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O Barco da Noite

"Houve um tempo à beira de córregos; houve um tempo de achados, de magia, onde só se bebia as coisas do corpo"

1.

Vinha caminhando pesado, passos largos, suado,medroso, ofegante. Dobrou uma esquina, alcançou uma calçada mais escura e andou mais rápido. Havia poucas pessoas na rua.

Se aproximava do casarão e só em pensar nisso, seu coração saltitava, num misto de medo e prazer. Suas lembranças embaralhavam-se, enquanto caminhava, cabisbaixo, com a gola do grosso sobretudo arpeada em forma de canoa. Ele mesmo se sentia sem quilha, bordoado de indecisões, ao léu, num mar afoito e robusto, levado de um lado para outras por ondas tortas.

Fazia muito tempo. Ele próprio nem sabia quanto. Só se lembrava do casarão e do forte cheiro de amendoeiras, das flores encorpadas e dos carvalhos que pediam sob a rua.

Lucas atravessou outro trecho de rua até alcançar uma viela que desembocava numa rua maior, onde havia mais gente e um bar e empórios. Entrou rapidamente no bar e sentou-se na mesa mais distante, onde era menos percebido. Pediu aguardente e acabou encarquilhando pela boca seca, mais três goles. Aquilo desceu rápido e mais rápido o aliviou do nó no estômago, ou de qualquer outra coisa que o pertubava e o fazia tenso.

Lucas era corpulento e bem alto. Com aquele sobretudo arqueado até à nuca, chamava mais atenção. E seguiu mais rápido. Usava um chapéu entortilhado na cabeça, com um enfeite de seda, pendendo de suas bordas. Andou por mais um tempo até alcançar uma rua de terra, vazia e quase escura, se não fossem por dois ou três postes, dispostos, displicentes e mal conservados.

2.

Finalmente chegara onde queria. Deparou-se em cheio com o velho casarão abandonado. Não havia sequer uma luz acesa ao redor da casa que só era palidamente rebuscada pelas luzes dos postes. Portas e janelas foram fechadas por madeira em forma de cruzeta, impedindo a entrada de curiosos. O jardim havia acabado. Das dezenas de flores, tratadas sempre, por mãos meigas e hábeis, restava agora monturos de lixo, pedras e quinquilharias e muito mato, que se cerrava e parecia avançar para dentro do casarão. O portão de madeira - por onde entravam carroças de bois e charretes, ainda estava em pé. Um riacho ao lado corria manso e indiferente, mas com suas bordas engargalhadas de seixos e mato.

Sentia medo e o efeito do aguardente passava rápido. Parado, diante da casa, corria com seus olhos grandes e azuis, como se vislumbrasse a mais bela paisagem ou se expandisse de alegria ao sentir a grandeza de uma belo quadro.

Depois de tanto tempo estava de volta ao casarão. Misturava-se realidade e ficção. Em seus sonhos sempre imaginou aquele momento, mas , ao mesmo agora, algo o repudiava.

Olhou à volta e viu meia-dúzia de casas-irmãs, feitas exatamente uma igual à outra. Parecia que ali só moravam operários. De alguma casa vinha um sonho oscilante de um rádio melodioso. Cães passavam indiferentes, cutucando à terra e o mato com narinas, procurando cheiros curiosos.

Estava à frente de uma realidade que sempre sonhou em rever e, ao mesmo tempo, de outra realidade que o tentava a fugir dali.

O ar estava úmido. Era o ínverno chegando. Um vento remexia com os galhos esquecidos e já sem pompa.

Resolveu caminhar até ao portão principal e tentar abri-lo. Puxou com cuidado uma corrente de duas dobras e a levantou. Se espantou quando ela subiu em suas mãos sem o menor esforço. Abriu o portão e ganhou o pátio entulhado e esquecido. Ao lado ainda existia uma velho galpão onde se guardavam antigamente café e milho. Também tinham seus portões cruzetados por madeirões.

O ruído do pequeno riacho voltou a lhe chamar a atenção. Seguia compassado por uns cem metros até se perder num valão e desaparecer.

Num puxão de corpo alcançou o varandão que circundava quase toda a casa. Ele se dobrava ao redor da casa em forma de cotovelo e por ela se passavam por janelas que davam para os quartos banheiros e cozinha.

Lucas tinha 45 anos, mas parecia muito mais velho e já cansado. Seu rosto, antes interessante e bem delineado com apuro e macieza, estava agora cortado por rusgas e lhe cobria uma densa barba.

