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O SAPO E A PERERECA




Um sapinho, daqueles bem verdes e pegajosos, vivia num lago, lá pras bandas do sem fim, e pulava de folha em folha, cantando uma cantiga triste de doer o coração e de fazer os olhos aguarem.
Um dia, quando o sol havia esquecido de aparecer e por isso o céu chorava meio acinzentado, uma perereca se aproximou do sapinho e perguntou a ele para que lado ficava o brejo do porvir. O sapinho olhou em volta, parecia que ouvia uma voz, mas não via ninguém e voltou a entoar a cantiga sem letra.
A pererequinha, meio impaciente, repetiu a pergunta, mas não obteve resposta. Parecia mesmo que o sapo não a via. E como isso podia ser? Ela estava lá e sabia que estava, olhou-se no lago que borbulhava chuva e por entre as ondinhas viu seu rosto amarelo sardento. Ela estava lá. O sapo não a via ou fingia não ver. Desaforado, pensou a pererequinha e pulou na mesma folha em que estava o sapinho.
A folha quase não agüentou o peso dos dois e por um momento o sapinho perdeu o equilíbrio e assustado percebeu que não estava sozinho.
A seguir o diálogo travado pelos dois.

Sapo - Oras, quem é você? Por que pulou na minha folha? Há tantas outras folhas, por que veio se estatelar bem na minha? Quase caio na água.

Perereca – Desculpa, não foi por mal, mas eu estava falando com o senhor e parecia que eu não existia. O senhor não estava me vendo.

Sapo – E quem é você para que eu veja? Qual sua importância?

Perereca – Caramba, o senhor nasceu assim ou ficou assim depois que cresceu. Não é de se admirar que esteja sozinho neste lago. Eu queria apenas uma informação, apenas isso. Além do mais, eu sou eu e pronto. Sou a pererequinha.

Sapo – Oras, uma pererequinha de nada atrapalhando minha sonata. Não vê o quanto estou triste? O quanto sofro? Falta de educação a sua vir me interromper. Quando eu acabar de cantar, quem sabe posso lhe dar atenção.

Perereca – Mas... eu só queria saber pra que lado...

Sapo – Cale-se, já disse. Eu sofro e canto meu sofrimento.

O sapo cantou por horas a fio, sem uma pausa sequer entre as notas, enquanto a pererequinha pulava de um lado para o outro esperando a serenata acabar. Ela bem podia ter seguido qualquer caminho, mas teve medo de se perder e preferiu esperar a cantoria do sapo, para perguntar a ele o caminho a seguir.
O céu já não chorava e algumas estrelas começaram a brilhar. O sapo cantava mais alto sua melodia sofrida e a pererequinha já farta, pegou duas folhas de trepadeira e tapou os ouvidos. Era impossível agüentar por tanto tempo a mesma sinfonia que se repetia e se repetia e se repetia sem parar.
O sol despontou no horizonte e o sapo já cansado ajeitou-se na folha para tirar um bom cochilo. A pererequinha percebendo o silêncio, abriu os olhos e viu o sapo de boca meio aberta começando a roncar. Ela ficou brava. Ah ficou brava sim. Estivera lá por toda a noite esperando o sapo terminar o interminável refrão dolorido e agora que ele havia acabado com a cantoria se punha a dormir? Não, pensou ela. Agora é minha vez, e pulou bem em cima da cabeça do sapo que acordou assustado. Os dois passaram algumas horas discutindo o valor do sono do sapo e a necessidade da informação da perereca até que, cansados e famintos, viram o sol anunciar o meio do caminho celeste.  Ambos se calaram e no silêncio conseguiram algumas moscas saborosas para o almoço.  Quando já estavam saciados recomeçaram a discussão, que foi mais ou menos assim:

Perereca – Custa você me dizer?

Sapo – Você? Já não se tem mais respeito aos melhores. Eu sou um sapo. Um sapo e para você eu sou Senhor Sapo e não tenho obrigação nenhuma de lhe dar informação que seja.

Pereereca – Mas você... quer dizer, o senhor disse que depois da cantoria iria me dar a informação.

Sapo – Disse, mas desdigo agora. Não dou informação nenhuma.

Perereca – oras, seu... seu.. seu

Sapo – Seu o que? E quer fazer o favor de descer da minha cabeça?

Perereca – Seu... seu... sapo babento de papada deformada. Não saio. Não saio e não saio. Primeiro quero a informação.

Sapo – Minha papada não é deformada. Veja lá como fala comigo.

Perereca – Posso saber por que não quer me dar uma simples informação?

Sapo – Não tenho obrigação nenhuma.

Perereca – Não tem obrigação, mas seria uma gentileza. Você não sabe o que é fazer uma gentileza?

Sapo – Sei! Sei sim e é por isso mesmo que não faço e saia já de cima da minha cabeça, suas patas estão entrando nos meus olhos.

A pererequinha pulou para outra folha e ficou observando o sapo. Como poderia haver no mundo um sapo tão amargo quanto aquele?
O silêncio tomou conta do lago e a noite foi se aproximando.  A pererequinha olhava para o sapo. O sapo olhava para o horizonte, afinando a voz para recomeçar a cantoria.
A pererequinha estava confusa e muito curiosa. O sapo era um belo sapo. Tinha lá seu charme com aquela papada inchando e desinchando. Os olhos do eram algo de muito especial. Não brilhavam, mas pareciam buscar um brilho, talvez um brilho perdido. Eram imensos os olhos, como se quisessem engolir o mundo inteiro. O que teria provocado tanta amargura naquele sapo, perguntava-se a pererequinha. Realmente ele não parecia ser um sapo malvado. Não, pelo contrário, parecia que encobria toda sua docilidade por sobre aquela pele lustrosa.
As perguntas foram tomando conta da alma da pererequinha que não se agüentou e iniciou uma investigação, que dizem que foi assim:

Perereca – Seu sapo!?

Sapo – O que é agora? Estou me preparando para cantar!

Perereca – e para quem o senhor canta?

Sapo – Eu canto para a minha tristeza

Perereca – para sua tristeza? Como assim?

Sapo -  a tristeza foi a única que me sobrou. Cada nota que canto, canto para aumentar a minha dor.

Perereca – aumentar a dor? Mas não deveria ser o contrário? Afinal de contas cantar alegra a alma.

Sapo – Não a minha. A minha esta entristecida.

Perereca – Senhor sapo, o que fizeram à sua alma?

Sapo – é uma longa história, pererequinha, talvez você não queira saber.

Perereca – Quero sim. Se estou perguntando é porque quero saber.

Sapo – Pois bem, tudo começou...

E o sapo contou à pererequinha que desde que nascera, um pequeno e escuro girino, sabia que era diferente. O papai sapo e a mamãe sapa não o compreendiam. Na verdade não enxergavam as necessidades do girino filho e ele se sentia sozinho em meio a tantos outros sapos irmãos e familiares. Mesmo na sapoescola ele se sentia isolado. Incompreendido pelos outros girinos que tentavam pular mais alto do que ele.
O tempo passou e o girino tornou-se um sapo, embora quisesse mesmo continuar girino, na esperança de ser compreendido por todos os outros, mas o tempo foi cruel e o girino, agora,  era sapo.
Sapo parecido com tantos outros, mas seu coração era diferente. Era vazio ou inundado de mágoas. O sapo tentou mudar, tentou tirar toda aquela dor que começava a criar raízes, mas não conseguiu. O sapo acreditava que para cortar as raízes que o faziam sofrer, era necessário encontrar os culpados de seu sofrimento e exterminá-los. Ele realmente acreditou nisso e começou a buscar na memória todos os outros sapos e girinos e sapas que o havia feito chorar. E de tanto pensar, o sapo foi encontrando os vilões de suas tristezas. De todas elas. Pensou durante muito tempo e, esse seu pensar fez com que ele se afastasse de tudo e de todos. Ele estava lá, de corpo presente, mas a cabeça estava longe, em outra esfera. Numa esfera de dor e confusão, onde as cores formavam um redemoinho sem sentido tornando tudo branco, branco de ausência de lembranças boas. Não que não houvesse boas lembranças. Elas existiam sim, mas foram apagadas para dar lugar à tristeza dos dias sofridos. A tristeza, que é senhora da solidão, adotou o pequeno sapo e o criou à sua semelhança e por isso o sapo já não conseguia ver nada que não fosse triste e cheio de mágoas do passado. O sapo foi se acostumando com sua nova mãe e já havia descoberto tantos malfeitores de sua vida que era impossível dormir sem lembrar de todos eles e, quando sonhava, eram os sapos monstros que abriam seu corpo com algum bisturi roubado de uma faculdade de medicina e remexiam tudo dentro dele. O coração por vezes ficava no lugar do intestino e o pulmão no lugar dos rins e tantas outras atrocidades. Por vezes sonhava também que os mesmos sapos o pegavam e metiam dentro de um caldeirão enorme e o cozinhavam lentamente para depois servi-lo à todos. O sapo se via cozinhar e depois via suas partes sendo arrancadas e mastigadas por todos os outros sapos. Doía tanto acordar e lembrar dos sonhos que o sapo resolveu não dormir mais. Quando muito, cochilava um pouco, apenas por ser necessário, mas acordava logo que começava a sonhar. Não queria mais sonhos, nem ruins nem bons. Ele apenas queria estar na sua tristeza de ser tão só.
O silêncio para um sapo é muito complicado. É necessário coaxar e o sapo coaxava nas horas mais impróprias e por isso brigavam com ele e ele se defendia como podia. O sapo se defendia com sua tristeza, com sua dor e foram tantas as vezes que chorou de raiva de si mesmo por ser diferente, por não ter sido amado como outro sapo qualquer do planeta, até o dia em que percebeu que não pertencia aquele lugar. Ele era o pior dos sapos. Era assim que se sentia. Acreditou nisso de tanto ouvir outros sapos dizerem, ou mesmo quando não diziam nada, ele mesmo se dizia e acostumou a ouvir ofensas de seu próprio coração. Fugiu daquele lago e foi para um lago distante, onde ninguém o conhecia, mas também ali, com o tempo, percebeu que era diferente. Ninguém o compreendia. Não havia sapo sequer que olhasse em seus olhos e dissesse que entendia perfeitamente o que ele sentia. Não. Não havia. Todos eram apenas ruins, vilões da vida. O sapo, então, foi viajando de lago em lago até que encontrou um onde ninguém vivia. Nem sapo, nem sapa e nem mesmo uma mísera perereca.  A partir daquele dia o sapo passou a viver nesse lago, cantando para sua tristeza.

