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Coruja- das Torres

Noite fria a rondar o chalé suíço que ocupava uma grande área ao pé da serra.

Berenice afundava no sofá, grande demais para acolhê-la, sozinha, naquele início de noite.
Ouviu o sibilar do vento que  lhe lembrou o minuano gaúcho, nas árvores do jardim, num som agudo e prolongado, acompanhado do barulho da fonte: uma réplica de um aqueduto romano que transportava água dos montes Apeninos.

No teto de duas águas uma coruja piava agourenta.

Quando o dia se perdia, perdiam-se também os pensamentos de Berenice a divagar pelo passado. Daniel não era e nunca tinha sido o homem que idealizara, mas contentara-se com a sorte que lhe coubera, pensando nos dois filhos que dormiam no outro sofá, ao calor da lareira, E pensando assim, anulava sua existência, enterrando fundo seus sonhos mais bonitos e deixava a vida correr mansamente.

Conhecera Daniel antes de completar os dezessete anos. Fora seu primeiro namorado. Apaixonado, fazia planos e cobria Berenice de atenções, presenteando-a com botões de rosas e outros mimos e quando percebera já estava casada. O marido tornara-se para dona Candinha e seu Valter, um bom rapaz e, para ela, um companheiro e um pai afetuoso para seus filhos. Nada mais do que isso.

Olhando os filhos, lembrava-se de quando nascera a pequena Sara. O marido estava na Bahia e quando chegara encontrara Berenice na casa dos pais com a menina.

Emocionado, sentara-se com a filha nos braços e numa mistura de felicidade e deslumbramento, chorava, envolvendo a pequenez de Sara em seus braços fortes. Sonhava com o nascimento daquela filha e seus soluços comoveram Dona Candinha, a avó da menina.

Passado algum tempo, quando Sara já completara seis meses de idade, Berenice mudara-se com a pequena para longe dos pais e, se ninguém percebia seu desconforto, era porque fazia um grande esforço para esconder os sonhos, que pouco a pouco, foram encaixotados com a mudança e, corajosamente cruzou as fronteiras dos pampas gaúchos, na companhia de Daniel, com o pequeno rebento.

Daniel nunca lhe pedira para abandonar os estudos, mas era de opinião que não devia trabalhar, enquanto Sara fosse pequena, pois ninguém melhor do que ela para acompanhar a filha em suas descobertas do mundo. Pouco a pouco fora se acostumando, cuidava da pequena com esmero, decorava a casa, trazendo-a sempre limpa e cuidava de quase todos os afazeres domésticos. Uma vez na semana, Noquinha fazia a faxina.

Seus dias corriam lentos, normais, sem nenhum fetiche na nova cidade.

O segundo filho já chegara para sua alegria e de Daniel, mas em sua alma havia uma orquestra que não tocava mais.

Pegava vez por outra algumas encomendas de restauro em escultura. Dedicava-se a um trabalho minucioso de limpeza, remontagem e acabamento em tinta neutra. Na restauração de pinturas em tela, desmontava-as e tecia-as fio a fio, num delicado trabalho de resgate dos artefatos usados pelo seu criador. Isso lhe rendia um ganho considerável.

O barulho das chaves na porta anunciava a chegada do marido, arrastando-a para o presente. Sabia o quanto ele gostava de estar ali, junto dela e dos filhos. Incansável na sua maneira de ser, às vezes ocupava-se com pequenos afazeres do lar para agradá-la. Usava, com freqüência, seus conhecimentos culinários em delícias que se esmerava em preparar, e que sabia toda a mulher apreciar em um homem. Muita coisa aprendera com ele.

Daniel beijou a esposa. Era um unir de lábios que prenunciavam as delícias da carne. Logo se aproximou de Sara e Guilherme, beijou-os e depois os carregou com carinho, cobrindo-os no gracioso quarto. Ligou o ar e ainda à porta, virou-se para observar os olhos brilhantes dos ursos que apareciam junto de outros animais, na simulação de uma densa floresta que ele e Berenice colocaram na enorme parede.

Berenice continuava a ouvir o canto da visitante de hábitos noturnos. Já a conhecera uma noite, quando curiosa, saíra do chalé e se deparara com a titonídea bastante clara, finamente pintada de preto e coberta de manchas brancas em forma de gota. Descobriu que a estranha visitante nidificava num cupinzeiro no alto da serra e era de uma espécie chamada Coruja – das – Torres.