Caminhou pelo varandão - afastando os entulhos com o pé - e foi correndo as mãos ásperas pelo velho corrimão que se teimava em pé, mas pendente e quase solto. Chegou numa escada de três degraus de ângulos quebrados, sujo e quase sem cimento, brotando dele uma massa fina de areia.

Olhou novamente ao redor e não viu ninguém. O som do rádio bolerante continuava a tomar conta da rua. Vomitou o pouco do que restava no estômago. Naquele dia, desde que chegara à cidade, praticamente não havia feito nenhuma refeição decente e o efeito do álcool arremedou o vômito. Limpou seus restos nas abas do sobretudo.

Nove da noite, bateu um sino longíncuo e abafado. Era a igreja de São Judas - lembrava ele - que ficava próximo dali.

Sentou-se nos degraus, olhou novamente o riacho sonolento, e pela cabeça lhe passavam mil lembrancas, algumas sem sentido, outras nítidas e outras temorizantes.

3.

A casa estava sempre alegre e com muita gente entrando e saindo. Cavalos, charretes,bois se misturavam às idas e vindas de viajantes, parentes, crianças e operários do moinho.Era também uma zoeira de patos,passarinhos, perús, galinhas e cachorros que ciscavam pelo pátio afora.

A rua também era ponto de encontro da rapaziada e ponto dos namorados e negociantes. Tudo muito cheio de vida, e à noite acendiam-se vários postes com luz à querozene, que empoava de brilho e festas, muita conversa e brincadeiras. Algumas eram noites inesquecíveis.

O tio de Alina era dono da casa e da moagem. Sizudo, pomposo, sempre alinhavado de roupas caras, nunca perdendo aquele ar senhoril que amendrontava até os cães, pelo seu porte de austeridade e chefão de todos e de todas as coisas. Longas botas subiam-lhe até ao joelho, pretas,e sempre muito bem escovadas e brilhantes. Mais olhava e pouco falava. Seu olhar era uma ordem imediatamente cumprida. Tinha um gênio enviezado, o que trazia uma inevitável antipatia. Era casado, tinha seus sessenta anos. Sua mulher, ao contrário, benfeitora de pobres, veio do interior, filha de um fazendeiro muito rico da região. Cozinheira de mão cheia e agradável só em se olhar para suas feições meigas e gentis.

Alina era sobrinha do senhor da casa. E também tinha vindo morar ali, desde a morte de sua mãe. Lá estava ela, vivendo com as quatro filhas do senhor e uma penca de outros sobrinhos. Ela estudava o normal e seu desejo era morar naquela vila mesmo, depois de formada, e lecionar. Era morena, cabelos puxados , bem negros, com mechas escorrendo-lhe pelo rosto. Tinha feições de tão bela e desejada por todos os rapazes da vila. Era arguta, inteligente, obediente, mas atiça e leve. Todos gostavam dela: desde o mais rude manobreiro de bois até sua tia, que a protegia como podia, da aridez e rudeza do marido . Alina tinha 19 anos.

4.

A casa era toda pintada de cinza-claro possuia um vigamento forte e havia sido muito bem construída. As arestas das paredes eram trabalhadas em gesso com sugestões de figuras romanas e gregas. As escoras tosadas em madeira do mais fino trato haviam sido todas importadas.

Em seu interior haviam uma grande sala de estar, oito quartos, dois banheiros e uma grande cozinha - que era sempre ponto de encontro de todos. Tinha um imenso fogão de ferro de dez bocas, que sugava o dia inteiro, alinhada à lenha.

Haviam lamparinas à querozene por todo lado. Tapetes, aos tantos, também importados. Os ladrilhos reluziam sem parar. Os quatro empregados não paravam de atiçar a casa de brilho e polimento, quase o dia inteiro.

A sala de estar tinha uma imensa lareira, cujo dorso subia ao teto, todo bordeado de estrias trabalhados em cimento forte Os tijolos e as paredes eram diariamente lavadas e nunca se via um um cisco sequer de fuligem.

5.

Alina e Lucas se conheceram naquela rua. Eram da mesma idade. Na época tinha 17 anos. Ele era filho de um carpineiro famoso na vila e tinha mais três irmãos. Todos trabalhavam com o pai na solagem de madeira. Lucas era o mais indeciso. Tinha outra idéias. Queria estudar na capital. Sua mãe tinha morrido há seis meses e os quatro moravam numa casa, pequena, mas muito bem construída, sob a orientação do pai,e tinham uma senhora que lhes preparava comida e arrumava a casa. Lucas logo após a escola, corria para a rua para encontrar com Alina.