A pererequinha enxugou a lágrima que escorria dos seus olhos e quis por um momento abraçar o sapo. Sentia-o tão triste e desolado que murmurou algo como:

Perereca (sussurrando)- queria poder te ajudar sapinho. Que vida triste a sua.

O sapo não ouviu. Estava submerso em seus pensamentos. Os olhos grudados na lua que girava amarela, imensa no céu. Depois de um longo suspiro, o sapo sorriu e continuou a contar à pererequinha que, depois de alguns anos vivendo naquele lago, sozinho, cantando para sua tristeza todas noites, ele foi percebendo que nem tudo era como ele imaginava. Não. Não era. Parecia mesmo que ele entendia que todo sapo se sente diferente, porque realmente é diferente. Cada sapo é um sapo. Podem ter a mesma cor ou os olhos iguais, mas são diferentes. Percebeu também que, sendo diferente cada sapo pensa de uma maneira e isso não significa que sejam ruins ou vilões, apenas são como são, nem melhores, nem piores, apenas diferentes dele e era essa diferença  que fazia com que cada um agisse de uma forma. Era complicado para o sapo entender que não podia cobrar atitudes dos outros sapos. Atitudes que ele teria ou que gostaria que os outros tivessem. Por mais certo que acreditasse fosse, talvez e certamente, não era o certo para o outro e isso também não significa desamor ou desatenção ou incompreensão, não, claro que não. Significa apenas que cada um sente a seu modo e por isso age a seu modo. E quem pode julgar?
O sapo passou muito tempo pensando acerca dos outros sapos e é bem verdade que havia noites em que o sapo gritava sua raiva, raiva pelos outros sapos por não serem iguais a ele, mas gritava com mais raiva ainda, por ter percebido que cada um é um e único e isso doeu fundo no coração do sapo. Ele queria acreditar que um dia todos os sapos do mundo o entenderiam, mas a verdade era que ninguém o entenderia como ele se entende, porque as cores são diferentes para cada olho, e os cheiros também e os gostos mais ainda e a alma principalmente.
Essa dor da descoberta foi mais forte do que a dor da solidão. Doía sempre e mais e a cada dia que a razão clareava a dor aumentava.
Por fim o sapo compreendeu que a dor era necessária e que um dia ela findaria, mas primeiro era necessário olhar-se nas águas do lago e reconhecer-se sapo, sapo diferente de todos os sapos, mas ainda e sempre sapo. Depois haveria de vir o tempo da reconciliação, não com os outros sapos, não ainda, mas reconciliação com ele mesmo. O entender-se e perdoar-se e aceitar-se e saber-se único e capaz. Sim, o sapo sabia que teria de se reconhecer e também isso doeu. Doeu cada descoberta do sapo verdadeiro dentro dele. Dos sonhos e das vontades, das alegrais e tristezas de ser ele.
O tempo passou e o sapo continua a se conhecer e por vezes chora e canta como se abraçasse o próprio corpo. Chora e canta pelo medo de não ser aceito como o sapo que ele realmente é, sabedor de suas qualidades e defeitos. Chora e canta por não saber como se reconciliar com aqueles a quem ama porque ainda sente vergonha de ter julgado sem conhecimento. Chora e canta  esperanças de um dia poder voltar.
E terminando o que contava, o sapo pôs-se a cantar uma nova melodia triste.
A pererequinha estava emocionada e feliz. Feliz sim, porque sabia que o sapo estava no caminho certo, no caminho que ela tanto procurou. A pererequinha pulou para junto do sapo e os dois, grudadinhos, olhando para a lua, cantaram a alegria do re-encontro.







Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 16/03/2006
Código do texto: T124178

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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