O fogo da lareira crepitava jogando calor na sala...

Em silêncio, Daniel aproximou-se da esposa e tomou-a nos braços. A grossa malha que o esquentava tinha um agradável perfume amadeirado. Enquanto fingia ver o noticiário, falou de banalidades e depois falou nos filhos, lembrando de acontecimentos dos quais acabavam sempre rindo muito.

Abraçou calorosamente a esposa e voltou a beijá-la com paixão. Mais de uma vez já haviam se amado próximo à lareira e, depois acabavam dormindo no grande sofá até que o sol da manhã ferisse com seus raios a imensa janela do chalé de campo. Bem posto ao pé da serra, com seu magnífico jardim de rosas de inverno que ornavam a bela fonte, próxima à entrada principal. De interior aconchegante, com cortinas leves e esvoaçantes a contrastar com as cores das almofadas macias, algumas jogadas pelo chão de tábua corrida, tratado com sinteco, vasos e páteras de fino alabastro, e graciosas esculturas, iluminadas sob a multicolorida  geometria de Tozzi, faziam da morada um lugar aconchegante. O ambiente saudável cheirava às flores da mata. Berenice não era adepta do cigarro e Daniel guardava como um ícone a carteira de cigarros importados, na mesinha de cabeceira. Abandonara o vício quando Guilherme nascera. Nunca mais fumara.

O sol fraco da manhã, na vidraça protegida apenas pela fina cortina clara, encarregou-se de acordar Berenice. Ela jogou as cobertas e encheu a banheira quente. Espargiu o óleo de amêndoas e mergulhou o corpo, ainda sonolenta, no perfume que a recompôs.

Com o corpo protegido pelo agasalho de gola alta, caminhou até o jardim onde o sol encabulado, na fria manhã, refletia na água gelada do aqueduto. Ali ficou a observar as gotas que caiam no meio das flores e espiou o telhado de duas abas. A visitante já havia partido.

Enquanto sentia o aconchego do ambiente, sentiu-se observada e, seus olhos encontraram os do homem que se debruçava no alpendre vizinho. Mantinha o olhar fixo em Berenice como se já a conhecesse, e um sorriso assolou seu rosto másculo sem, no entanto, dirigir-lhe sequer um cumprimento. Usava um grosso abrigo de inverno em tom escuro e jogava farelo às pombas- picaçus que ali faziam pouso. Berenice sentiu como se uma fagulha da lareira atingisse-lhe as faces, provocando-lhe rubor. Afastou-se e entrou em casa.

As crianças já despertavam e então se ocupou com os pequenos por um bom tempo e, depois quando ambos brincavam na varanda, dedicou parte da manhã para terminar a leitura de Violet Le Duc e acabou um projeto de restauração em escultura que fora encomendado.

Organizou a casa e preparou a refeição. À tarde, usou o carro para ir a um mercado próximo. Levou Lépido, um cão da raça Beagle, no banco de trás, junto com as crianças. Lépido fazia parte da família, mimado pelos pequenos, mostrava sua nobreza nas pequenas coisas. Carregava o jornal e agia como um guardião da casa, inteligente e bem-humorado, nas situações mais inusitadas.

Ao voltar, o pequeno Guilherme quisera ajudá-la a guardar os mantimentos na geladeira e, acabara quebrando uma dúzia de ovos e virado a farofa para o assado, no domingo. Contrariada, voltara ao mercado novamente e, ao atingir a entrada da garagem, as crianças voaram para dentro de casa, com grande algazarra para colar as figuras de um álbum que acabaram comprando.

Berenice fechou a porta do carro e uma rosa vermelha, embalada para presente, à entrada da garagem surpreende-a. Recolheu-a e, ao erguer os olhos, deparou-se com a figura do desconhecido. Sorria com desembaraço e acenou num cumprimento cortês. Berenice correspondeu e afastou-se com a rosa na mão. Já na sala, surpreendeu-se afastando a cortina para melhor observar dom Juan.

Naquela tarde procurou informar-se com Noquinha, a mulher que fazia a faxina da casa e ficara sabendo que o novo vizinho não era tão novo assim, pois já estava a ocupar a casa a mais de três meses. Tratava-se de um advogado que instalara seu escritório na cidade e alugara a casa de campo onde reuniu grande parte de sua biblioteca. Chamava-se Eduardo Salvatti.

A lembrança do desconhecido não saía de sua cabeça. Demonstrava nas suas atitudes que já conhecia Berenice, talvez costumasse observá-la, no seu hábito diário de  caminhar pelo jardim.

Berenice colocou a rosa numa minúscula pátera de alabastro, na mesa onde restaurava as esculturas e tecia as telas. Ficou a observá-la, absorvida em seus pensamentos e não viu o marido que assim veio encontrá-la, a fitar a rosa vermelha na pátera branca. Jamais vira Berenice colher uma das rosas de inverno que ele cultivava e acomodá-la com tanto cuidado na mesa das estátuas. Aquela rosa vermelha não era uma das rosas do jardim.
Lépido arranhou a porta, interrompendo os pensamentos de Daniel. Aberta a porta, deitou-se no tapete de pelego, esperando Sara e Guilherme. Berenice acariciou-lhe a cabeça. Lépido pareceu gostar.

Quando Sara entrou na sala e viu Lépido, jogou-se no tapete para recebê-lo num caloroso abraço e rolando, puxava-o de uma pata. Desvencilhando-se da menina, Lépido retribuía a brincadeira, abocanhando e fingindo morder a perna da menina. Riram-se das brincadeiras dos dois.

Guilherme entrou na sala carregando suas figurinhas e acabaram todos colando as gravuras. O pequeno contou ao pai que vira Lépido correr da serra com uma raposa na boca. Daniel explicou ao filho que a raça beagle era originário da Grã Bretanha, adotado por um antigo povo chamado celta e que estes cães eram usados para a caça à raposa.

Havia uma sombra de preocupação nos olhos de Daniel.  Berenice percebeu quando preparavam o jantar, naquela noite. Fez em silêncio os filés à milanesa com molho de nata. Não era um silêncio com propósito de feri-la, era mais um estado de espírito que independia de sua vontade. Berenice encarregou-se da salada de brotos.

Após o jantar ficaram pela casa com as crianças. Berenice confeccionou um novo vestidinho para a boneca preferida de Sara, colocou alguns detalhes novos na floresta que cobria a parede do quarto e Daniel e Guilherme montaram uma bateria com peças de um jogo que não usavam mais.

Algumas horas depois os pequenos recolheram-se para dormir.

Daniel e Berenice ficaram ainda na sala. Com poucas palavras comentaram o documentário que a televisão apresentava sobre John Ruskins e A lâmpada da memória.
Na lareira, o fogo crepitava alimentado pelas toras, jogando calor pelo ambiente.
Antes de recolherem-se, examinaram algumas esculturas, decidiram sobre a tinta a ser usada e depois foram dormir. Não ocuparam o sofá, mas a grande e confortável cama-baú, colocada ao centro do aposento.

Aconchegaram-se, beijaram-se e depois ficaram em silêncio, cada um com seus pensamentos a machucar-lhes a alma.

Berenice puxou a coberta e quis cobrir os ouvidos quando a coruja piou duas vezes...

Sentiu medo que Daniel lesse seus pensamentos. O sono custou a chegar naquela noite. Caminhou pela casa como um fantasma... Adiantou os restauros e só de madrugada conseguiu dormir.

Na manhã seguinte, Daniel saiu cedo e ela dormiu ainda até mais tarde. Depois do banho e do desjejum, foi como se uma força indescritível a guiasse até a janela à procura do desconhecido.

As pombas-picaçus ocupavam o alpendre. Não conseguiu vê-lo, mas certamente já estivera ali a alimentá-las. Lamentou ter levantado tão tarde, sentia o corpo dolorido pela noite mal dormida. Dirigiu-se para o aqueduto do jardim. As rosas de inverno resistiam às geadas. Daniel tratava-as muito bem. Inclinou-se para observar o gelo da fonte quando sentiu a mão que segurou firme seu braço. Num gesto rápido procurou desvencilhar-se, todavia já era tarde. Estava tão perto, sentia o perfume que não era o de Daniel, mas era gostoso, cítrico, masculino... Com sabor de aventura. Seus olhos encontraram os dele e ela admirou-se de tanto amor. Seus lábios se uniram numa paixão tão intensa que não saberiam explicar o tempo que ali ficaram, abraçados, escravos um do outro, as mãos que impulsivamente exploravam a pele, os cabelos, os lábios que se procuravam ávidos e ao mesmo tempo medrosos...

