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NOVELA

NOVELA

       “Kátia Susana Perujo”






Linda, loira Cristina estacionou o carro defronte  à  casa da amiga e se lembrou da sua juventude. Fora feliz, se divertira muito, participara de um concurso de beleza e ficara com a segunda colocação. Sorte sua, pois não ambicionava o título, logo pretendia se casar com Fernando, um jovem estudante  de medicina.   Casou-se, teve uma linda  filha, Bianca, para quem  sonhara um  futuro brilhante. Queria que a filha seguisse carreira de modelo,  sendo   ela, empresário um sonho bobo, segundo Bianca,, que sempre teve paixão por estudar piano, balé e inglês. E, para a decepção de Cristina, a filha  se formou nas três  profissões, estudando desde criança: “uma simples professora”, pensava a mãe. Além desta, outra decepção esperava por Cristina, ela sonhara um casamento feliz como  o seu para a filha, mas Bianca se casou  com um médico viciado em bebidas alcoólicas. Cristina não pôde ter mais filhos, perdera o segundo, e não quis mais engravidar.
A morte de uma grande amiga   desalentou ainda mais o coração da ex-moça-feliz, Sandra, sua amiga de infância morreu de câncer aos 24 anos de idade.. Mas Cristina não quis mais lembrar coisas tristes, desceu do carro e entrou na casa da amiga  Lurdinha, que também fez parte de sua infância, e que agora era dona de uma confecção  de roupas.






























CAPÍTULO I


  -Tem coisa nova, amiga? – perguntou  Cristina entrando na casa-loja de Lurdinha.
   -Sim, e muita roupa bonita para escolher- respondeu a amiga, abraçando-a.- O que aconteceu, Cris? Você  está triste.
   -Nada, eu estava apenas pensando na vida, lembrei-me de Sandra, e de todas as decepções de tive  com Bianca, eu gostaria que ela tivesse seguido meus conselhos, estaria numa boa, do jeito que é bonita!
   -Bianca é realmente muito  bonita, mas escolheu um mundo totalmente diferente daquele que você idealizou. Se ela é feliz, é o que importa. Existem pessoas  em piores condições, a minha vizinha é  bonita também, mas não pode se locomover  sozinha, dê graças a Deus pois Bianca não tem nenhuma deficiência.
   -A  sua vizinha é perfeita mentalmente, Lu, anda até atrás de homem casado. Tudo bem, ele foi a grande paixão dela, mas acho super errado ela ficar dando em cima. Quantas vezes a mulher dele me contou das brigas que eles tiveram por causa da Sofia. Bem, eu não vim aqui para falar mal dos outros,  quero comprar  roupas. Deixa ver...
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Sofia estava tentando   falar ao telefone com  Ricardo, mas ele nunca estava. “mentira” ela pensava,  “Ele foge de mim”. Infantil, ela tentava vingança ligando para a casa  dele, desligando quando atendiam.     Isso   a  deixava  feliz, com  uma pontinha de inveja   de Nana, que do outro lado da linha tinha ódio, raiva, mas não podia fazer nada, ah,  se ela tivesse o telefone desta  talzinha! Com certeza a mãe dela nada  sabia, que vontade de contar  que a filha corria atrás de seu marido! Seria até divertido. Mas Nana  não  queria se meter em rolo, afinal, Ricardo estava sempre em casa, à   noite. Fiel, ela tinha certeza qu e ele o  era.
Sofia era bonita, dona de lindos olhos verdes, mas não tinha sorte  no amor,   também  não tinha amigos, vivia com os pais em uma casa grande e tinha um problema físico que  afetara a fala e o andar, ela precisava de apoio de alguém para se locomover .Era muito inteligente, fazia caminhadas todas as manhãs com uma moça, que a ajudava muito, a Vera, talvez sua única e melhor amiga. Conheceu Cristina através de Lurdinha   que era sua  vizinha. Não foi muito com a cara de Cristina e vice-versa. Mas quando soube pela vizinha que Cristina tinha amizade com Nana, ficou super  ansiosa: “Essa mulher pode até me ajudar”, pensava. Enganava-se porém.
Cristina  esquecera a tristeza, e chamou Lurdinha  para ir à sua casa tomar um chá, a amiga perguntou se podia levar Sofia, distraída, ela concordou, mas se esqueceu  que convidara Nana e Ricardo.











