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A Mulher Que Sempre Ficava


Minha história é feitura de ocasiões reais,acumulada durante anos de experiência com mulheres.

Para tal, sabugos e tiroleses,nada tenho contra as mulheres. Elas seriam quase perfeitas se não fosse pela imensidão de erros e falsetes que a cometem todos os dias do ano,e tem energia de permanecer ativas e compulsórias.

Pois bem, trago ao meu lado um escrevedor de apontamentos que me ajuda na faina de lembrar algumas passagens com a mulher que sempre ficava.

Ele me honra também com um frasquinho de Valium, para adormecer meus nervos que assolam pesados e e me quedam para o caminho da esquisofrenia.

Tive muitas mulheres na vida, todas elas - como já firmei - quase perfeitas. Mas o pior defeito que encontrei nelas - fora as eventuais enxaquecas eternas - foi sempre ficar em algum lugar!

As tais mulheres que a gente leva prá rua, prás compras,prás festas e a todo holocausto humano que possam inventar.Ai elas ficam e a gente fica na espera.

Querem invenção mais parviosa do que os shoppings? Só em pensar neles, tomo um gole d'água.

Aquela confusão organizada, com uma loja em cima da outra.
Área disso, área daquilo. Mais parece um jogo de futebol onde você é a bola.

Costumo diariamente sair com minha última mulher que, por fatalidade, conheci num shopping. Ela comprava uma calça e eu me mirabolava prá achar um par de meias. Dali foi um amor quase eterno.

Meu escrevente me lembra prá não me desviar da história. Pois bem. Passados tempos, que viram eternidades passivas,íamos sempre às compras todos os dias da semana.Ela era uma compradeira compulsiva. Esgotado, passei a esperar no carro.

Querem um exemplo: um dia ela saiu prá comprar um lote de papéis numa papelaria - longe dos shoppings -. Era uma coisa simples. Uma resma de papel e pronto. Passaram 5,10 até meia hora. A mulher nada. Tinha ficado novamente.

Sai do carro e fui até a papelaria. Quando entrei no estabelecimento, me surprendi com o total vazio que dominava o loja. Devia ser a recessão do pais - pensei comigo.

Mas dei de cara com minha mulher, já com as compras numa bolsa, admirando uma boneca. "Veja amor, que linda boneca..". Disse ela indiferente a minha pressa. Tinha acontecido de novo. Ela tinha ficado.

Várias vezes vamos ao açougue juntos. Quer dizer, ela vai, eu fico no carro. Um simples quilo de carne é interminavel. Coisa que eu faço em um minuto ela leva comezinhos minutos que na alma me ardem.

Vou atrás dela. Novamente encontro minha amada. Já com a carne numa sacola, mas conversando animadamente com a dona do açougue. Ela me vê e me chama e diz de solapo: "Amor, a prima de dona Mariangela está no hospital prá fazer um cirurgia plástica e ela está me contando como os preços da cirurgia são altos". Novamente ela tinha ficado.

Assim, minha vida conjugal virou um circo no meu interior, pois deduzi que tinha casado com uma mulher que sempre ficava.

Logo, minha vida virou um tormento bravio em alto-mar de minha existência. Não havia psiquiatra, nem remédio, para curar uma pessoa que gosta de ficar.

Por gostar muita dela, de grande espiritualidade e com um esgio corpo, fui amando a mulher, mas onde ela ia, ficava.

E minha vida passou a ser isso. Eu, aposentado de trabalho, estava atôa e ela sempre tinha alguma coisa prá comprar. Eu sempre esperando. Ela sempre ficando.

O pior era na hora de fazer amor eterno. Duvido que haja no mundo uma paciência igual a minha.

Quando chegava à noitinha, íamos prá cama. Digo, eu me bandeava de minhas roupas em um simples minuto.Ela?
Ela ficava no banheiro. E ficava. Eu chamava e ela ficava. Sempre dizendo "Já vou amorzinho..".

No certo, ela ficava se aprontando prá amar mais ou menos uma hora. Ai eu pensava: ficou de novo.

Quando vinha, ensopada de cosméticos e adornadas de roupas enpaetadas e cheia de parafinas e linguetas de vidros que balançavam sobre o seio, eu admirava aquele quadro e pensava: ela ficou novamente.E perdia aquela fome,pois de cansaço me abatia

Meu escrevente me lembra prá terminar a história logo, pois quem estava esperando agora era ela. Há mais de hora estava dentro do carro esperando. Quem tinha ficado era eu, pois tinha que contar esta história prá alguém.

E que sirva de lição aos novatos em casamento; jamais se enlacem com uma mulher que fica. Não tem remédio, não tem nada. Se ela vai comprar um simples jornal na banca. Ela fica. Fica admirando as capas de revistas ou de papo com o jornaleiro.

E assim, conto meu desdém de forma meio párvula e orissada, mas saibam todos: existem na terra mulheres que sempre ficam em algum lugar. Eu era casado com um belo exemplar da mulher que ficava.

José Kappel
Enviado por José Kappel em 07/04/2006
Código do texto: T135109
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel