia de missa, como lá se dizia –, e a cidade estava divinamente enfeitada com flâmulas e com coloridas bandeirolas a tremular nas varas de sisal trabalhosamente fincadas na praça da igreja-matriz.  Sobre um palanque, enfeitado com palhas de coqueirinhos, uma banda de músicos alegrava o ambiente com um musical variado, e o povo se delirava com tal momento de felicidade. Eu via a tudo, e participava extasiado daquele evento. Somente os meus tios Almiro e Zeferina é que viviam os instantes cruciais do descasamento; da dissolução do lar, e, nada os faziam felizes.
              Ao entardecer, um velho caminhão recebeu como carga, os músicos e os cacarecos de meu tio que, já separado da mulher, o levou mundo afora, sem nada deixar.    Muitas décadas se passaram e nenhuma notícia nos chegava do tio Almiro, até que, num certo dia, hei-lo de volta: bem vestido, bem falante, e acompanhado de um simpático filho a quem apresentava a todos com o nome de deputado Adalgiso. Se bem me lembro, foi uma surpresa  abastada de alegria. A notícia  de seu retorno se espalhou fulminante e o povo os aclamavam de ricos.
              — Meu filho é deputado, e aqui estamos tentando sua nova candidatura. Só queremos os vossos votos, e nada mais. Não sou rico, tenho apenas um cacaual como cabedal lá para as bandas do sul. — Era o quê meu tio dizia a todos que o indagava sobre sua fortuna e sua vida passada, a qual  parecia estar enterrada nas cinzas
Foi ai que  brotou em mim a curiosa vontade de me aproximar do primo rico e a ele rogar por um futuro melhor.
              — Filho, se ele é deputado, ele pode muito bem te ajudar. Vá procurá-lo!  — assim meu pai me aconselhava.
Em mim crescia o desejo de com ele falar e arranjar um bom emprego.
              Vesti a melhor roupa que tinha: a chamada "roupa da missa", e lá vai eu rumo a capital procurar pelo primo rico que já estava reeleito e... ao adentrar no suntuoso palácio, me lembrei dos aconselhamentos que meu pai me dera e, tal como eu ensaiara, assim falei para o recepcionista da Assembléia:
              — Moço, preciso falar com o deputado Adalgiso! Ele é meu primo!
              Ao que este me deu por resposta:
              — Só se for a rigor!
              Eu lá sabia o que significava “a rigor”? Nunca ouvira falar disso. Eu só conhecia das coisas da roça e nada mais.
              — Como assim, moço? Como a rigor?
              — De paletó e gravata, oras! — Respondeu e me virou as costas.
              — Não moço, eu não tenho roupa melhor! Só quero falar com meu primo: o deputado Adalgiso. Será que pra se falar com um primo se precisa de terno?
              As pessoas atentavam curiosas para o nosso difícil diálogo e alguém sussurrou: onde já se viu! Exigir  terno só pra falar com um primo?
              O funcionário me olhou de cima a baixo, fez cara de desdém e abaixou a vista, enquanto que eu, tomado por um inesperado nervosismo, pigarreei; ajeitei a voz e relutei.
              — Vim pra falar com ele e... ponto final!
              — Se você criar problema eu chamo o guarda! — e acrescentou: sem terno nada feito! Não entra!
              Fiquei indignado, indeciso, e com raiva.     Aquele sujeito estava disposto a desconsiderar os duzentos quilômetros que percorri para ali estar. Ele parecia mesmo querer mudar o rumo da minha vida; desviar a rota de minhas pretensões. Foi então que, olhando fixamente para o seu crachá, pendurado no pescoço, alumiou-me uma idéia, a qual pus em prática assim lhe dizendo:
              — Qualquer dia desse eu vou dizer para o meu primo, o deputado doutor Adalgiso, que Valmor Assis de Assis (nome do crachá), atendente da Assembléia,  me disse que Adalgiso não presta; que é ladrão.