CAPÍTULO II

Na casa de Cristina, no sábado, o chá  estava ótimo, tinha muita coisa boa para comer, a cozinheira era muito eficiente. Com o apoio de Lurdinha, Sofia chegou, não usava maquiagem, mas estava linda. Cristina lhe sorriu amarelo, lembrando-se da gafe que cometera. “Meu Deus, s e  Ricardo chegar, ver essa moça  aqui, vai achar que foi  armação”. Mas Nana chegou só, ele  precisou ficar no  serviço por causa de uma reunião, para o alívio de Cristina. Sofia cumprimentou Nana, elas já tinham se visto de longe, se conheciam de vista, e, ali, uma ignorou a outra.
Lurdinha conversava  com Sofia:
-Querida, não fique nervosa, aqui somos todos iguais, você não precisa se sentir inferior a ninguém, Nana não  virá ao seu encontro.
-Que isso, Lurdinha, acha que estou preocupada com ela?  Não estou nem aí, eu queria ver o Ricardo, mas ele não veio, que pena! Bianca é tão bonita, gostaria de ser como ela, magra e alta.
-Cá entre nós, acho você mais bonita que ela- disse Lurdinha, - você é bonita por dentro também.
    -Cá entre nós, eu não sou e nem quero ser santa- Sofia soltou uma gargalhada.
               Todos  ouviram Sofia rir. Nana pensou: “Vulgar” Lurdinha , impressionada com a atitude da vizinha, pediu desculpas a Cristina:
-Já estamos indo, Cris, desculpe o  incômodo, Sofia também quer se desculpar, não é?
        -O que? Desculpar-me por causa de uma risada, Lu, acho que não precisa.
Saíram sem mais palavras, e, no carro,Lurdinha  disse para Sofia nunca mais faze-la  passar vexame.
-É meu jeito de rir, achei que você não se incomodaria. Eu quis chamar atenção, ninguém olha pra mim. Sou feia . Está certo  que ali havia   mais mulheres  que tudo, já estou por aqui     de mulher. Eu nunca tive ninguém que gostasse realmente de mim, os homens que  conheci queriam só o meu corpo.
Lurdinha se espantou com tal revelação, então Sofia não era mais virgem,, ela não sabia deste detalhe da vida da vizinha. Mas isso hoje em dia ´´e muito comum. Tentando mudar  de assunto, ela disse;
        -Vou te  contar um segredo.: Selma, irmã de Cristina e Lúcia, minha irmã, são amantes, elas são lésbicas.
Foi outra gostosa gargalhada de Sofia, adorava esse tipo de fofoca.














