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O Coração do Mundo

Quase oito horas de um dia agitado.
Todos cansados no quarto de hotel praiano.
Ninguém disposto a caminhar até a cidade do Prado.
Somente três quilômetros.
Penso em desistir, pois no dia seguinte vamos a Abrolhos.
É preciso dormir mais cedo. Bem que tento. Mas o vento suave acaricia as janelas, sussurando um apelo irresistível... Solitaire...

Já ansiava por esse chamado, antecedido por um inconfundível arrepio que há tanto conheço.
Visto meu jeans em silêncio. Camiseta branca e tênis.
Por cima uma jaqueta, pois o ar está frio naquele mês de Julho. Saio pelos fundos, atravessando o portão de madeira.
De imediato sinto a maciez da areia.

À minha frente, o mar enverga o fraque escuro da noite da Bahia. O Céu está enevoado, mas há ainda um pouco de luz. Caminho em direção à cidade, lentamente. Alguns hóspedes passam por mim, muito alegres. Me cumprimentam.

Surge uma suave neblina. Então resolvo parar. O hotel está a cerca de um quilômetro, e suas luzes parecem tão longínquas... Mas me entrego àquela magia. Observando algum tempo as pequenas ondas, tecendo espumas nas bordas da praia. Sento na areia, estudando os movimentos daquele tear unisitado, estendendo e retraindo suas rendas brancas e líquidas. A cada oferta, um novo desenho trançado.
 
A Natureza confessa baixinho :
" Sou eu a progenitora da Arte ".
Respondo em pensamento : "Sei disso, sei disso..."

Sobrevém um certo cansaço, um torpor benigno. Me estendo na extensa cama sílica. Alongo os membros, abro os braços, fecho os olhos. Solitaire me lembra do prazer de estar ali.
Envolta em brumas e escuridão, corpo colado à pele do planeta. E o silêncio é tanto e tão denso que tudo em mim estremece em estranha cadência. É isso ! Ouço meu coração, e ele está sincronizado com o coração do mundo. Nos integramos. Nos entregamos. Pulsamos juntos. E nessa larga sensação adormeço...

Acordo com algo tocando meu pé direito. É a maré que subiu e trouxe um côco. Me afasto um pouco da água, ainda tonta de maresia, e consulto o relógio. São onze da noite. Solitaire sorri. Dormiu ao relento por três horas...

Agora a neblina se foi e o novo cenário me extasia. A Lua cheia é imensa como nunca vi. Parece muito próxima, bem acima de minha cabeça. Um balão portentoso a se equilibrar no Céu estrelado, consciente de seu esplendor. Seu brilho tinge tudo à minha volta. Uma cor de prata amarelada a se infiltrar gentilmente naquilo que toca. Midas !

Vislumbro no mar um caminho de luz, que revela um pequeno barco, ondulante e humilde. Parece até possível caminhar até lá. Tudo é permeado de tanta beleza que nem parece realidade. Mas há uma incrível vibração o ar. E o momento é vívido...

Minha alma se ilumina e reverencia aquela perfeição, demonstrando-se em generosa maestria. Ofertando-se. Sinto desejo de compartilhar intensidades , pois uma aura de ardor me invade e envolve com a força da ancestralidade. E o puro instinto clama pela exata reação. Urgente, imediata. Mas Solitaire me lembra que não há mais ninguém ali.

Então deito de bruços, colando o rosto na areia, vertendo
com olhos salgados meu secreto, íntimo mar. Digo ao mundo que o homem amado nunca vai me alcançar. A areia se ajusta a meu corpo de mulher. E isso me conforta e delicia.

Aperto meu peito ao coração do mundo, no mais viável abraço.
E dele recebo o terno alívio da compreensão.
Somos terra e fruto - vivos ! - finalmente reunidos.

E nos acolhemos ali, amantes solitários, sob as bençãos do luar...


[ Praia do Prado, já faz algum tempo... ]

Claudia Gadini
28.03.06

Claudia Gadini
Enviado por Claudia Gadini em 28/03/2006
Reeditado em 13/12/2008
Código do texto: T130231

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Sobre a autora
Claudia Gadini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Claudia Gadini