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Estranhos acontecimentos de um fim de tarde

Teria ido a cavalo, mas nesse dia decidira ir a pé. Reunir a tropa no curral não era tarefa simples... Concorria para isso a falta de hábito, tanto dele quanto dos animais. Esses últimos tinham vida bastante ociosa, seus afazeres não iam muito além de entreter os poucos e infreqüentes visitantes. De todo modo, o vilarejo não ficava demasiado distante: uma caminhada de vinte minutos. Agora, no entanto, principiava a arrepender-se da decisão tomada mais cedo. O regresso dispendia um tempo consideravelmente maior, pois a descida de outrora convertia-se em uma longa subida. Além disso, as nuvens prometiam para breve uma forte chuva. Esse revés não fora previsto, embora tais eventos climáticos fossem esperados àquela época do ano, mormente em fins de tarde.

Acelerou o andar. Já alcançava a primeira porteira, sinal de que o caminho estava quase vencido. Pouco mais de mil metros o separavam da casa do sítio, oculta na curva do morro. Em outros tempos aludia-se àquela construção como “sede da fazenda”. Não mais. A extensão da propriedade fora bastante reduzida ao decorrer dos anos e, naqueles dias, já não se fazia muito por lá. Mesmo antes, havia certa liberalidade no uso da expressão “sede”. Esse nome pressupõe a existência de outras edificações, as quais nunca houve.

Nada disso interessava Breno, que desejava apenas um abrigo para observar a chuva calmamente. A natureza, no entanto, foi indiferente aos seus anseios. Grossos pingos d’água principiavam a estalar em seu chapéu. Ele se deu conta de que correr para a casa já não era uma opção sensata. Ficaria encharcado de qualquer forma. Em um sobressalto, procurou à sua volta algo que o poupasse desse incômodo. Foi então que avistou o cenário dos inusitados acontecimentos que motivam esta narrativa: um cocho.

Este cocho encontrava-se alinhado a uma cerca, sendo acessível por ambos os lados. Era coberto por poucas telhas, já bem velhas e revestidas de líquen. Medíocre em termos de abrigo, mas, nos limites do alcançável, nada havia de melhor para cumprir a função. Em uma curta corrida foi possível esconder-se da chuva, não totalmente incólume de seu efeito, mas razoavelmente seco. Por sobre o comedouro havia uma mureta de alvenaria, obstáculo que evitava a passagem de animais de um lado ao outro. Breno sentou-se ali, de modo a ficar mais próximo do pequeno telhado e evitar os respingos do chão.

Após acomodar-se, constatou com satisfação que seu abrigo não era de todo mal. Sentia-se suficientemente confortável para aguardar todo o tempo necessário até que a chuva parasse — o que, traduzindo as expectativas do rapaz, significava não mais que meia hora. Mas de fato não havia motivo para pressa, ele não tinha nada importante a cumprir no resto do dia. Nem nos dias seguintes, vale dizer. Que afazeres teria um jovem de dezessete anos, no fim das férias escolares? Apenas inventar novas modalidades de ócio. Pena que seus primos, cuja colaboração nessa diligência era de grande valor, já haviam ido embora. Mas ele era bem capaz de cuidar disso sozinho. Caso desejasse companhia, havia sempre o vilarejo, cujos escassos habitantes ele conhecia bem.

Essa povoação até hoje deve existir, quiçá exatamente como era. Já naquela época dizia-se que era um lugar parado no tempo. São três ruas mal calçadas, em uma disposição aproximadamente triangular. Em cada cruzamento há uma pequena praça e, ao lado da igreja, um ginásio esportivo. Existem também cinco bares, quase todos equipados com mesas de sinuca. Nota-se que, embora pequeno, o vilarejo oferece uma boa gama de opções aos costumeiros desocupados. Em um local ou em outro, o rapaz sempre encontrava parceria para uma sinuca ou uma cerveja, ou ambos. Outras vezes ia para a praça maior, onde geralmente havia pessoas sentadas a falar de nada. Lugar hospitaleiro, como muitos outros dessas Minas Gerais. Seu nome será omitido, a fim de não vexar os habitantes com a narrativa dos sórdidos acontecimentos daquela tarde.

O cheiro de terra molhada era agradável. Depois da chuva o chão vai estar bom para pegar minhocas, pensava Breno. Não que intencionasse fazê-lo, não tinha gosto pela pescaria. Mas de caçar tatu ele gostava. Essa prática ainda era usual naquela região e, por diversas vezes, tivera ele a oportunidade de acompanhar essas caçadas noturnas. Havia dois cães de caça no sítio, da raça que por ali chamavam simplesmente de “cachorro americano”. Era dito que os cães daquele tipo têm talento nato para matar tatus. Se bem treinados, aprendem inclusive a matar apenas os tatus, deixando viver as galinhas do terreiro.

Observando as vacas ao redor, notou que todas estavam voltadas a favor do vento. A razão de postarem-se daquela maneira, sabia ele, era evitar que a chuva lhes atingisse na face. A maioria dos animais suporta as intempéries com resignação — se é que se pode atribuir-lhes essa emoção humana. É curioso, contudo, como alguns deles têm certos caprichos... E, naquela fatídica tarde, não foram apenas as vacas que demonstraram isso.

Olhou para o céu, na esperança de se descobrir sob uma nuvem passageira. Frustrou-se. O denso véu de água mal revelava a linha do horizonte. Através dessa cortina semi-opaca e esbranquiçada, tudo parecia estático. Tinha-se a impressão que todo movimento pertencia à própria chuva, em seu monótono caminho descendente. Mas havia uma exceção, logo notada por Breno... Um vulto, que se aproximava em cadência de trote.