       
CAPÍTULO III

Mais essa para Cristina: descobriu que sua irmã era lésbica, que as pessoas caçoam, fazem gozação, o preconceito ainda é grande em pleno século 21! “Ainda bem que ela não  é deficiente,,”  pensou Cristina, “Apenas gosta de mulher. E Sofia, que gosta de homens mas não tem namorado! Acho que nunca  teve. Deve sofrer muito. Mas não tenho pena, ela é inteligente e um dia     há de encontrar quem a queira. Infelizmente no Brasil o preconceito domina muitas coisas, e o homem deseja tudo certinho, se a pessoa manca, por exemplo, já não está como ele quer. Mas Sofia é safada, escandalosa, acho que ela não merece ter alguém, Nana sofreu muito com ela, Sofia vivia atormentando a vida de  Ricardo, até hoje eles ainda brigam por causa dela, onde já se viu, ficar dando em cima de homem casado? Minha irmã é apenas  homossexual, coitada, não tem culpa, deixe-a em paz”.
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Sofia estava  recordando  os únicos momentos felizes de sua vida: quando fazia caminhada com Vera as duas, de mãos  dadas, caminhavam até  uma pracinha, e lá  a  amiga  lhe soltava das mãos e ela conseguia andar  sem apoio, depois ambas passavam em frente  à   loja onde Ricardo  trabalhava.   Sofia se apaixonara perdidamente por aquele homem que se parecia com o galã  da novela das oito, ou era ainda mais bonito. Ricardo, porém  não lhe dava bola, mal a cumprimentava, com um simples “oi”. E ela ficava feliz só por vê-lo, então, entendendo o seu desprezo, por ela,  resolveu   se vingar: através da lista telefônica,, descobriu o nome e endereço dele, e através  do telefone descobriu o nome de todos  na casa, nem a empregada escapou dos trotes, a partir  de então, a vida de Nana e Ricardo  se tornou um tormento. Mas Sofia não acreditava que ela , por ser deficiente, estava colocando a vida de   uma família em risco. “Jamais irão brigar  por minha causa”, pensava.
Vera  morava com os pais e tinha namorado, logo, logo se casaria, tendo então que parar as caminhadas com Sofia, teria que deixar a amiga para  cuidar da casa. Sofia estava preocupada, não podia parar de andar, era seu exercício físico,, o que fazer quando  Vera não pudesse caminhar mais com ela?
A moça deficiente    conheceu Rodrigo, um professor de educação física, eles se conheceram  através de uma entidade  que dava assistência ao deficiente, ela estava procurando alguém  para   substituir   Vera, e como dissera para Lurdinha, estava “por aqui de mulher”, queria mudar um pouco. Nessa época ela ainda era muito jovem e sempre estava sonhando com um grande amor. Ricardo  não a quisera nunca,  apaixonado pela  esposa. E  Sofia, percebendo que ele jamais lhe daria atenção, resolveu tentar esquece-lo. Quis, então paquerar  Rodrigo, mas ele já era noivo.
Tudo bem, Vera se casou, e deixou Sofia com Rodrigo.
O    casamento foi lindo, Vera estava linda vestida de noiva e  a  festa foi bárbara. Túlio, o noivo, era um cara bom, e Vera, com certeza, seria feliz, ela era muito dada, simpática ,todos adoravam-na ,especialmente Sofia, elas fizeram tanta arte! Que saudade   iria sentir da amiga! Mas as coisas boas duram pouco mesmo, muito, muito  pouco. Agora era esperar  que Rodrigo substituísse Vera, mas não como amigo, e sim como um bom profissional.
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    Cristina encontrou  Nana e esta lhe perguntou:
      -O que  aquela garota   estava fazendo no seu chá?
             - Sofia? Minha amiga    Lurdinha  quis fazer uma boa ação. Como a garota não tem companhia  para sair, a minha amiga decidiu chama-la, e, na hora eu nem pensei no seu marido, e concordei. Desculpe,  Nana,, nunca mais faço isso, você reparou no jeito dela?
      -  E como!   Moça sem compostura, não?  Dando gargalhadas, onde só havia gente  fina!
É  verdade. Lurdinha  gosta dela, ou tem pena. De vez em quando a leva para passear.
Pena? Aquilo não é digno de pena, é inteligente, escreve  poesia e manda para Ricardo.


-Não  sabia que ela escreve poesias
-Não? Aquilo tem uma cabeça que até eu admiro. Imagine! E o pior  é que Ricardo gosta.
-Dela?!
-Não! Das poesias.
-Ah, sim!
-Como vai Bianca?
-Bem, obrigada. De vez em quando     aparece em  casa toda  chorosa, reclamando do  marido que escolheu, não está feliz, mas fazer o  quê? Ela quem quis assim.
Despediram-se e cada uma foi para um lado.
 Nana   chegou   em casa e encontrou Ricardo no telefone, curiosa, ela quis logo saber com quem ele falava:
-Era ela?
-Sofia? Não, era um amigo.
-Por que você disse logo “Sofia”?
-Porque você perguntou se era “ela”.
-Sim, mas este “ela” poderia ser minha irmã, uma amiga, etc. Você logo se lembrou “dela”!  --0lha aqui, Nana, estou farto do seu ciúme bobo dessa garota, você sabe que  eu te amo, jamais vou  te trocar por uma pessoa por quem não sinto absolutamente nada  senão desprezo, pare de me  atormentar. Eu  só acho Sofia muito inteligente pois leio as poesias que ela escreve.
-Admira-a então?
-Admiro você.
Dizendo isso, ele lascou um beijo na boca da mulher, deixando-a feliz e sem fôlego.
-Acho que Sofia nunca sentiu isso – disse ele – e se depender de mim, nunca há de  sentir!
Pegou a mulher  no colo, levando-a para  a cama.