Fugiu depois. Ele quis impedi-la, mas não conseguiu e, então ficou a tatear os próprios lábios, na ânsia de  manter o sabor depositado.

Nervosa, esteve na mesa de estátuas e nada fez. Abriu o livro que não leu. Escolheu a música que não escutou. Secou as lágrimas teimosas que caíam de seus olhos. Uma orquestra tocava afinada dentro dela. Estava apaixonada! Ouvia gritar dentro de si o amor que sonhara um dia.
Sentia a falta de Dona Candinha. A ela contaria seu dilema. O pai com certeza a aconselharia e ela poderia chorar no seu ombro, como fazia quando era criança. Mas não podia fazê-lo, a distância que os separava era muito grande.

E assim os dias se sucederam. Na ausência do marido, os encontros no jardim, a companhia agradável que se tornou indispensável, as rosas novas que todas as manhãs ocupavam a pátera de alabastro, ora vermelhas, ora brancas... Lépido que já não estranhava mais o visitante, mas o acolhia com suas lambidas  quando ele acariciava-lhe a cabeça.

Daniel chegando e seus olhos à procura da pátera... Depois fitava a mulher com um amor intenso, obcecado, possessivo. Abandonou o cultivo das rosas. No dia que se propôs a podá-las, acabou com elas, alegando já terem cumprido seu destino...

Berenice não se conformou com a atitude do marido. O jardim, agora desnudado das rosas, continuava ali para os encontros proibidos sob a fonte do aqueduto. As begônias tomavam força. O pé de pinga- fogo começava a florescer. O inverno chegava ao final.

Quando a primavera surgiu, foi uma primavera diferente para Berenice. Era a estação do namoro para as aves e répteis e também para ela.

As pombas – picaçus da casa vizinha começaram a pousar no aqueduto, banhando-se na fonte com grande algazarra. Ela passou a apreciar as aves por sabê-las da casa  de Eduardo Salvatti. Os pés de fortuna floresciam multicoloridos. Libélulas verdes e azuis, de olhos facetados, reproduziam-se nas águas cristalinas para regalo das aves.

Daniel já não era o mesmo homem, mas apesar da tristeza que o abatia não deixava de amá-la e não eram poucos os momentos de paixão, o que agora não agradava tanto a Berenice, apesar do remorso que se instalava em seu coração.

A coruja – das – torres, mesmo chegando a primavera não abandonou seu posto, entre as duas águas, e toda a noite vinha, mensageira alada de mau agouro.
Era já véspera de Natal e Berenice dedicava seu tempo a decorar o chalé em companhia de Sara. As inúmeras lâmpadas, os bojos coloridos, as fitas sedosas e as estrelas brilhantes espalhavam-se pela casa.

À noite, Berenice foi acordada pela visitante noturna. Seu piar era agudo e arrepiante. Virou-se na cama e não encontrou o marido...

Quando os primeiros raios de luz clarearam o chalé, sobrepôs-se a ela uma claridade maior sobre a janela.

O ar enchia-se de fumaça, o calor era intenso, estouros sucessivos e faíscas perdidas. As chamas vermelhas, fumegantes, invasoras, tomavam conta da casa ao lado. A casa... Das pombas – picaçus. Teve medo de pronunciar o nome que lhe vinha à boca! Teve medo de chorar!

O impacto causado naquele momento era espantoso. Tudo ardia em chamas. Homens, com jeito de policiais, corriam aflitos, tentavam apagar as chamas. O corpo era carregado por duas pessoas para o interior de um carro.

A garganta calou o grito, o olhar apagou-se, o corpo doído e cambaleante afastou-se para o quarto, na busca desesperada de auxílio...

Na larga janela que dava para a casa vizinha, por entre os espaços da persiana, Daniel fumava, observando a cena sem sair do seu posto.

 A carteira de cigarros importados, guardados por cinco anos, quase vazia, sobre a mesa de cabeceira...

Nessa mesma manhã, a coruja- da- torres despediu-se tarde e nunca mais voltou às duas águas do chalé suíço...

Eliza Fernandes
Enviado por Eliza Fernandes em 08/03/2006
Código do texto: T120633
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Sobre a autora
Eliza Fernandes
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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