Em alguns instantes tornou-se claro do que se tratava. Era a mula. Qualquer adjetivo, para fins de identificação, era dispensável. Tratava-se da única mula existente no sítio e arredores. Todos os vizinhos eram horticultores e, os que possuíam algum animal, não apreciavam muares.

Se as montarias do sítio não tinham muitos afazeres, esta tinha-os ainda menos. Montá-la era um desafio que poucos se dispunham a enfrentar. A causa daquela rudeza poderia ser um adestramento inadequado ou uma característica intrínseca de sua índole, não se sabe. Fato é que se deixava montar apenas por Tião, o capataz. Às vezes até o seguia, como um cão segue seu dono. Esse comportamento peculiar era catalisador de maldosas conjecturas do populacho local. O pobre homem reagia com incontida fúria às eventuais brincadeiras, o que, ao mesmo tempo, incentivava novas provocações e reforçava a desconfiança geral. Verdade que nunca houve testemunhas confirmando a suspeita, mas era notório que, mesmo havendo no sítio animais de marcha mais macia e maior obediência às rédeas, Tião demonstrava clara predileção pela mula. Por esse motivo, não outro, ela foi mantida na propriedade.

O animal chegou ao cocho e, sem qualquer cerimônia, também fez dele seu abrigo. Para um quadrúpede daquele porte a proteção era ainda mais precária, dada a exigüidade do espaço, mas a mula não parecia se importar com isso. Tampouco importava-se com a presença de Breno, cujas canelas roçavam-lhe o costado. Tal proximidade, em outras circunstâncias, provavelmente seria motivo para escoiceios e mordidas. O desejo comum de se esconderem da chuva, todavia, pareceu ser um excelente conciliador.

O cheiro de pêlo molhado invadia as narinas do rapaz, mas este também não se incomodava. Na verdade, a momentânea docilidade de sua companhia o admirava. Lembrou das histórias sobre o Tião, e foi então que um princípio de idéia começou a se formar em sua mente... “Barranquear” a mula. Ou seria, já que estava sobre um cocho, “encochar” a mula? Do ponto de vista semântico, não havia diferença. Sendo ela receptiva, seria simples. O cocho lhe daria a altura necessária e, para o equilíbrio, havia as vigas do telhado...

Mas não, procurou repelir depressa aqueles pensamentos impuros. Como poderia cometer ato tão hediondo? Aquilo seria um duplo pecado: bestialismo e adultério. Sim, adultério, pois aquela era a mula do Tião. A idéia pode parecer absurda, mas foi justamente essa última a que mais contribuiu para que Breno contivesse sua insurgente volúpia. Por aqueles lados, o bestialismo não era um tabu tão grande assim.

Ele nunca tomara parte ativa nessas depravações, mas a cópula com éguas era prática comum entre seus primos. Diversas vezes já havia presenciado essas cenas dantescas. Em alguma ocasião até segurara o cabresto, decerto por não haver terceira pessoa que o fizesse. Geralmente se dedicavam a tal atividade nas madrugadas, voltando de festas em vilas vizinhas.

Um de seus primos, que não tinha reserva alguma nessas questões, jamais deixava passar em branco essas oportunidades. Certa feita esse garoto sofreu um acidente. A égua, sob efeito da estimulação mecânica, acabou por urinar sobre o infeliz. A embriaguez impediu-o de se desviar a tempo, resultando que ficou totalmente encharcado. Para chegar ao sítio, o grupo ainda tinha que passar pelo vilarejo das três ruas. Tiveram a infelicidade de encontrar aberto um dos cinco bares. Os ocupantes, reconhecendo os cavaleiros, aproximaram-se para conversar. Pelo cheiro do garoto molhado, não tardaram a intuir as aventuras pregressas daquela noite e a perder o fôlego em risadas.

Breno pensava nesse vexame, em sua tentativa de suprimir as idéias libidinosas que lhe incomodavam. Mas já não era capaz disso. O que antes era um esboço de pensamento tornara-se uma idéia completa, concebida em detalhes. A imagem de si próprio como um centauro, a penetrar aquela mula, não lhe saía da mente. Assim como Zeus transformara-se em um touro branco ao seduzir Europa, quisera o rapaz poder transformar-se em um garanhão, ou mesmo em um asno, para possuir sem remorso aquela fêmea animal. Talvez não tenha pensado exatamente nessas imagens, mas o fato é que as fantasias mais loucas lhe tomavam a consciência. O corpo logo respondeu. Estava com uma inegável ereção. Ter o pênis contido nessas condições era incômodo, então sacou-o de suas vestes. A mula pareceu dar-se conta do gesto, pois voltou seu olhar para o rapaz. Sua cauda balançava. Aquilo já era demais, seu estado febril interpretou a atitude como provocação. Uma tentativa de seduzí-lo. Masturbou-se. Com poucos movimentos rápidos, a questão estava resolvida.

Arrefecidos os ânimos, o rapaz se deu conta da depravação que acabara de cometer. Não seria melhor que tivesse cedido logo à tentação primeira? Ao menos poderia dizer a si mesmo que houvera sido apenas um ato mecânico, mera colaboração tátil que o corpo dava, ali, a fantasias alhures. Seus primos justificavam-se daquela forma. Mas não, seu caso era mais torpe. O objeto de seu desejo fora a própria mula, aquela mesma, à sua frente. A mula de Tião. O que seria pior? Breno não sabia o que pensar daquilo. Sentiu vontade de pitar um cigarro de palha, mas não os tinha consigo. Voltou o olhar na direção de casa. A chuva ainda caía forte. Foi embora assim mesmo. A mula o seguiu.
Cumanré
Enviado por Cumanré em 13/03/2006
Reeditado em 13/03/2006
Código do texto: T122831
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Sobre o autor
Cumanré
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 38 anos
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