              — Você está louco, rapaz? Sou pai de família!
              Vi uma exagerada preocupação estampada em seu semblante.
              — Então? Entro ou não?
              — Faz de contas que nem te vi e.... vá entrando, entre de fininho.
              — Agora? Só se for de terno! Não quero que meu primo me veja em trapos.
              Valmor coçou a cabeça num desolado gesto de impotência, e num movimento brusco ele retirou o crachá que orgulhosamente ostentava; despiu-se do seu paletó azul-marinho, e me vestiu.
              Já bem vestido, passei por um corredor parecido mal-assombrado e depois me deparei num gigantesco salão de formato oval, cheio de pessoas elegantes, que se espantaram com a minha presença como se eu fosse um visitante do além.
              — Quem é aquele? — Ouvi alguém falar.
              — Deve ser da casa — Disse um outro.
              — Não! Não sou nenhum serviçal da casa, sou primo carnal do deputado Adalgiso. Alguém o conhece? Preciso falar com ele.
              — Sim! Ele acabou de sair agorinha mesmo. Foi embora! Hoje é sexta, agora só segunda.
              — Diabo! Vim de tão longe pra nada! Nem sei onde ele mora!
              — Eu sei! Fica na rua tal, número tal, a.p. tal. — Disse-me um indivíduo que tinha um crachá onde se lia "prefeito".
              Sai depressa, devolvi o paletó no balcão e peguei um táxi, e dele desci em frente a um luxuoso prédio.  Encabulado entrei olhando pra todos os lados, até que fui observado por um funcionário que providenciou meu encontro, via interfone, com o meu primo rico.
              — Quem é? — Sua voz, soando no fone, parecia a de um bom sujeito.
              — Doutor Adalgiso? sou eu! Seu primo Alencar, filho do seu tio Zico, lembra?
              — Nunca ouvi falar de você, rapaz!
              Senti emoções por estar falando com um deputado, o único parente rico de toda minha árvore genealógica; um cacauicutor.
              — Não? Não mesmo? Já se esqueceu de mim, assim tão rápido? Não faz muito tempo que estivemos conversando sobre eleições, lá na minha casa, lembra? Sou eu, Alencar!   Votei no senhor. E o meu tio, como vai?
              Desligou o interfone e fiquei desempregado sem nunca ter tido um emprego.
              Insisti para que fôssemos novamente interfonados e, por fim, novo contato.
              — Mandou lhe dizer que já já vai descer — disse-me o recepcionista.
              — Que bom! Obrigado! — agradeci aliviado.
Instante depois nós estávamos frente a frente, e assim dialogamos.
              — Você que é meu primo?
              Respondi com um sorriso bobo e acanhado
              — Sim, primo legítimo! Sou filho de seu tio  Zico e de sua tia Alice, lembra?
              — Pra lhe dizer a verdade, não! Apenas  ouvi falar de vocês. Quê deseja?
              — Preciso que me arranje um bom emprego. Lá na minha terra não tem nada.
              — Quer dizer que... você quer um bom emprego?!
              Foi ai que vieram os obstáculos com suas difíceis palavras terminadas em ia:
              — Você tem algum curso acadêmico, tipo....zootecnia?
              — Não! Nunca ouvi falar disso!
              — Agronomia?
              — Kan, kan!
              — Fitologia?
              — Pior!
              — Nem carpintaria?
              — Não senhor! Não tenho, não!
              — O quê você sabe fazer?
              — Nada! Sei fazer nada!
              — É.....Infelizmente não tenho emprego pra "nada".
              — Que pena!
              Ao nos despedir, com um frio aperto de mãos, eis que aparece meu tio Almiro, que mal me enxergou.
              Depois de trocarmos um bestial adeus, saí desolado,  e, nunca mais trocamos palavras.
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 25/02/2006
Reeditado em 05/08/2007
Código do texto: T116079
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz