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Detergente: Ação Total

Não me prendo com futilidades que rondam meu corpo. Até porque ansiedades escorrem dia após dia. Lembro-me páfio destas coisas principalmente quando meus olhos estão em constante gestação e meus lábios anseiam por frutas doces.

Foi com dizeres mais lindos e cheios de graça e ternura que perdi a mais linda mulher que já conheci - Maria. Falei tão doce e tão profundo, que, acho, ela me julgou um poeta louco ou um materialista de primeira. E foi assim, dia após dia, que ela foi se escorrendo de meu mundo.

Um dia, esperei por ela na saída dos bondes. Eles chegavam aproando nos trilhos, rangendo dentes de aço, como um monstro. Eu, na espera, armado de uma caixa de bombons e um maço de flores de maio.


Ela chegou armada até os dentes com outro senhor, cavalheiro – que me permitam chamar assim – aquele coisa vulgar, baixo, careca e rico homem, que enlaçava minha Maria! Logo deles se acercaram deles mil pajens modernos. Um segurou a mão dela para descer os leves degraus. Um segurou seu sobretudo. Outros correram para apanhar a bagagem. Tudo de uma tamanha modernidade que me fez chorar num canto da estação.Pegaram uma charrete e desapareceram nos confins da avenida. Recostei-me, de leve, numa banca de jornais onde, vagamente,e me lembro da manchete berrante e colorida: “Povo Aplaude o Novo Salário”. Não me importei,não gosto de salários fixos.

O relógio marcava 5h. Aliás um poderoso relógio onde você pode mergulhar até 50 metros de profundidade sem que nada aconteça ao relógio.

E eu pensei: mas eu não consigo nem nadar e, por isso,talvez, afundar seja mais fácil!.Aliás só coisas do coração naufragam! Mas se meu relógio resistia a tamanho impacto, ele não conseguia marcar a hora certa. Não eram cinco. Eram cinco e quinze!

E foi assim, taciturno ,soberbo, castiço e dromedado, resolvi acabar de vez com a vida que me sobrava. Minha apologia estava certa. As dores de coração, quando não médicas, são mais picantes e ardosas.

Passei num empório. Tomei uma aguardente de tonel. Tão embriagante e sutil que logo atordoou meu espírito e aguçou minha saudade por Maria.

Tomei mais duas para me certificar do que não fazia. Comprei: farinha em pó, de trigo, um pão, e leite. Nem sei porque fiz isso. O trigo daria para a vizinha – pensava eu enquanto caminhava para casa. O pão daria para um cachorro que sempre me aguardava na esquina e o leite poria numa bacia e daria a todos os gatos das redondenzas. Ah! Comprei também um vidro de Pinho Bril – aquele que elimina germes e bactérias e deixa tudo perfumado. Poderoso. Muito poderoso.

Em casa, depois de ter feito minhas obrigações com a vizinha e os animais, sentei na poltrona. Quase escuro, se abateu uma trovoada de medos e ansiedades. Fui ao armário e peguei mais uma garrafa. Desta vez de uísque. Novinho em folha. Destas que os políticos tomam todo dia.

Tomei meia garrafa e me tontiei de vez. Até cambaleante fiquei. Atroz este mundo – praguejei –
enquanto rodopiava. Coloquei mais uma dose de uísque mas desta vez coloquei uma grande dose de Pinho Bril – o de ação total.

Foi assim que após um minuto de ter goleado aquela mistura explosiva. Sai de mim e comecei a me contorcer desvairado.Bati com o corpo na porta e fui cair no jardim. As coisas foram escurecendo e quase sumi.

A boa vizinha que, de sua janela, viu tudo, acorreu-me com vinagre, sal e água e chamou uma ambulância.

Minutos depois três homens que mais pareciam lutadores de judô, me agarraram e colocaram na ambulância. Lembro-me perfeitamente daquele cheiro. Parecia cheiro de capela-mortuária. Depois perdi novamente a consciência, não sem antes de sentir a mão da vizinha se agarrar a minha.

Um dia e meio depois acordei na UTI. Minha boca estava mais seca do que o Saara. Não conseguia falar, pois minha garganta estava em chamas. Pouco a pouco, fui tentando abrir os olhos até deparar com outros pacientes entubados por todos os lados e cheios de dores invisíveis. Ao meu lado estava uma enfermeira que lia CARAS – não se importando com minha sobrevivência. No meu lado esquerdo estava meu irmão mais velho que conversava, com sincero interesse, com outra enfermeira. Lembro-me vagamente, dele ter chamado a noviça das dores para sair “uma noite destas”.Acho que ela meneou a cabeça concordando.

Foi ai que senti a mão da vizinha na minha. Ela havia ficado todo este tempo ao meu lado. Injetaram algo em minha veia e só fui acordar no dia seguinte.

Chamei por Maria. E não houve resposta. Vieram vários médicos e todos eles percorreram meu corpo, como se anda num terreno arenoso.

Acho que dormi por algumas horas e quando acordei me sentia leve e feliz. Não havia mais dores pelo corpo. Nem sede, nem ansiedade, nem me importava mais com Maria. Alguns me velavam chorando e cheguei a conclusão que a morte não é tão ruim assim. Olhei pela última vez para minha doce vizinha e deixei meu corpo como estava – sem mexer um milímetro.

E eu dizia: a morte não é tão ruim assim. Mas soberba não é! E não sei porque ainda pensei em Maria e de meu coração partiu uma ansiedade tola: eu dizia,apaziguado, Volta Maria, volta.

Vim a saber depois que no meu enterro foi pouca gente.Alguns por pura obrigação. Não tinha amigos, só tinha Maria.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 07/04/2006
Código do texto: T135114
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel