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A Mulher do Cão

Casamento é feito por antecedência. Se você soubesse o que ia acontecer depois, você também não metabolizava e casava também: tá escrito na testa de cada um esbaforido homem: é sua vida: um dia vai lá, e entra na rede.

Digo estas preliminares de falso Alcorão, pois profeta não sou, nem corrido da vida, mas, fatalmente, uma corda seca se abateu na minha paixão e deu no que deu: casamento.

Não sou a favor nem contra esta protocolar medida que a sociedade ou a Igreja, sei lá, nos outorgam por obrigação. Mas são ele que impõem o jogo e a gente entra em campo de olhos sedados e vendados.

Meu casamento corria a mil maravilhas até que a mulher entrou na menopausa. E mulher quando está neste ponto ou ela começa a gritar com você dentro de casa ou inventa.

A minha inventou. Me deixou de lado e passou a cuidar dos cães e gatos abandonados. Esqueceu que eu existia. Não lavava nem passava mais minha roupa, não cuidava mais dos negócios simples, que toda casa tem, e passou a cuidar de cães e dos pobres gatos. Literalmente, todos.

Quando a gente saia de casa prá passear - ou fingindo - que estava passeando, e ela via um cão, me bordoava, e me fazia parar o carro. Sempre trazia com ela dois sacos de ração. Colocava o cão numa guarda de árvores ou num abrigo e deixava ao lado um monturo de comida.

Se andávamos uma meia-hora de carro, quinze minutos deles eram dedicados aos pobres cães. Parava com todos. E pareciam se dar muito bem. Não podiam agradecer pois, como todos sabem, determinadas raças de cães não falam.

Quando chegávamos em casa já havia uma fileira de 10 a 15 cães, na maior zoada, a espera de comida. Ela ia lá no alpendre da casa, trazia uma grande sacola e começava a saciar a fome dos bichanos.

Eu? Nem caia no descaso de reclamar. Se fizesse - vendo aquela azoeira de bichos em frente de minha casa - certamente ia ser correspondido com brados e gritos de insensível.

Eu tentava explicar apenas a razão: quando mais ela dava, mais cães apareciam.

E, assim, minha vida, se tornou um martírio. Tínhamos tantos cães e gatos dentro de casa, que eu nem tentava saber o número exato, todos vivendo dentro da maior harmonia,ou,às vezes, num conflito infernal de latidos, miados, patadas, numa briga que ela achava normal e convivendo e estraçalhando com minhas coisas e meu papéis - ecomo gostam de ralhar papéis !

Era gato empoleirado em todo canto da casa. Um gostava de TV e , quando eu sentava, prá ver alguma coisa, um deles se espichava em cima do móvel, e soltava o rabo bem dentro do quadro luminoso.

Isso, se eu tivesse lugar prá sentar, pois sempre havia algum bichano dormindo exatamente no local que ia sentar. Assim, duas coisas se moviam em ritmos diferentes, harmônicos e nervosos: o rabo do gato e do filme.

O tempo passava e cada dia tinha um animal novo dentro de casa. Todos tinham um nome. Eu não sabia diferenciar nenhum dos outros. Era tudo igual: gato era gato, cão era cão.

Ao me deitar tinha que tirar da minha cama uns cinco gatos que dormiam tépidos em meus lençóis ou cobertores. Muitos não gostavam e assanhavam uma patada ranhosa prá cima de cima.

Assim, dormíamos. Num odor de fazer inveja! Uns cinco gatos, três cachorros, que, pelo deduzi, gostam de levantar às 3h da manhã e começar a latir ou miar. Ou brigar. Eles tem fome logo quando acordam. Ela levantava e ia dar comida aos bichos em plena madrugada enquanto eu afeniava minha indignação entre meus fios de cabelos brancos.

Se estávamos numa estrada e ela via um cachorro atropelado, me fazia parar e enterrar o bicho. Se ainda estava vivo, lá íamos nós ao veterinário mais proximo que, logicamente, cobrava o máximo que uma mulher suporta, isto é tudo, o dobro ou o triplo.

Assim, minha vida foi sendo empurrada para o nada! Gosto de bicho, mas nem tanto. Nosso casamento estava naufragado num mar de animais, todos belíssimos, bem tratados, gordos, enquando eu afainava minha tristeza de perder a mulher.

Nunca pensei que isso acontecer na minha vida matrimonial. Afinal eu não bebia, não fumava, não tinha amantes e não jogava. Era bem aposentado e a metade do dinheiro, ou grande parte dele, era dedicado à sobrevivência canina ou felina. Coisas do casamento.

E, de tanto pensar e pensar, resolvi, um dia, falar com ela e explicar, ou pedir, ou dar uma solução no nosso enlace.

Chamei a mulher cedinho e disse que precisava falar urgente com ela. Ela, se acomodou numa poltrona, mas com o pensamento nos bichos e foi logo dizendo:

- Fala rápido que está quase na hora de alimentar os cães...

Fui preciso. Até demais:

- Matilde - era o nome dela - nós chegamos a um ponto no casamento que não é possível viver mais juntos....
- Concordo - disse ela secamente.
- Acho melhor você cuidar de sua vida que eu vou morar em outra casa.
- Já pensei nisso também - disse ela -. Só estava esperando você confirmar. Se você vai descer ( a gente morava no alto de alguma coisa, acho), aproveita e passa no advogado que ele já estava avisado e é só você providenciar os papéis.
- Mas - retruquei eu - depois de tantos anos casados...a gente terminar assim....
- É a vida meu bem. - disse ela sem nenhum antagonismo - e faz mais um favorzinho....
- O que é? - perguntei eu, até esperançoso.
- E ela disse : Se você vai embora agora, passa na vendinha de seu Carlos e encomenda prá ele três sacos de ração. Mais dá boa...só serve dá boa...
José Kappel
Enviado por José Kappel em 07/04/2006
Código do texto: T135111
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel