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Sonhos

SONHOS

O sonho é o que nos permite tentar alcançar algo a que possivelmente nunca teremos acesso, mas que só pela tentativa nos torna maiores.

O voo é talvez a forma de poesia mais original e bela que se inventou no século vinte.
É poesia mais sublime e também mais efémera que conheço, é uma poesia profundamente egoísta por raramente poder ser partilhada com alguém, e estando o encanto dela na partilha, como pode ser ela tão bela, tão especial? É uma arte que se perde cada vez que se escreve, que desvanece a sua beleza transcendente cada vez que lhe acrescentamos mais um gesto. É algo que, ao contrário de outras obras da humanidade, quando esta desaparecer esta forma de belo também desaparecerá para sempre, pelo menos como foi idealizada, sentida.
E por isso até desapareceres me sentia dividido, constrangido, contrariado, cada vez que ia criar poesia, pois cada vez que o fazia também matava, ou tentava matar. Por isso nas preliminares do voo (numa altura em que, por metáfora, os poetas normais estão a balançar as palavras na cabeça e a girar -esperando por elas- com a caneta) sentia uma angústia, um grito surdo, uma vontade de negar a minha arte ficando com os dois pés bem assentes no chão e a cabeça no ar, a pensar como teria sido outro passeio, mas a sentir que não enchi o céu com sangue, algo a aliviar-me quase tanto como o voo. Mas de boas intenções está o inferno e esse céu cheio, e eu era mais um prisioneiro do dever e da minha arte. Voltava vezes sem conta porque senão tinha a polícia militar à perna e porque era incapaz de negar o meu prazer, apesar do desprazer (que a volúpia do meu desejo torna menor). Por isso o meu sorriso era sempre o mesmo, só se notando no meu rosto uma pequena sombra, facilmente confundida pelos meus camaradas e pessoal auxiliar de voo por cansaço ou pelo admitir mais ou menos inconsciente que a grande aventura da mãe pátria estava já perdida, apesar dos nossos dirigentes proclamarem o contrário.
Antes porém do desejo era preciso as tretas habituais do breefing, dos preparativosinhos irritantes pela sua demora, até que por fim me sentava nos 45graos de inclinação do assento, ligava o motor, sentia os quase dois mil cavalos do BMW a fazerem tremer a estrutura da ave, até que por fim os comandos obedeciam à vontade desse motor, fazendo elevar o Pégaso moderno e dando início ao sonho, mas também à morte, a esta estranha caçada a que chamaram combate aéreo.
Isto até ao dia em que partiste, até ao dia em que a guerra que tanto temias levar-me, se aproximou de ti perigosamente e te acabou por arrebatar nas suas asas da morte. Nunca esquecerei esse dia, o dia mais triste de todo, pela tua partida e pela sensação de que a podia ter adiado, apesar disto ser um enorme absurdo, apesar de ter apenas uma hipótese num milhão de evitar o teu holocausto. Nesse dia de há um ano atrás, tinha saído depois dum alerta ter lançado a minha esquadrilha na peugada de mais uma formação de bombardeiros que iam consumir mais uma cidade. Quando subi para o habitáculo senti a habitual dualidade do voo, prazer-desconforto, e também algo de inquietantemente novo: a sensação de que algo te tinha acontecido ou iria acontecer, medo justificado pela rota dos inimigos ir passar algures sobre a tua cidade. Dominado por esta ideia, agi febrilmente, envolvido numa profunda obsessão que me queria o mais depressa possível no ar, o mais depressa possível a dilacerar a formação americana, em a transformar em nada, para que a sua carga de morte não te tocasse. Já o sabia, isso era já habitual, mas quando vi a formação composta por diversas centenas de aparelhos senti-me perdido, sem saber por onde começar, sem saber de qual daqueles aviões poderia sair o teu dramático destino. Desorientado, lancei-me desvairado para o meio dos monstros, disparando sem cessar, envolvido numa raiva enorme que aumentou quando as bombas começaram a cair. Esgotadas as munições, apressei-me a aterrar na base, a reabastecer e a voltar, sem o prazer do voo tendo apenas na cabeça a tua figura e a pressa de a salvar. Mas eles eram tantos, meu deus! Para cada um que abatia havia sempre um, havia sempre mais, armados até aos dentes e que nos obrigavam a tomar precauções que nos consumiam o precioso tempo para evitarmos sermos atingidos pelas metralhadoras dos B17; mesmo assim, não me importei, e mergulhei vezes sem conta para o meio deles, até que uma rajada certeira me rasgou o painel de instrumentos, obrigando-me a abandonar o caça, cheio duma enorme frustração, impotência, dor, que aumentou (ainda hoje não parou de aumentar) quando pendurado no pára-quedas assisti à continuação do bombardeamento, e aos fogos que estes causavam no solo, tive apenas o pensamento de te encontrar, ou de pelo menos saber se estavas bem, por isso quando cheguei ao solo não me dirigi à base, fui até à nossa cidade, até à nossa rua, rezando para que um dos prédios ainda intactos fosse o nosso, mas como sabes, como sabemos, não era, dele restava apenas uma ruína, que nunca seria o suficiente para me apagar a fé, que me enviou até aos abrigos onde costumavas proteger-te, apenas para nada me dizerem, o que prolongou o périplo até os hospitais, onde por fim te encontrei deitada, aparentemente incólume, mas minada por hemorragias internas, que faziam de ti apenas um invólucro, donde a alma estava prestes a partir; o coma já te fizera partir, sendo apenas uma questão de tempo até ao fim absoluto. Mandei às urtigas o dever patriótico e fiquei ao teu lado, decidido a esperar o tempo que fosse preciso por ti, recusando-me a acreditar no inacreditável. Morreste nessa mesma noite, sem voltar a acordar, sem um último sorriso, ou apenas um esgar, sem nada, partiste em silêncio, em direcção aos céus que eu amava quase tanto como a ti.
Desde essa altura que as leis da guerra eram-me tão úteis como o são as “leis normais”a um estudante cábula de direito, pois sei que existem, até quais são, mas estou-me positivamente a borrifar para o assunto, elas passaram a ser o nada em que o teu fim me transformou. E desde essa altura que deixei de apreciar os céus, que sou incapaz de o usar para criar arte, que só os uso para semear a morte, a vingança, porque neles sou incapaz de apreciar o belo, porque o belo se perdeu no dia em que vieram deles a tua morte
Hoje vou estar algures sobre Berlim, e digo algures porque como no céu não há estradas nem pontos geográficos, a sua localização dúbia será sempre incerta e por isso indefinida. E algures nesse espaço imenso irei encontrar a mais que previsível formação com mais de mil aparelhos aliados, mil alvos para poucas dezenas dos nossos que conseguiram sobreviver a este inferno. Uma visão espantosa que quase nos rouba palavras para a descrever: mais de mil aparelhos em formação, tantos que até o imenso espaço parece pequeno para os acolher. Seria uma das visões mais belas da minha vida não fosse o caso de ser de morte, do interior dessas naves saírem cargas de morte que quase que apagam as nossas cidades do mapa, de ser uma visão igual à do teu último dia, uma visão de raiva e ódio, tanto que mal ligarei ao perigo de ser abatido, que investirei selvaticamente entre as hordas de metal para te tentar resgatar inutilmente, para tentar apagar o inferno que arde desalmadamente dentro do que resta da minha alma chamuscada pela tua morte, por demasiados anos de guerra e pelo reino da bestialidade para onde me deixei arrastar.
E nesse quase reino da imponderabilidade sou um quase rei, quase imperador, respeitado pelos meus e pelos inimigos que de mim ouviram falar. Os duzentos aparelhos que abati ao longo dos anos conferiram-me um invulgar estatuto de às, quase a roçar a lenda, porque lendárias são as minhas saídas e batalhas aéreas, que me fizeram encher a cauda do aparelho com marcas dos abates e a propaganda de imenso sorrisos, pelo imenso potencial que poderia oferecer, de sorrisos a população que manietada pela propaganda me considera um herói, um exemplo a seguir pelas criancinhas que na terra sonham em cruzar os céus com a minha audácia. Ou seja, um conjunto de tretas, um conjunto de patranhas, porque não sou nada disso, sou apenas o exemplo duma raiva demente que apagou o meu antigo papel de “poeta do ar”, um homem que antes voava por paixão e agora o faz pelo prazer da morte. Se enchi a minha folha de serviços com tantos abates tal não significa um invulgar e nato espírito guerreiro, tal é apenas o reflexo da minha sede pela imensidão, apenas saciada pela invasão desse ar que a guerra encheu de morte e da minha recente necessidade de matar.
Para alguns camaradas meus o currículo justifica-se pela vontade da caça e de tudo o que lhe está associado, quase por desporto e de todo o ritual da caçada que os torna os novos Junkers, a nova nobreza, os herdeiros da raça de guerreiros prussianos.
No que me toca, ainda me considero um herdeiro dos nossos grandes e ilustres homens de arte, um esteta, que antes de morreres via na perfeição do voo a tentativa de alcançar a suprema obra-prima, que mais ninguém verá, a não ser eu, ou uns quantos felizardos na solo. Antes os combates nunca eram um fim, mas apenas um meio para essa arte, um terrível intervalo a que me via obrigado, minutos breves de carnificina antecedidos e seguidos por longos minutos de pura liberdade, puro voo, pura arte.
E se digo “antes” é porque ainda alimento a esperança de um dia esta sede insana acalmar e poder voltar ao amor pleno, e te poder oferecer não a mistura explosiva do mais belo dos voos com o caos, mas apenas esse voo em si, impoluto, quase virginal, puro.
E é no meio deste imenso contra censo de amar e odiar que me lembro vezes sem conta da minha história, do meu destino, não que seja particularmente interessante para o resto da humanidade, mas é-o para mim, para nós, para me lembrar como tudo começou e tudo se transformou tão radicalmente: Lembro-me bem, tal como te deves lembrar, desse percurso começado a dois à quase treze anos quando, seduzido pelas histórias dos meus amigos duma “escola de planadores” para lá me dirigi; raras vezes se pode determinar o início duma paixão com exactidão, mas eu lembro-me bem, da hora, do minuto, do segundo, pois tal aconteceu mal a ave de madeira ganhou os primeiros milímetros de ar, e foi aumentando à medida que me ia elevando e deixando envolver por uma sensação que ainda hoje, após tantas horas de voo, não sei descrever com as palavras que ela merece. Sei apenas que foi uma paixão correspondida, pois em breve fui incluído no lote dos melhores começando por isso os treinos em biplanos com motor, onde o meu dom foi comprovado pelos outros e o meu amor cada vez mais provado, sentido por mim, só comparado ao que tinha por ti, e talvez por isso (ou por causa do perigo de voar...) encaras-te esta paixão como uma tolice que julgavas passageira, nada impressionada com a minha repetição até à exaustão das primeiras aventuras nos céus. No entanto percebeste que há certas coisas nas pessoas que amamos que por muito que discordemos delas temos de as aceitar, e por isso anuíste silenciosa neste novo amor, limitando-te a discordar nos teus silêncios e ausência de opinião durante os meus relatos, pois a coisa tinha vindo para ficar, e por isso decidira esquecer o curso de medicina, e seguir a carreira de piloto, decisão abortada pela revelação dos responsáveis da escola que esta não passava duma fachada para disfarçar o novo exército do ar alemão, então ainda embrionário, proibido pelo tratado de Versalhes, mas reactivado pelo Nacional-Socialismo que acabara de ganhar as eleições. Querendo restaurar o orgulho alemão enxovalhado pelo armistício da I Guerra mundial, os nazis puseram em marcha um gigantesco processo de rearmamento, onde a nova força aérea desempenhava um papel de vital importância nos planos (ainda obviamente secretos) de dominação. Nesse tempo toda a nação estava envolvida num enorme fervor patriótico, ao qual não ficámos imunes, e por isso a perspectiva de em vez de médico me transformar num piloto da nossa querida Mãe-Pátria nos orgulhou e até te envaideceu, pese embora as reservas que nunca deixaste de ter. Mas, caramba! Vivíamos tempos em que praticamente toda a população se encontrava embaída na propaganda nazi, suficientemente poderosa para afrouxar alguns dos teus receios e de te envaideceres pelo teu marido fazer parte do exército do grande Reich E foi assim que, com a minha teimosia e o teu apoio contrariado me transformei num jovem alferes da nascente Luftwaffe, a força aérea que em poucos anos quase iria dominar os céus do planeta. E a essa nova elite de jovens destemidos e ambiciosos deveria ter sido dado o melhor dos treinos, e por isso nos foram dadas tantas oportunidades, por isso treinámos sem cessar, aperfeiçoando até ao exagero possível “lopings”, “Tournous”, “Immelmanns” e outras manobras indispensáveis à dominação desses céus. No entanto para mim aquilo era apenas voo, apenas paixão, que continuou intocável mesmo depois de ter deixado os treinos e passado para os caças armados, assumindo então clara e descaradamente o meu estatuto militar. Entretanto a nação crescia, cada vez mais forte, mais orgulhosa perante o silêncio envergonhado da Sociedade das Nações*. E todos os meus camaradas começaram a sentir a necessidade de algo mais prático do que os treinos, começavam já a prenunciar o “vicio da pólvora”, que em breve seria saciado, pois a Guerra Civil espanhola eclodiu, dividindo o país e o mundo industrial que encheram os dois contendores de material bélico novinho em folha, aproveitando também a ocasião para experimentar novas tácticas de guerras duma guerra maior que já se adivinhava. Sendo assim um campo de experimentação, não foi de admirar que “voluntários” fascistas e democratas estrangeiros fizessem a sua entrada em cena. Confesso que não tive coragem para recusar o convite, embora não tivesse vontade de te deixar mas temia que uma eventual recusa me pudesse tirar do ar, e , sendo, assim acabei por entrar na história do conflito ao integrar a Legião Condor, corpo militar de jovens lobos aviadores que haviam de dar cartas nos céus do continente dai a pouco. Foi pois em Espanha que descobri o lado negro da paixão, pois foi neste país que abati os meus primeiros caças, que fui obrigado a destruir os objectos que mais amava, pois numa primeira fase dilacerou-me o coração e alma crivar os biplanos doados pelos russos com metralha e faze-los beijar violentamente o solo. Perfeitamente dividido racionalizei a questão, chegando mesmo ao ponto de desistir de voar, mas não consegui, a simples perspectiva de deixar os céus transformou-me num cobarde, num escravo da minha paixão, e por isso esqueci as mortes, a guerra e decidi viver apenas para os momentos de voo antes e depois de cada combate. Ainda te quis escrever e pôr-te a par desta divisão, procurando uma opinião tua, uma orientação, mas, temendo a violação da correspondência e receando que os meus chefes duvidassem da minha dedicação, preferi apenas contar-te que o teu “moço dos ares” não parava de brilhar, não parava de encantar os comandantes com o dom que achavas incomodativo.
Ao fim de um ano regressei para ti e para integrar os quadros duma academia militar, onde transmiti aos futuros “ases” a arte da moderna guerra aérea, mas também (um pouco às escondidas...) o amor pela simples elevação aos abismos aéreos. Nesses últimos dias de paz que antecederam a grande chacina e, apesar das tuas reservas, ainda te consegui levar num dos meus voos -valendo-me do meu estatuto requisitei algumas vezes um bilugar onde te ofereci os céus só limitados pela maquina (cujo tecto reduzido só me permitia sonhar com altitudes maiores), mergulhando na beleza das nuvens, e saindo delas beijando à distância algumas das nossas mais deslumbrantes paisagens, enfiando-me na suavidade possível tremida (apesar dos avanços os aviões para os neófitos ainda tremiam assustadoramente...) por vales e montanhas ainda mais belos vistos do ar, rodopiando suavemente e fazendo versões “suaves” das perigosas manobras aéreas que deviam fazer de mim e dos meus camaradas os senhores alados do novo mundo, duma nova era que estava prestes a começar. Para mim aquele passeio contigo foi ainda mais a essência de sempre sem a qual era incapaz de viver, poesia, arte na sua máxima beleza, mas para ti continuavam a ser...uma parte sem a qual eu não conseguia viver, imensas reservas, algum enjoo e um redobrado receio por saberes ser aquela a minha forma de vida...Depois daquele voo sublime a tua opinião aligeirou-se, as reservas suavizaram-se, passas-te a apreciar a sensação de ver o mundo ao contrário, de o ver pequeno, de me acompanhar , (penso que para te assegurares que não fazia nenhuma asneira...)e de me fazer sentir que apesar de incapaz de partilhares o meu “vicio” estarias sempre ao meu lado na vertigem azul, penso e sentiu-o , pois nunca o chegas-te a dizer, não sei se  por orgulho se para não estimular ainda mais essa paixão (como se tal fosse possível!) pois nos meses seguintes chegas-te a subentender novos passeios, que a minha agenda ocupada impossibilitou. Penso que com novas passeatas poderias realmente começar a entender a minha paixão, e talvez a partilhar, mas o tempo correu contra nós demasiado depressa, apesar de hoje desejar congelar aquela hora e meia no tempo e nunca sair dela para sempre, o tempo cruel pois esvaiu-se demasiado depressa e depressa demais chegou o cruel Setembro de 1939 quando invadimos a Polónia e demos origem à presente guerra. Nessa altura temeste pelo futuro e confessaste não acreditar na propaganda que prometia vitórias fáceis e o regresso para breve dos soldados. Temias a minha partida e a perspectiva do regresso ser apenas uma palavra cheia de demasiadas boas intenções. Pouco antes decidíramos ter um filho, e temias também que ele nunca viesse a conhecer o pai, tal como tu, que perderas o teu apenas com cinco anos de idade nas valas de Verdum. De comum acordo decidimos que a criança só viria quando a guerra acabasse, sem sequer imaginando que, com esta decisão nunca viria a nascer. No entanto assegurei-te que a vitória era de facto uma questão de (pouco) tempo, que éramos invencíveis, afinal eu próprio já vira isso em Espanha...Acreditando na minha tranquilidade, ou apenas o simulando para me tranquilizares, a tua inquietação desapareceu e foi assim que como veterano fui chamado à primeira linha, e a