-Agora eu sou a mulher mais feliz do mundo!





















CAPÍTULO IV


                             Sofia era romântica e sonhadora,  amou Ricardo com todas as suas forças, mas ele nunca a quis. Com raiva, ela fazia as suas “artes”  e se divertia. Resolveu que não queria mais seu amor e tentou esquece-lo, mas foi tudo em vão.  Foi quando Rodrigo  começou a cantá-la, dizendo que ela era bonita. Ela não perdeu tempo    e decidiu que não queria mais ser virgem. O desejo entre eles explodiu, e aconteceu tudo o que pode acontecer entre um homem e uma mulher quando estão a sós. Ora, virgem com trinta anos, que se dane quem pensar mal dela! Agora ela se vingava de Ricardo, saindo com vários homens, embora  ele não sabia de nada, mas ela tinha esta satisfação. Rodrigo lhe abrira as portas, agora era mergulhar naquilo que ela sempre sonhara: ter alguém, mas ela tinha vários, e estava só.
Bianca chegou na casa da  mãe desesperada:
-Mamãe, estou super nervosa, estou desesperada!
-O que aconteceu, filha? – perguntou Cristina, ansiosa e preocupada.
-Estou grávida, eu não queria, mamãe, eu não queria..
A mãe, se sentindo  aliviada e feliz, acalmou a filha e disse brandamente:
-Por que todo esse desespero? você acaba de receber uma dádiva de Deus, filha, não fique assim.
-Vou estragar meu corpo, mamãe. Todas as minhas amigas que engravidaram , ficaram enormes, eu não  quero!
-Bianca, entenda, eu que participei de um concurso de beleza,  não me desesperei quando soube que estava esperando você, fiquei super feliz, agradeci a Deus pelo divino presente que Ele estava me concedendo. Depois que você nasceu, me cuidei, e tenho este corpo tão bem feito que Ele  deixou  até hoje.
A  linda mulher deu uma volta na sala, abraçou a filha e disse estar muito feliz por ser avó tão cedo.
-Já contou a novidade para o futuro  papai?
-Ainda não,mamãe, mas vou contar logo, logo. Obrigada pelo consolo.
Ambas se abraçaram.
Sofia e Lurdinha conversavam na loja:
-A Bianca, filha da Cristina está grávida. Ontem a mãe dela me ligou  e contou a novidade -mas  disse que a Bianca não estava feliz, com medo de estragar o corpo.
-Que coisa, não, Lurdinha, quem pode não quer.
-Por que? Você queria ter um filho, Sofia ?
-Eu gostaria  sim, mas se eu tivesse um marido, eu  tenho limites físicos, não posso cuidar -nem de  mim!
-Filhos, amiga, só nos dá dor de cabeça. Só nos trazem problemas, acho que não vale a pena! Você não tem namorado?
-Tenho vários, mas eles só querem meu corpo...
-Como assim, “vários”?
-Eu saio com homens mas eles não me levam a sério. Quem eu quero não  liga para mim, então resolvi me perder.
-E se perdeu mesmo?
-Acho  um absurdo as pessoas falarem assim  sobre um simples ato  sexual, é uma coisa  tão insignificante. Se perder... Ó... se perder...
Sofia  parou de falar, e quase perdeu a voz ao ver que Ricardo entrou na loja e sorriu.



CAPÍTULO V

      Sofia também sorriu. Lurdinha foi ao encontro de Ricardo:
-Deseja ver alguma roupa? Eu vendo roupas masculinas também.
-Não, obrigado, Lurdinha, passei aqui em frente, vi Sofia, seria possível   conversar um pouquinho com ela?
-Claro, Ricardo, fique a vontade, vou atender aquela freguesa que chegou agora. Como vai Nana?
-Bem, obrigado.
Lurdinha piscou para Sofia e foi atender uma senhora que estava  chegando.
Sofia não escondia a ansiedade. “Meu Deus, o que será que ele quer  comigo?”   pensou. Ele falou:
- Sofia, vim te pedir  que pare de telefonar para minha casa.
Então era isso? “Bela bomba”.
- Ricardo, eu uso o “meu”    telefone   para quem eu quiser, você sabe que eu gosto muito de  você...
-A minha mulher já se encheu...
-Pouco ligo para sua mulher, quero que ela, e você  se danem, eu só vou parar de atrapalhar sua vida quando  você   for meu, por  uma noite apenas.
-Você não sabe o  que está falando, sou chefe de família, tenho filhos, não posso faltar com minha esposa – ele disse nervoso.
-Eu te amo! – gritou Sofia. Mas ninguém prestou atenção e eles continuaram a discussão:
-Por que não me esquece? Não tenho nada com você. Sempre te ignorei.
Cheia de ódio, ela, com toda dificuldade física, o agarrou e o beijou com fúria. Ele escapou dos braços dela e saiu da loja cheio de vergonha.
    Feliz  por ter conseguido beija-lo, Sofia  pediu que Lurdinha  a acompanhasse    até sua casa, onde ela, já no  seu quarto, recordou  com    amor e ódio, o gosto daqueles lábios. Foi rápido, sim, mas foi muito bom!
Vera foi visitar Sofia, e esta lhe contou sua “arte”.
-O quê? Você beijou Ricardo?
-Beijei,   sim. E tenho certeza que ele gostou.
-Sofia, o cara é casado!
-Rodrigo também é. Já saí com cara casado, beijei, abracei, o resto você não precisa saber.
Mas, me explica uma coisa: Como  você sai?    Com o Rodrigo eu entendo,  ele vem aqui, e acontece. Mas e com os outros? Onde você  os encontra?
-É fácil:  Eu pego táxi    vou ao motel e espero um cara lá.
-Você é louca, criatura, não tem medo que seus pais descubram, ou medo de alguma doença?
-Medo de morrer eu não tenho, aliás peço a morte toda noite quando oro. Agora, o medo de que meus pais venham a ter conhecimento de que não sou mais virgem, esse medo eu tenho sim, mas não posso ficar pensando nisso, senão não vivo.
-E como você pega o táxi, você não anda sozinha! – Vera estava preocupada.
-Para que serve o telefone, Vera?
-Sim, mas como você chega até o carro?
-Eu consigo caminhar um  pouco, dá pra ir daqui do meu quarto até o portão.
-Se é assim, tudo bem. Seus pais  nunca desconfiaram de nada?
-Que eu saiba, não. Eles  acham que eu vou   ao centro espírita quando não me vêem  aqui.
-Você é realmente muito esperta, que bom! Não limita  sua vida por causa do seu problema  físico.... Isso é bom. Mas, Sofia, muito cuidado, a morte  não é ruim, mas a doença é perigosa, vê se cria juízo.
-Seu filho ficou com o Túlio?
-Ficou sim, agora preciso ir. Fique com Deus.
-Amém,   vá com Ele.
Vera saiu, deixando Sofia   um pouco preocupada, “e se meus pais descobrirem  tudo  o que faço!”
                         Ricardo  chegou em casa um pouco nervoso e um pouco feliz, ele não sabia que Sofia  beijava tão bem! Para ele, agora, a imagem da moça deficiente era outra, ele a imaginava incapaz  de beijar alguém, mas agora via que sua deficiência não podia impedi-la   de amar. “Como me enganei a respeito  daquela mulher, agora a imagino perfeita”, pensou. Nana  entrou no quarto e o encontrou pensando em Sofia.
-Vejo que está feliz, meu amor, aconteceu alguma coisa?
-Não, nada. Estou feliz porque cheguei  em casa e vou ficar por aqui, com você – mentiu para si mesmo, tentando enganar-se, e também enganando a esposa. Nana lhe   fez carinho e os dois se amaram.

