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Os Nubentes

              Dois adolescentes, sentados no avarandado da casa, namoravam ao som de deliciosas risadinhas, momento em que o olhar atento de dona Marlene os vigiava incessantemente.

              – Se teu pai estivesse por aqui, essa risadaiada logo logo ia acabar – resmungou dona Marlene, chamando a atenção de Margarida, a doce filha Margá, como era amavelmente chamada pelo pai Bastião, que se dizia orgulhoso com a figura angelical da filha que Deus lhe dera – uma ternurinha de gente, como ele carinhosamente a definia.

              – Até parece que a senhora nunca namorou, não é mesmo dona Marlene? – interpelou Abelardo, o namorado de Margá, em tom de brincadeira e de boa intimidade com a futura sogra.

              E as risadinhas perdiam-se no ar em meio àquela doce harmonia.

              O tempo foi passando... passando, até que, certo dia.....

              – Dona Marlene, será que a senhora nos deixaria ir colher umas cajazinhas pra fazer um refresco? É um instantezinho de nada e... já já  nós estaremos de volta, pode? – e apelou dizendo: – Ta um calor danado, sogrinha, deixa, deixa!

              Dona Marlene mostrou-se um tanto truculenta e dá-lhe um não como resposta, mas, depois de algumas  insistências ela cedeu aconselhando:

              – Ta bem, ta bem! Eu deixo! Só que não quero imaginar o quê possa  acontecer se encontrarem o Bastião pelo caminho. Estão avisados: é um pé lá, e o outro cá. Entenderam? Agora vão.

              O casal saiu radiantemente se desmantelando de felicidade. Corriam de mãos dadas entre as revoadas de borboletas sobre as flores da pastagem e do tapete verdejante de beldroegas. Eles estavam demasiadamente apaixonados e determinados a adocicar seus amores com os deliciosos goles do tal refresco de cajá.

              Passaram-se alguns minutos e... hei-los de volta, acabrunhados; sem seus costumeiros muxoxos e sem os frutos. Traziam em seus semblantes uma desolação por não ter cumprido com a palavra, e de nem poderem ofertar do refresco prometido. Cabisbaixos e quedos, eles sentam-se no mesmo lugar de antes e ficam a limpar os carrapichinos de suas roupas e a observar os graciosos movimentos das galinhas que continuam a correr, ciscar, cocoricar, enfim: a  alegrar o ambiente do lar.

              Dona Marlene a tudo assiste passiva, mas, percebendo aquele quadro de desânimo, resolveu interrogá-los, assim:

              – O Quê houve com vocês? Saíram tão amorosos, tão felizes, e voltaram moídos! Que diabo sucedeu por lá?
 
              – Nada mãezinha! É que não tinha nem uma cajazinha pra gente contar a história – redargüiu Margá em meio à desconfiança de sua mãe.

              – Por causa de quê demoraram tanto? – Insistiu a mãe.
 
              – Por causa de nada, dona Marlene! – Rebateu  Abelardo.

              – Demoramos só um tiquinho de nada, mãezinha! Não se aflija! – Retomou Margá, abrandando as falas.
 
              – Bem, eu vou indo! – desconversou Abelardo, tentando abafar o assunto. Parecia querer escapulir de uma encrenca que ele mesmo via nascendo. Ao que dona Marlene, ríspida, repreendeu-lhe:

              – Nada disso, seu rapazola! Você não vai a lugar nenhum. Vai esperar pelo Bastião pra ele resolver este assunto. Vejo que tem alguma coisa errada com vocês e ele vai acertar. Ah se vai! E pondo as mãos na cintura, ironicamente ela repetia: ah se vai! Ah se vai!

              Dona Marlene estava intransigentemente indiscutível, e ainda foi excessivamente jocosa ao dizer:

              – Nesse mato tem coelho!

              Minutos de silêncio deslizaram como numa eternidade.

                                        *
              – O quê aconteceu por aqui? Ta todo mundo mudo? – Exclamou Bastião se desmontando do seu cavalo, e indagou: – morreu alguém?

              Todos se entreolham estremecidos. Até dona Marlene empalideceu com tão abrupta desconfiança, mas, não tendo outra solução viável, ela assim explicou:

              – Bastião, me escute: o casalzinho ai – disse apontando-os – sentiu vontade de tomar um tal refresco de cajá, e foi pro mato tirar as frutas. Ficaram por lá um bom tempo, e agora estão ai com estas caras de sem-vergonhas que você está vendo. Que pode ter ocorrido?

              Tomado por uma inesperada avalanche de ódio, Bastião transformou-se virou-se pelo avesso. Parecia uma fera esfomeada, e num ato impiedoso desembainhou um facão que trazia atado na cintura; e com um olhar satânico virou-se para Abelardo fazendo grotescas evoluções com a arma em punho,  urrando assim:

              – Escute aqui seu fi d’uma égua. Você desonrou a filha de um homem, e vai ter que casar ou morrer, entendeu?

              – Mas... seu Bastião, eu . . .

              – Calaaaado, seu cão sarnento! Ou casa, ou morre! Das duas, uma.

              Dito isto, ele amarrou uma das pontas de uma corda nos punhos de Abelardo e a outra ponta na anca do seu cavalo, e assim o conduziu atado ao enlace matrimonial.
                       
              Naquela localidade, a única autoridade do momento era o padre que por ali passava. Ele vinha apressado para dar a extrema-unção a um moribundo, e ao se deparar com Bastião e comitiva, deteve-se no meio do caminho, onde teve que ouvir os desesperados apelos daquele pai que bramindo ordenava:
 
              – Seu vigário, o senhor vai casar este sujeito com a minha filha aqui, e agora: é coisa de dívida da honra: ou ele casa, ou ele morre! O senhor me entende?

              O sacerdote amedrontou-se com tal brutalidade, e tentando resolver brandamente aquele entrave, pôs-se a dialogar, mas não obtendo solução, apeou do seu cavalo, abriu uma Bíblia, e assim procedeu:

              – Pobre rapaz, jure perante a Bíblia Sagrada: “você deve a honra desta  infeliz moça? Sim ou não?”.

              Abelardo, ainda amarrado ao cavalo e tremendo dos pés à cabeça, sussurrou quase que inaudível, dizendo:

              – Não! Não lhe devo nada.

              – Bastião, ruborizado de ódio, sacou novamente do seu facão, mas foi contido por dona Marlene que, chorando, rogava por piedade.
 
              Virando-se para Margá, o oficiante prosseguiu interpelando:

              – E você, jure perante a Bíblia. Foi ele?
 
              A jovem arregalou bem os olhos para o céu  e, insolente, respondeu:

              – Como pode, meu Deus? Como pode? Nada aconteceu! Nada! Ele nunca me tocou.

              O oficiante, lembrando-se da peremptória jura do Bastião, (“ou casa, ou morre”), preferiu o atalho mais prudente, e assim o fez:
 
              – Se é para a paz desta família, eu vos declaro marido e mulher, em nome do Padre do Filho e do Espírito Santo.

              Não houve o amém como resposta, e o próprio oficiante o disse.

              Encerrada a cerimônia, os noivos partiram para terras distantes, onde, certamente, tiveram filhos  e netos, e lá repousam para a eternidade.

              Nunca mais alguém falou de Margá e Abelardo, senão para contar a sua triste história.


                           (relato do meu irmão Leonardo – in memória)
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 25/03/2006
Reeditado em 12/10/2012
Código do texto: T128379
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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