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XÔ SATANÁS, XÔ SATANÁS

Sexta-feira, primeiro dia de carnaval e Clodoaldo estava animadíssimo para a folia. Vestiu a fantasia que estava  sobre a cama - era de arrepiar! Tratava-se de uma fantasia vermelha de diabo, com dois imponentes chifres e um belo rabo, daqueles que terminam com àquela seta que parece o cursor do computador.
Encostado no guarda-roupa estava o inefável tridente, também vermelho e quase da sua altura. Vestiu a indumentária aterradora e foi escapando pela porta dos fundos da casa onde morava com sua genitora.

- Mãe, tô saindo. Não sei se volto amanhã ou domingo à noite. Não se preocupe – disse o encapetado carnavalesco.

Sua mãe, religiosa convicta da Igreja de N.Sra. dos Passos, não apreciava àquela festa profana e, inclusive não queria que o seu filho brincasse o carnaval. Nunca imaginaria  que ele teria àquela idéia  maluca  de sair  fantasiado de discípulo de Lúcifer. Por este motivo, Clodoaldo escapou sorrateiramente, longe dos olhos de Dona Aparecida. Não sem antes, ouvir o sermão materno:

- Filho, que Nossa Senhora te proteja. Tome cuidado!  Esta  festa  ainda vai trazer infelicidade  – pressentiu a mãe.

Clodoaldo praticamente não ouviu o restante da frase. Já estava na calçada, saindo para encontrar com os outros endemoniados do bloco  “O Diabo que te Carregue”, formado somente por amigos do trabalho. Todos trabalhavam como assessores e funcionários da Câmara de Vereadores da cidade.

No segundo dia de bacanal a bagunça não podia ser melhor:  o trio elétrico ensurdecia e extasiava os foliões. Clodoaldo,  já tinha tomado, seguramente, duas caixas de cerveja, umas 30 batidas de frutas  com nomes inidentificáveis, 10 conhaques de qualidade duvidosa, fora uma quantidade não mensurada daquelas “pinguinhas puras” de MG, que sempre aparecem nestes momentos. Com uma  morena fogosa enganchada no seu pescoço, dando àqueles beijos melentos e com gosto de não-sinto-mais-o-que-é-isso, já não era mais o Clodoaldo.... era Clôdiabo. E todos à sua volta, gritavam, berravam e sorriam bastante, como sorriem àquelas socialites retratadas nas colunas sociais de jornal (nunca vi uma delas com a cara fechada).

Veio então a bomba. A notícia chegou através da sua vizinha: Dona Filomena, que era mais conhecida por Jornal Nacional (pela quantidade de informações que dispunha sobre as pessoas e pela idade que tinha). Sabia de tudo e de todos. Alguns chegam a afirmar categoricamente, que a dita cuja sabia, uns dez dias antes, que o Bush iria invadir o Iraque. Pode até ser exagero mas, que uns cinco dias antes  ela tinha conhecimento, isso é comprovado.

- Clodoaldo, meu amor, sua mãe teve um enfarte. Está no hospital, nas últimas – disse-lhe com àquela voz dos amigos  das más horas. Àqueles que só aparecem para dar notícias ruins.

Atordoado pela bebida e pelo som de 700 decibéis do trio elétrico, Clôdiabo sentiu um míssil explodir na sua cabeça. Para deixá-lo mais desnorteado ainda, naquele momento o trio elétrico tocava e todos cantavam àquele hit de antigos carnavais baianos: “ na casa do senhor não existe satanás. Xô  satanás, xô satanás”.

Em  menos de 15 minutos o agora ex-folião, estava no hospital. Não deu tempo de trocar de roupa e nem teria cabeça para isto, pois a situação era crítica. Foi travestido  de capeta completo.

Ao entrar no quarto da sua querida mãe, notou de pronto o olhar reprovador da sua irmã, que militava na Igreja Universal  do Reino Deus e não falava com ele há mais de dois anos, justamente devido à suas extravagâncias momescas.

- Mãe, mãe ! O que a Sra. tem, mãe ! Fale comigo. É o seu filho Clodoaldo – balbuciou o rapaz com lágrimas nos olhos e um bafo de barraca de peixe em final de feira.

Tocada pela emoção em escutar a voz do filho amado ou talvez, reanimada pelo  hálito nauseante do rapaz, ou mesmo as duas coisas juntas, a velha religiosa fez um leve movimento com a cabeça.  Totalmente entorpecida pelos remédios administrados e pelo trauma, abriu os olhos lentamente e deparou-se com o filhote do capeta cara-a-cara, com grandes chifres e àqueles olhos esbugalhados em virtude das canjebrinas ingeridas durante a noite não dormida. Fora o cheiro de enxofre que exalava do maldito. Era o verdadeiro demônio em pessoa.

A infeliz anciã só teve tempo de sussurrar bem baixo:

- Minha Nossa Senhora dos Passos, livrai-me da besta-fera ! – e tombou a cabeça de lado, indo encontrar o Senhor.

Passados três anos e Clodoaldo ainda chora, imaginando que a mãe tinha uma chance de viver e que desencarnou, na verdade, por acreditar que havia entrado no inferno no momento em que o viu.

Deixar de pular o carnaval, Clodoaldo não deixou. Mas, por via das dúvidas, agora  só sai fantasiado de anjo da guarda, amparado por uma auréola, asas brancas e crucifixo pendurado no peito.
 O que as suas últimas namoradas ainda não entendem é porque, às vezes, no meio da folia Clodoaldo chora copiosamente quando escuta as pessoas cantando: “... na casa do Senhor não existe satanás. Xô satanás, xô satanás...”

 

Dionisio Teles
Enviado por Dionisio Teles em 26/02/2006
Reeditado em 01/03/2006
Código do texto: T116232

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Sobre o autor
Dionisio Teles
Barueri - São Paulo - Brasil, 64 anos
177 textos (43633 leituras)
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Dionisio Teles