partir dai estive em quase todos os cenários de combate, sendo o meu painel de caça um mostruário elucidativo dos países por onde passámos: tornei-me um “às” sobre Varsóvia, o meu oitavo abate foi um Fokker holandês, e o meu primeiro bombardeiro um Bleriot francês sobre a Bélgica, sendo que comecei a coleccionar aparelhos ingleses na grande e curta batalha de França, que ao fim de um mês prostrara o nosso mais odiado inimigo. Nesse verão a minha promessa dum regresso parecia ir cumprir-se, pelo correr da guerra e pelas imensas saudades que me dilaceravam por apenas passar junto de ti os irrisórios dias de licença. Nesse verão as cartas eram mais optimistas do que nunca, aumentado por uma licença em Paris, para onde te levei, e onde te amei como em nenhum outro local, por causa desse local e pela paz que parecia ter finalmente chegado, faltando apenas a queda de Inglaterra, a meros 30km de nós, ao alcance do braço dos nossos exércitos invencíveis. Seriam apenas mais alguns meses de campanha para depois ficarmos juntos para um imprevisível sempre. No entanto a incompetência dos nossos chefes aliada à enorme tenacidade dos britânicos fez com que a campanha se malograsse e todos ficássemos momentaneamente baralhados sem saber se o Fhurer ficaria por ali ou acharia outros cenários para os nossos generais. E por espantoso que pareça, nem nos reveses globais conheci a derrota, pois depois do malogro da tentativa de invasão de Inglaterra, e enquanto os nossos Marechais se queixavam pelo fracasso, eu ganhara mais oito marcas e uma promoção a Major e o comando duma esquadrilha. Após alguns contactos consegui uma colocação perto da nossa cidade e assim pensei que ficaria até a paz murmurada ser assumida, esquecendo ingenuamente que a guerra já tinha viciado em definitivo o Nacional-Socialismo e por isso essa paz durou para mim quase um ano pois apesar de termos invadido ainda a Grécia e a Jugoslávia, acharam-me “dispendioso” para estes combates e guardaram-me para o maior na maior das campanhas alguma vez empreendida por um exército quando invadimos a imensa União Soviética, onde a falta de treino e algumas deficiências técnicas dos aparelhos tornaram os corajosos e tenazes aviadores russos em alvos demasiado fáceis para a minha experiência. Entretanto, fiz-me de esquecido à ideia de um segundo voo contigo, dado os céus estarem cada vez mais inseguros, mesmo na época em que o mundo pensou que a Alemanha ia ganhar o mundo, e entretanto a imensa União consumia recursos imensos da nossa limitada pátria, apesar de tudo parecerem rosas ou facilidades, pois foi lá que os meus abates se transformaram em números loucos, quase impossíveis. Por isso não parei de aumentar esses números incomuns, nem mesmo quando a guerra começou a virar a sua cruel sorte e a minha pátria deixando o seu papel ofensivo, se remeteu à defesa. Fomos então invadidos por enxames de bombardeiros aliados, que despejaram quantidades imensas de bombas sobre as nossas indústrias e cidades, num carrossel interminável de fogo, onde te temia perder, pois no céu eu via a força dessas formações, que abatíamos em números cada vez mais crescentes, mas que apareciam cada vez com mais força, ao ponto de me começar a fazer seriamente duvidar da vitória que os dirigentes não cessavam de prometer. Nesse cenário de quase caos comecei a pensar na nossa vida depois da derrota, comecei a fazer planos para quando tudo isto terminasse, desejando que acabasse depressa mas contigo ao meu lado, agarrando-me a ti e ao prazer de voar, às minhas queridas paixões como única forma de não endoidecer no meio da loucura que Hitler tinha transformado os sonhos por ele prometidos.
Agora, a meio do primeiro semestre do nosso sexto ano de guerra, e numa altura em que muito pouco resta já da nossa querida pátria aguardo com impaciência o fim, apesar de te querer ainda vingar um milhão de vezes, aguardo esse, como a altura em que poderei voltar aos pássaros sem garras, sem ódios, sem rancores, voar apenas pelo amor de voar e de te tentar reencontrar nesse céu impolutamente azul sem o tracejado das metralhadoras, as detonações de canhões e o fumo de dezenas de aviões mortos a precipitarem-se para a terra onde nasceram, mas esse fim irá condenar-me a estar preso no solo, pois as minhas marcas de caça o posto militar e a selvajaria com que me bato desde há um ano me darão não a liberdade esperada, mas um campo de prisioneiros, um previsível julgamento e a condenação de jamais voltar aos céus.
Haverá maior crime do que o de proibir um artista de criar?
Não, e por isso o meu sonho absoluto e inalcançável será ganhar o meu céu, a liberdade de criar sem limites, de encher os céus com todo o eu voo, a minha poesia, o meu amor mais supremo e de to dedicar para sempre.
O voo é talvez a forma de poesia mais original e bela que se inventou no século vinte.

Já alguma vez vaguearam numa praia sem ligar ao tempo, sem relógio, sem tomar em atenção à noite que substitui o dia, e ao dia que lhe ocupa o lugar, andando por andar, ou à procura de algo enterrado nas areias imensas, e que por muito que se esforcem não o encontram embora tenham a fé que o irão conseguir?
Quantos dias da infância perderam a escavar no mesmo jardim onde o vosso pai ou mãe foi criado, à procura de um tesouro de infância (meia-dúzia de moedas...) que ele guardou um dia, para se esquecer na altura de preocupações mais maduras, voltando estas à memória quando se reviu na tenra idade do filho?
Quantos planos, quantos sonhos não terão alimentado, quantas quimeras eregeram, para as deixar pelo caminho quando a idade vos deu outros interesses ou vos cobriu de cinismo ao ponto de terem esquecido os sonhos da infância? (não digo ambições pois esta palavra pelo seu concretismo para mim surge nos anos seguintes)
Já alguma vez sentiram a solidão do espaço? Já alguma vez sentiram que jamais chegariam ao vosso destino, provavelmente nem por acaso? Já alguma vez pensaram que iriam viajar para sempre bem como a vossa descendência, num movimento perpétuo que poderia durar o próprio tempo do cosmos?
Pois eu ,a minha companheira e os meus camaradas estamos a viver uma mescla do que está acima escrito, estamos a viver uma busca interminável em direcção a nada, ao destino mais ambicionado duma certa humanidade, em direcção à terra perdida.
Até há algumas gerações atrás os mapas ainda no-la assinalavam, mas nessa época a necessidade de a reencontrar era apenas mais uma ideia entre as imensas que não considerávamos indispensáveis. Depois, bem depois os nossos humanos começaram a morrer, vítimas duma série de pragas, da excessiva poluição, mas também (na minha opinião) da saudade pela origem. Constatada dolorosamente a irreversibilidade do nosso declínio, formou-se primeiro um grupo que procurasse os mapas esquecidos, e depois de se constatar que se tinham extraviado para sempre na imensa burocracia que sempre caracterizou a raça humana, formou-se a equipa que a iria procurar, dando depois inicio à diáspora inversa, ao longo comboio espacial que iniciaria o seu rumo para morrer no berço. Não sei quais foram os critérios verdadeiros de escolha, não sei se escolheram os mais aptos física e psicologicamente, ou se apenas escolheram os mais sonhadores, sei apenas que num repente eu a minha companheira e uma série de pilotos e cientistas fomos enfiados na nata da tecnologia com uma única e desesperada ordem: encontra-la, custasse o que custasse e com a indicação bem precisa de jamais voltar para trás. Mas esta última série de palavras nunca seriam cumpridas mesmo que quiséssemos, pois em breve fomos atacado pela febre da imensidão espacial, que nos tornou sedentos, desesperadamente sedentos pelo único destino que os nossos corpos e almas quereriam, pois à medida que consumíamos anos-luz íamos ficando mortos para os nossos e vivos para aqueles que iríamos encontrar.
Cada milímetro do grande cosmos desde o início que nos contagiou, que nos deu uma vontade louca e tocar nesse incerto destino. A hipótese dela estar morta, do seu solo e atmosferas estarem ainda mais contaminados que o nosso planeta natal era irrelevante, porque tínhamos que a descobrir.
E nesta busca desesperada recordei os tempos de escola onde se falava melancolicamente dos livros antigos que a tinham no centro de tudo, da memória, no centro do pensar e sentires da espécie, mas o tempo acabou por passar inevitavelmente, transformando em pó os livros e em unidades demasiados dispersas a memória global.
A imensidão do cosmos onde o homem mergulhou acabou por o embriagar e por o fazer esquecer as suas origens, o caminho de casa que nunca deveria ter esquecido.
Perdemo-la assim, bem como a vontade de a rever, mas o mesmo tempo que esvaiu em nós o amor, fê-lo voltar um dia, num tempo em que o local de origem da raça era a única coisa que realmente restava a uma humanidade demasiado dispersa pelo cosmos que, habituada aos novos mundos descobertos e transformados, relembra-se por fim do inicio, da origem, e dai uma das urgências em a voltar a rever e porque também existem certos seres da nossa espécie quando chegados a uma altura avançada da sua vida sentem necessidade de voltar às origens  e talvez tivesse sido isso que nos fez querer resgatar esse pedaço nós.
Os mapas estrelares perderam-na, e cabe-nos a nós a suprema honra de a reencontramos
Há anos que vivo com ela na cabeça, há anos que a idealizo vezes sem conta e mais ainda há medida duvidosa que me aproximo dela.
Mas agora que os monstros primordiais que assustaram a humanidade na altura em que as outras espécies a poderiam ter morto no início estão de novo a regressar em força, acho tristemente lógica esta busca pelo berço. Provavelmente para alguns dos nossos homens mais sábios o declínio poderá ser parado na terra inicial, a humanidade poderá reverter a irreversibilidade da sua extinção, talvez...mas para mim encontrá-la será apenas o fechar do ciclo humana, será apenas faze-la morrer onde tudo se passou, tal como aquele vagabundo que percorreu imensos caminhos e que na altura em que a morte começa a ser uma sombra que ganha forma não quis deixar o seu corpo nesses caminhos, quis regressar aos seus ou às sua memórias, quis morrer em casa.
Disseram-me um dia que a beleza das estrelas só o é plenamente quando as contemplamos do seu berço, que a fome por elas só nasceu porque tudo indicava que seriam sempre inalcançáveis. Concordo, e para mim essa é a maior motivação, o impulso sem fim, que me faz continuar a acreditar apesar da imensa desilusão que surge a cada nova desconfirmação dos sinais recebidos pela nossa maquinaria. Queria pois vê-las dela, ver o dia a cobri-las, e depois esperar pela noite onde elas apareceriam mais uma vez, sendo irrelevante se estivesse a morrer, sendo irrelevante qualquer destino que se seguisse, pois teria encontrado aquele que desejava ao encontrá-la.
Perante as hipóteses reduzidas de a encontrar (pois estamos a faze-la duma forma aleatória, pulando de galáxia em galáxia até que o terceiro planeta mais próximo do sol, um planeta azul apareça à distância no meio delas nos indique o objectivo) o nosso sonho é  talvez ingénuo, mas quem ousa questionar uma imaginação ingénua?
A cada novo sinal, despertamos e conferimos mais uma vez se por fim a encontrámos, mas mais uma vez a resposta é negativa...Quantos sistemas teremos percorrido, com quantos milhões de estrelas teremos enchido os novos e intermináveis mapas? Nunca demasiados, porque a cada nova tentativa podemos a estar a aproximar-nos, mesmo que este “podemos” dure mais um milhão de anos. A cada despertar da tripulação cansada vejo nos seus olhos a esperança de sempre, a fé inquebrantável que jamais se irá quebrar contra as demasiadas hipóteses que nos dizem estarmos demasiado longe, porque para nós o tempo e a distância não se mede em anos-luz, mede-se na nossa esperança, e essa será eterna, porque a terra é demasiado bela para merecer o nosso desânimo, porque o nosso sonho é mais eterno do que o próprio e infinito cosmos, porque o nosso sonho é terno no conforto que adivinhamos quando a pisarmos, de encontramos a mais doce das aspirações, a nossa casa, o nosso berço, a nossa terra.


Roma Victoria!
O grito do General dominou a parte da planície que a sua voz roucamente poderosa alcançava, iniciando as tréguas naquele local. Como se duma pedra lançada sobre a água se tratasse, o grito propagou-se a todo o campo de batalha, tirando aquela terra das trevas e mergulhando-a na súbita e estranha paz. Ligeiramente curvado pelo peso da couraça e de horas de intensos combates, olha a planície semi-envolta pelo fumo e neblina matinais, completamente extenuado pela peleja e pelo peso das palavras que tinha acabado de proferir, enquanto erguia bem alto no seu braço direito a espada e o direito de reclamar aquelas terras como mais uma parte da mais amada e odiada de todas as cidades.
Roma Victoria!
Em breve a frase ocupava todas as gargantas dos vencedores, ecoando como um trovão definitivo na paisagem do grande dia e avançando para todos os locais da Gália Celta que naquela noite deixara de o ser para sempre, para acordar o dia como mais uma província da grande cidade.
Roma Victoria!
Exclamação luminosa dita por um dos obreiros do grande feito, depois de ter ceifado um enorme e poderoso guerreiro gaulês, ao qual faltava o treino disciplinado do Cidadão que, com golpes economicamente certeiros, acabara com o enorme perigo daquele guerreiro, cuja imagem de gigante bem poderia ser a da Gália: imponente, poderosa, corajosa como poucas nações, mas desunida quase sempre, caíra aos pés de Roma, menos numerosa, aparentemente mais frágil, mas mais unida, mais coesa, mais ardilosa, impiedosamente racional e por isso temível, invencível, a mais poderosa cidade do universo!
Roma Victoria!
Ainda mal acreditando neste espantoso feito de armas, olho para o centro onde está a cidadela barbara, onde está cercado o último e mais poderoso chefe, o único a conseguir transformar as tribos desavindas da sua terra num corpo único que esteve a um passo de tornar inverso o dialecto e o grito luminoso. Cercado por nós, esperou o auxílio que veio numa enorme horda assustadora nos seus gritos de guerra, mas que acabou por esbarrar nas imensas defesas que os nossos engenheiros construíram para evitar a libertação do grande comandante bárbaro. E durante algum tempo houve um cenário de guerra ainda mais absurdo que a própria guerra em todo o seu fulgor: os sitiantes foram cercados! E os únicos homens verdadeiramente livres eram os que tentavam acabar com o cerco, mas como acabaram por falhar, perderam a condição de homens livres.
Vitória de Roma!
Como sabe bem ouvir este grito de glória, como sabe bem saber que toda a campanha que nos ocupou vários Invernos acabou com os nossos estandartes bem erguidos aos céus, como sabe bem sentir que só os céus poderão ser o nosso limite!
Vitória de Roma!
O dia acorda, deixando os braços frios da noite, duma forma tranquila, enganando tudo à sua volta, enganando os restos dum inferno que até há bem pouco tempo dominava esta terra, impunha as suas trevas. Agora com a chegada da aurora ele pareceu render-se, extinguindo-se quase com o mesmo fulgor que começou, acabando duma maneira tão repentina, abrupta, quase tão abrupta como a batalha que jaz por terra.
A República ganhou, mais uma vez e quase como sempre, Roma ganhou.
Mas nós, os obreiros de mais esta façanha teremos ganho realmente? Terá ganho o soldado decapitado ao meu lado? Os feridos que agoniam entre os cuidados dos nossos médicos e os outros aleijados que hão-de sobreviver para a próxima campanha ou irão voltar para a sua terra, cheios de histórias, cheios de glórias mas sem a força que os ferimentos permanentes lhes tiraram?
Quando começou este inferno? Quando irá acabar? Palavras e perguntas fáceis de responder a quem está de fora, a quem não vive isto “por aqui”.
Vitória de Roma!
Só a minha centúria perdeu mais de metade dos homens, e eu mais alguns amigos dos primeiros tempos de legião, homens e sentires cada vez mais escassos pelas batalhas sem fim e pelo tempo que não para de avançar.
A seguir à Gália virão os territórios do norte, a Germania, a terra das tribos selvagens que Caesar soube tornar aliados nesta campanha, mas que todos sabemos (sentimos pela lógica absoluta duma guerra de dominação) serão as próximas a seguir o destino dos homens caídos à nossa frente. Os germanos, cuja ferocidade, cujas florestas densas e sombrias prometem ainda outras campanhas (porventura ainda mais duras do que esta...) não o sabem, penso que nunca realmente o saberão, mas já estão escravizados, por que isso é uma questão de oportunidade e de tempo, tempo romano.
Vitória de Roma!
Roma locuta, causa finita.
Quando Roma fala, acaba a discussão. E Roma fala pelo poder incontestável das Legiões que abrem o mundo bárbaro às nossas vias infinitas, pelas quais circulam os comerciantes da República, cujas riquezas e promessas de lucro seduzem os povos já pacificados e que se convencem por fim que a única forma de poder é a nossa, a única ordem verdadeiramente harmoniosa é a maneira romana. E por isso as vias que nos levam a quase todo o lado, são a única via para a paz eterna que quase todos desejam, que a paz é uma realidade acima de qualquer política, mas como a única política capaz de estar acima das divisões dos povos, a paz ideal é a romana, a única maneira de viver é a romana, por isso a única voz a ser ouvida é a que possibilita essa paz, é a romana. E a maior prova da veracidade destas palavras é tida nas Legiões: disciplinadas e unidas fizeram-nos vencer todos os obstáculos, mesmo até os naturais, tal como aconteceu no início da revolta barbara que deu origem e ao fim desta batalha: aproveitando uma divisão na República que levou o nosso grande General a ficar em Itália, os bárbaros revoltaram-se, chacinando os nossos cidadãos de Cenabum e pilhando os seus bens, iniciando a grande revolta que nos ameaçou expulsar da Gália. Esta revolta teve o condão de unir as tribos e o de as terem levado a achar um chefe para derrotar a previsível reacção das Legiões. Homem incomum pelo padrão da disciplina que conferiu aos seus homens, transformando a coragem dispersa dos celtas numa massa ordenada, numa sombra de Roma que perigosamente ganhava corpo a cada dia que passava. O tempo então deixara de ser romano, de tal ordem que a celebre rapidez de processos com que Caesar reagia sempre (celeritas, como ele gosta de dizer) pareceram toldados pelo Inverno rigoroso. Saindo de Roma e chegando à Província** viu-se prisioneiro dos elementos que o impediam de dilacerar a revolta cada vez mais forte nos territórios do Norte Foi então que todo o génio e treino do braço armado da República começou a mostrar todo o seu esplendor, quando as Legiões saíram dos seus quartéis de Inverno, vencendo a neve e o frio em dois dias, chegando ao coração da revolta e começando a repor a ordem universal ameaçada. Por fim chegámos, por fim lutámos à maneira habitual das Legiões, com ordem, determinação e uma chefia dada pelos Deuses, pela sua audácia, sabedoria, genialidade, porque até os maiores exércitos do mundo nada são sem um chefe que potencie todo o seu poder devastador. Apesar dos bárbaros terem queimado as colheitas e cidades por onde passávamos e de nos terem quase derrotado pela fome, acabaram por poupar Avaricum, uma cidade fortificada considerada impenetrável por todos, menos pelo génio de Caesar e da nossa engenharia, cujos instrumentos de cerco e liderança sensata acabaram por fazer cair a cidade, acabando assim por alimentar as Legiões famintas e lhes restaurar as forças e o animo para o resto da campanha, embora o resto da campanha quase tenha sido o nosso fim, pois logo de seguida teve lugar outro cerco, desta feita a Gergovia, tendo-nos de nos dividir, dado que para dominar mais uma tribo em revoltosa (desta vez os Parisii) Caesar deixou para essa tarefa de dominação quatro preciosas Legiões. Mas o cerco foi falhado, claramente falhado, ao mesmo tempo que uma das últimas tribos leais a Roma decidiu mudar de lado, por lealdade aos seus irmãos de sangue e por sentirem que a sorte das armas não veria a águia a pairar sobre elas. Por fim tivemos de abandonar aquela cidade, deixando demasiados Cidadãos adormecidos para sempre naquelas terras férteis. Reencontrando as Legiões, que tinham parcialmente falhado o objectivo proposto dado os bárbaros, pouco antes delas chegarem, incendiaram Lutecia***, a sua capital, e não oferecendo combate, não deixando outra alternativa a Labienos (o comandante temporário delas) senão juntar-se a nós, possibilitando a Roma apresentar-se como um único exército para os últimos combates que haviam de decidir a sorte da República e do mundo. Por essa altura a rebelião gaulesa era praticamente total, tendo os bárbaros por fim um chefe único, um rei, qual o qual nos poderiam fazer frente. Por um momento Roma esteve a um pequeno passo do desastre: em pleno território inimigo e cercado por inúmeros adversários, só nos restava voltar para as nossas bases a sul na Provença, reconstituir efectivos e esperar pela próxima estação, prolongando ainda mais aquela campanha que se arrastava à demasiado tempo. Por um momento o destino do mundo parecia celta. Mas foi em tão que a sorte da guerra voltou a sorrir à república e a deusa Fortuna voltou os seus favores para nós -Entusiasmado pelos sucessos recentes, o rei gaulês lançou sobre as Legiões em retirada a sua poderosa cavalaria ( à qual devia parte do seu sucesso), subestimando o poder de Roma, e com isso sofrendo uma pesada derrota que o obrigou a retirar para Alesia. E foi nessa altura que o génio Caesar se revelou mais uma vez: numa jogada de tudo ou nada viu no recuo do rei uma oportunidade para o capturar ou matar, derrotando assim toda a rebelião gaulesa e pondo fim ao emergente império, pois sem um chefe carismático a desunião tomaria novamente conta dos bárbaros, possibilitando assim uma dominação mais tranquila à República. Era uma jogada entre o desesperada e de génio, um único golpe onde tudo iria ser jogado...Apesar de ser uma fortaleza impressionante, a imaginação do nosso comandante e dos nossos engenheiros brilharam como nunca até ali, pois o próprio desenvolvimento da batalha obrigou a inovações só à altura da genialidade do nosso chefe supremo e da imaginação desses engenheiros - Os sitiados aguentaram, o cerco prolongava-se e recebemos então a informação (por parte de desertores gauleses) da vinda duma horda cuja missão era libertar o seu rei. Depois, depois a história já foi contada algures nestas linhas: construímos uma segunda linha de defesa, desta feita para nos proteger do ataque esperado o novo cerco teve de facto lugar, o auxílio veio e quase que venceu, valendo-nos na altura a arte da guerra romana e a sua enorme destreza, bem como o auxílio da cavalaria Germânica que ao atacar a retaguarda daqueles que nos cercavam os obrigou a abrandar a pressão e com isso a dar-nos a vitória, a mais festejada das vitórias da república.
A empresa de facto esteve no limite, a dúvida de facto pairou sobre todos nós, mas quando no auge do combate, numa altura em que a sorte das armas baloiçava entre os dois lados vi os meus homens a não vacilar, a cerrar as linhas de escudos com a velha e treinada determinação de sempre e a multidão imensa dos inimigos a chocar contra ela comecei a compreender a razão do nosso destino, antecedidos porem pela tempestade da artilharia de Roma: quando as nossas Scorpio lhes perfuraram as carnes, mais profundamente que qualquer espada, quando as nossas Balista os pregaram ao solo com a potência das suas pedras, e os nossos Onager os fizeram pensar que o fim do mundo ai vinha, mas ao invés deles chegámos nós para complementar o trabalho da artilharia, para rasgar definitivamente essas massas ululantes de bárbaros, exultei, apesar de já o ter visto imensas vezes, apesar de ter visto todo o esplendor da máquina de guerra romana em acção; quando no combate individual as nossas espadas rasgaram mais fundo do que as deles em perfeita sintonia com as máquinas já louvadas, comecei a ter a certeza; quando os disciplinados cidadãos de Roma se transformaram em máquinas febris de matar, ignorando o seu passado, e futuro e concentrando-se apenas no presente, onde tudo se decidia, onde o passado iria ganhar significado e o futuro a sua realidade, um presente que decidiu tudo, e onde apenas éramos assassinos implacáveis controlados apenas pelo instinto de sobrevivência e pela rígida disciplina romana, à qual participava com as minhas ordens, as ordens destinadas a fazer sobreviver a centúria, ordens repetidas por centenas de homens, às centenas de centúrias que formavam individualmente o corpo coeso das Legiões. Quando vi nesses olhos febris pelo sangue, no descontrolo controlado, a vontade da glória global e não individual, eu tive a certeza de que Marte nos sorria ufano, eu tive a certeza inquestionável da vitória de Roma. Mas quando por fim o inferno acabou e deixei de ver inimigos em torno de mim, fiquei sem compreender, fiquei sem saber o que fazer, pois todas aquelas horas de peleja me pareceram sem fim, me pareceram uma eternidade, e por isso ainda continuei com o olhar à procura dum alvo que a fúria incontrolada dentro de mim me exigia. Até que o grito do General me devolveu a verdadeira dimensão da realidade que acabáramos de conquistar, como que em reacção a este tipo de choque, reagi como o meu chefe, erguendo a espada e berrando a constatação irrefutável de todo o nosso poderio; por um instante olhei os homens à minha volta e reparei que estes dirigiam os seus olhos cansados para a minha pessoa, sorrindo num misto de alívio e de glória, berrando por fim eles também a pequena frase que poderia ser o nosso hino de glória. E foi então que por entre o enorme clamor que fechei os olhos e inclinei o rosto para o céu, ignorando o fumo acre do campo de batalha, ignorando o cheiro a sangue e suor, deixando a cara ser lambida pela chuva ténue que caia despreocupadamente perante a indiferença de todos. Nessa altura o aroma perdido dos campos antes da batalha encheu-me as narinas e tocou-me a alma. Terá sido minha imaginação? Não sei, só sei que aquele momento foi o mais feliz de toda a minha vida.
Vitória de Roma!
Olho para o horizonte de paz agora aberto, mas nele só consigo divisar a guerra, guerra sem fim, guerra interminável, para além da Germania, para além dos tempos, guerra, minha, que me acompanhará até que a velhice torne o meu braço demasiado frágil para erguer uma espada, guerra para sempre, até que a minha eternidade seja abreviada por uma lança dum futuro dominado. Guerra interminável, porque demasiado cedo fui educado nela, embrenhado dela, a um ponto de não passar sem ela, de não saber fazer outra coisa, de mal conseguir imaginar outra coisa que não os hábitos e rotinas da legião, de me alimentar das batalhas como me alimento fisicamente de não imaginar a vida sem o bradir das espadas, sem o caos duma guerra, porque para mim não é desordem, é pura música da mais perfeita arma de matar em acção, um som demasiado sedutor para um veterano como eu poder passar sem ele, sem o som das legiões em movimento, de não conseguir viver sem o esplendor das batalhas, o meu esplendor!
Vitória de Roma!
Mas apesar de não saber fazer outra coisa que não seja pelejar e pilhar, de exercitar a arte da guerra, quando sonho não sonho com as glórias de mais uma vitória, os meus sonhos não são preenchidos com cenas como a do General cansado esfarrapado e sujo, pela violência dos combates, mas radioso a clamar a glória da grande e mais radiosa cidade do universo, quando sonho os meus sonhos possuem sempre o mesmo padrão: vejo-me a passear pela imensa Roma, a passear pelas suas intermináveis ruas ruas, envolto na multidão, sem ter de comandar homens, sem couraça, sem espada, como um vulgar cidadão, gozando o livre arbítrio de andar por onde quero e me apetece, a gozar a paz das conquistas das distantes legiões algures na fronteira cada vez mais longínqua, a gozar a enorme confusão ordenada da urbe, imerso nas suas maravilhas, sem saber fazer outra coisa a não ser viver e sonhar com a paz.; sonho em acordar tranquilamente sem a rotina das armas, em sair calmamente da minha domus, deixando tranquila a minha esposa e filhos e só (com a segurança que o meu futuro e a minha paz interior está assegurada) em assistir ao nascer do sol sobre os nossos templos, pensando nessa altura noutros deuses que não Marte(o meu deus dos combates, e ao qual devoto todas as minhas mais queridas preces) ver o derramar dessa luz sobre o centro de tudo, sobre o Cenabum, tranquilamente, vivendo nela e sem ter que sonhar e ansiar (e quase divinizar devido à sua sempre eterna distância)com a paz; aspiro por viagens tranquilas às províncias da república sem um arma na ilharga e os medos dos seus habitantes a cobrirem-me de temores pela sua resistência escondida, sonho em poder ver-me tranquilamente no meu leito de morte, carregado de anos e rodeado pela família, que me amaram como um cidadão do mundo romano e não como um guerreiro. Sonho em passear nas nossas vias ao invés de ceifar as populações barbaras permitindo assim a construção sem resistência delas, sonho em visitar os locais das batalhas e honrar os herois e os mortos ao invés de ser como eles. Sonho em ser livre, contar apenas os segundos e não os anos que nos separam minha querida, sonho em não ter as legiões e as guerras entre nós, mas apenas a eternidade ou a brevidade das nossas vidas.


O mais secreto e íntimo dos sonhos era poder ser tão amado pelas palavras como eu as amo.
Sonho em estar a lidar com as palavras escritas num computador, ou mesmo numa esplanada, insuflar-lhes vida e assim as ver cair radiosas no papel, a ordenarem-se cadenciadamente, a formarem histórias, poemas ou apenas meros pensamentos pelos quais outros irão passar o olhar e sentir-se como eu me sinto quando encontro as “palavras certas”. Sonho em ter o dom de fazer bailar as letras, ordená-las na gramática que desconheço e na magia daqueles que conseguem extrair o seu máximo potencial, sonho em ser um mago das palavras e não apenas um mero aprendiz. Sonho em fazer surtir nos outros as emoções que me levam a devorar palavras desde a escola. Só não sonho em ser poeta pois não possuo o grau acertivo destes pela imensidão, renuncio contrariado a ser um escritor das prosas porque a alma que possibilita a estes o ordenamento das frases só me deu alguns salpicos.
Gostaria que as palavras me amassem como eu as amo, pois à excepção daqueles que me são próximos, elas são a coisa que mais amo, e haverá algo mais angustiante do que amar e não ser amado?


Conto protegido pelos Direitos do Autor

*   Órgão percursor da ONU, criado no rescaldo da primeira guerra mundial e extinto a quando do eclodir da segunda
**  Sul da actual França
***Actual Paris

BIBLIOGRAFIA:
Além dos inúmeros livros e revistas que fui lendo ao longo dos anos, para escrever alguns dos textos deste capítulo socorri-me das seguintes publicações:
 Military Heritage June 2000: Adolf Galland: Determination and drive helped make the young German a General of Fighters, by Patrick Worden
Military Heritage October 1999:The great gallic revolt: Caesar and Alesia, by Eric Niderost
Druídas de Morgan Llywelyn, Edições Temas da  Actualidade, S.A
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 10/03/2006
Reeditado em 16/03/2006
Código do texto: T121337
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Miguel Patrício Gomes
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