Passaram 9 meses, Bianca  teve um lindo menino, a quem deu o nome de Yuri, a avó materna não gostou do    nome, mas não quis dar palpite na vida da  filha, já dera muitos. O pai do bebê estava todo orgulhoso, era um menino!  Pena que seu pai não mais   se encontrava entre os vivos, senão daria um churrasco    para comemorar o nascimento do  primeiro  neto.
- É o primeiro neto dos dois lados, vai ser uma manha só – disse   a empregada de Bianca.
-È uma pena que o pai é um beberrão, Luíza -  falou Cristina com um tom triste na voz.
-Mas a senhora pode ficar tranqüila, ele bebe de vez em quando, e chega sempre cedo em casa  quando não faz plantão no hospital. È um bom homem, eu posso lhe garantir. Bianca soube escolher.
-Que bom, assim você me deixa mais conformada, Luíza, obrigada!
A jovem e bela avó, pegou  o neto e o cobriu de beijos. Feliz!


 






















CAPÍTULO  VI

O exame chegou como  uma bomba: “Positivo”, o médico olhou   para  Sofia tristemente, “uma moça tão bonita e cheia de saúde!”
-E então, doutor? – Vera estava mais preocupada que a cliente
-Positivo, Sofia, você está com o HIV.
Sem dar muita  atenção ao médico, ela sorriu entre lágrimas:
-   Deus ouviu minhas preces, agora morro logo.
Vera se despediu do médico, pegou na mão de Sofia e a levou para casa.
-E agora, o que você vai fazer?
-Nada, vou deixar a doença progredir até que eu morra.
Indignada, Vera tentou convencer  a amiga a se tratar, dando-lhe um sermão, mas foi em  vão, Sofia nem ligava.
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Ricardo procurou Sofia:
-Você é muito bonita.
-Logo, logo toda esta beleza acaba. Agora que você vem me procurar. Nana sabe disso?
-Não, não sabe. Pouco me importo se ela vier a saber. Mas por que você  disse que sua beleza logo acaba, não é velha!
Ela o olhou com ódio:
-Estou doente, e você  vem me procurar justamente  agora, eu sempre te quis, nunca deixei  de te amar. Agora é tarde.
-O que você tem?
-Aids – disse Sofia em tom rancoroso.
Ele engoliu a dor:
-Aids? Mas como pegou? Fez transfusão de sangue?
-Não.  Transei sem camisinha.
-Mas eu pensei que você fosse...
-Virgem? Não, há um bom tempo que não sou mais.
-Transa com quem?
-Com vários.
-Como assim? – quis saber Ricardo, com um nó na garganta.
-Como assim o quê? Acha que só as pessoas perfeitas têm o direito de ter alguém?
-Claro que não, mas a sua revelação me assustou:”Vários”?
-Você não tem nada com a minha vida. Vou levar só mágoa de você. Agora,  por favor, deixe-me em paz, já tenho problemas demais.
Ricardo saiu chorando  com pena de Sofia.
Alguns meses mais tarde, ele estava no serviço e recebeu um telefonema:
-Pronto.
-Por favor, o senhor Ricardo?
-É ele mesmo.
-Tenho uma notícia um tanto chata. Sofia acaba de falecer...
Ele bateu o telefone, pegou o carro e foi até a praça onde conheceu Sofia.  Sentou num banco.
Grossas lágrimas lhe cobriram a face...
   
FIM.        

 
Susy
Enviado por Susy em 09/03/2006
Código do texto: T120947
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Sobre a autora
Susy
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil
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