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O Licencioso

Ela acendeu o cigarro, aparentemente calma, até com um certo sangue frio. Fiquei observando todos os seus gestos, a maneira como rolava a pedra do isqueiro, a posição deprimente dos lábios segurando o cigarro, o ligeiro esgar ao mirar a chama, tudo, nada escapava da minha espreita. Não sei por que ela me chamava tanta atenção. Talvez por causa da sua elegância perturbadora, alta, magra e pálida? Improvável. Talvez por ela ter acendido o cigarro dentro da igreja? Não sei. Talvez. Na verdade nem sei que diabos eu estava fazendo naquela maldita igreja. Não costumo freqüentar igrejas. Sempre achei que igrejas são coisas de velhotas e fodidos em geral. Mas não estou aqui para discutir meus princípios religiosos. Só entrei na igreja porque pensei ter visto o sujeito que eu estava perseguindo. Sou policial há vinte anos e ainda não aprendi a rezar. Eu nunca tinha visto fila para entrar numa igreja. Seleção para vaga de padre que não era. Tomei o meu lugar e entrei. Acho que era algum dia Santo ou algo assim. As pessoas da fila, que iam da calçada da rua até ao altar,  traziam coisas nas mãos e depositavam frente uma estatua de um homem forte de nariz proeminente. É lógico que eu não trazia nada nas mãos, apenas o meu velho Colt debaixo do paletó. Na minha vez, apenas encarei o cara da estatua e me sentei, foi quando aquela mulher me chamou a atenção. Ela destoava daquela gente. Como eu já disse antes eu não entendo porra nenhuma de religião, igreja, essas coisas, é que sempre tive uma imagem formada de quem freqüenta esses lugares e a imagem daquela mulher era outra, totalmente avessa. Era como ver uma freira assistindo uma luta de boxe, uma rinha de galo, uma partida de sinuca. A discrepância era berrante. Talvez se alguém me observasse lá dentro, tivesse tirado a mesma conclusão sobre mim. Será? Improvável. Não existe no mundo outro maluco como eu. Enfim, a mulher fumava como uma louca e ninguém, se quer, olhava para ela, era como se ela não estivesse ali, como se todos não tivessem o direito, a permissão de olhar para ela, como se todos a ignorassem por medo ou culpa. E, eu, a mirava insistentemente, queria ver aonde aquilo ia acabar. A fumaça, que ela expirava de maneira agressiva, subia lentamente e pairava como nuvens na nave da igreja. Posso estar parecendo ridiculamente comovente e patético descrevendo essa besteira toda dessa maneira, mas foi assim que aconteceu, estou apenas sendo fidedigno. Vocês têm todo o direito de não acreditar em mim, nunca me considerei um cara digno de fé, merecedor de credito. Mas dane-se, o inesperado aconteceu. Talvez ela já tivesse sacado que eu a espreitava. Ela veio em minha direção. Ela tinha todo o direito de estar puta comigo, não tenho nada que ficar bisbilhotando escondido, mexericando. Ou você vai lá e agarra logo a mulher ou a deixa em paz. Ela parou na minha frente, parecia mais pálida de perto, e mais bonita também, os cabelos compridos, encaracolados, armados sem esmero, ela tinha os olhos grandes e negros, me encarava no rosto, ela ficou um bom tempo assim, parada na minha frente, uma situação incomoda. Que ela me esbofeteasse logo. Foi quando ela me perguntou: Você acredita em Santo?. Respondi que não, que entrei na igreja só... ela me interrompeu, quando eu ia explicar aquela coisa toda da fila, e começou a falar umas coisas esquisitas: Santa Ágata, mártir, teve os dois seios cortados, Santo Antonio, foi um monge exposto a todas as tentações e as superou, Santa Blandine, foi devorada por leões numa arena romana, Santa Genoveva, salvou Paris da invasão dos bárbaros. Já ouviu falar de algum deles?. Não, eu respondi. Foi o que pensei, ela deu uma ultima tragada, jogou a bituca do cigarro no chão da igreja e o apagou com a ponta do sapato. Quando levantei a cabeça para abrir a boca, ela já havia desaparecido. Passei a freqüentar aquela maldita igreja todo santo dia na esperança de encontra-la novamente, para saber se aquilo havia acontecido de verdade, se ela era de fato uma Santa, se eu havia presenciado a aparição de uma Santa, ou se estava apenas ficando maluco, perdendo o juízo. Só sei que, se não tirasse aquilo a limpo, se eu não tentasse estabelecer a verdade, a realidade, a veracidade daquilo tudo, eu realmente enlouqueceria. Não conseguia arrancar aquilo da minha cabeça, não conseguia mais viver em paz. Não conseguia mais trabalhar. Não conseguia mais resolver os casos policiais da minha competência. Minha vida transformou-se num inferno. Missa, batismos, até casamento de desconhecidos eu estava, tentando encontrar o rosto dela na multidão. Pegava fila, trazia oferenda aos Santos. Nada. Mas não perdia as esperanças. Todas as vezes que me deparava com a imagem de uma santa eu tinha uma ereção. “Mesmo os homens mais potentes, têm se inclinado em sinal de adoração frente a santos, como diante de um enigma da sujeição de si mesmo, da ultima privação voluntária”, disse o idiota do Nietzsche. Por que eu me inclinava, então? Eu era um tarado? Atrás dessa interrogação, do seu aspecto mesquinho e miserável, eu podia sentir uma certa força superior querendo se afirmar. Ao honrar o santo, eu estaria honrando algo em mim mesmo? Alem do mais, a vista da santa insinuava em mim uma suspeita. Aquilo tudo, acreditar naquilo tudo, era uma monstruosidade de negação contra a minha natureza. Isso não seria desejada sem uma finalidade. Deveria haver um motivo. Eu queria apenas foder aquele mulher linda e misteriosa? Eu perseguia uma vagina nova? Um inimigo ignorado e ainda invicto. Foi isso que me constrangeu a deter-me diante da santa? Não poder fode-la. Não poder toca-la. Preciso encontra-la. Preciso interroga-la. Hoje me encontrarei com outras pessoas que me relatarão seus casos, nos reuniremos em grupo, em minha casa, na igreja e lares de fieis.
F Mendes
Enviado por F Mendes em 01/04/2006
Reeditado em 26/07/2008
Código do texto: T132111

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Sobre o autor
F Mendes
Araras - São Paulo - Brasil
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F Mendes