Os fangueiros rústicos, com roupas coloridas, daquelas que na Europa usavam muito - cada peça de uma cor -, bem agorroados, mesmo se fizer calor, pele bem curtida pelo sol da montanha - moravam a uns dez quilômetros, morro acima, próximo a uma grande morro da vila. Era lituanos imigrantes que tinham escolhido aquele lugar para morar. Apesar do frio que fazia onde moravam, não pareciam se importar muito com isso. Vinham de terras geladas.

Eles chegavam todos os sábados: homens, mulheres, velhos e crianças, chegavam à rua onde Alina morava e levantavam suas barracas, também muito coloridas, feitas de pano muito grosso e toda traçada por gomos de uma linha grossa. No início a feira era tímida e os moradores ficavam apenas curiosos, mas com o passar do tempo fizeram amizade e a notícia da feira se espalhou pela vila e pelos arredores. Aos sábados vinha gente com suas carroças só para fazer compras na feira dos mais distantes lugarejos, tal a fama que ganhou.

Vendiam de tudo: primorosos artezanatos e guloseimas que ficaram famosas naquele tempo. Materiais feito a mão, couro de boa qualidade tinha em quantidade: bolsas, sacolas, pendentes para a mão, malas, mochilas e outra infinidade de pequenos artigos. Vendiam também muito material para transporte de pedreiros, tudo sovelado no mais puro couro, com incrível paciência.

Às mulheres cabiam vender comida e doces, além de bebidas caseiras - fortes e tonteantes -. O vinho era vendido em botelhas corridas por barbantões que se escorriam até o bocal, onde era bem fechado com uma bucha feita de arroz amassado, cozido e posto à secar durante dias no sol. Depois eram lacrados. Somente depois de alguns meses eram, então, vendidos. Ali, em duas ou três barracas que vendiam vinho e licor se reuniam os homens que se inebriavam com a delícia do sabor, sea raro odor e gosto apaziguante.

6.

Aos sábados Alina e Lucas faziam da feira um ponto de encontro, onde rodopiam pelas barracas e sempre barganhavam alguma guloseima e Lucas tomava cerveja em copos de madeira.

No início foi apenas uma amizade, mas logo se entrelaçaram. Já namoravam há três anos. O tempo se encarregou de uni-los mais.Para Lucas, Alina era a unidade de coisas indecifráveis, de coisas que lhe tocavam e não entendia, um mundo diferente, onde reinava a paz e um entendimento superior. Era como uma oração que não tivesse fim, quando ele se juntava a ela.

Alina, meiga de fazer tonturas, procurava em Lucas o que nunca tivera na vida: carinho e compreensão. Era arisca e atenta a tudo. Mais inteligente e perspicaz do que Lucas, sempre pronta para dar um palpite ou achar uma solução em casos menos esperados. Se amavam tanto, e estavam sempre juntos. Fugiam das aulas para se encontrarem. Ele, de poucos amigos, pois seu tempo era apenas para Alina e nela se refugiava como um pássaro indecifrável que tinha achado seu ninho e nele se acalentava a cada momento. Lucas era brincalhão, mais cheios de tolices e inocência nas coisas do amor e do sexo. Alina prourava contornar e lhe mostrava caminhos aos quais nunca percorrera.

Era muito fácil viver naquela vila. Algumas horas de estudo e um mundo inteiro de horas vagas para correr pelos capinzais das fazendas próximas, admirando flores, dando-lhe nomes estranhos a cada uma que encontrassem pelo caminho. Procuraram trilhas no cerrados que sempre desembocavam em algum riacho e lá se banhavam quando fazia muito calor. E sempre fazia muito calor, mesmo se chovesse ou estivessem no inverno.Um calor sóbrio e latente que subia pelo corpo e alcançava a alma de uma maneira doce e invulgar. Alina gostava da cor branca e sempre inventava uma moda, um tira de cetim branca para compor suas saias.À noite quando esfriava mais , ela passava docemente, ao redor do pescoço uma tira larga de algodão branca a lhe proteger o rosto e o pescoço.

A noitinha sentavam nos degraus do casarão - lugar mais afastado dos olhares curiosos dos parentes - e conversavam horas sobre a vida e o prumo que deviam tomar no futuro. Mais falavam do futuro como se fosse o amanhã. Lucas já mudara de idéia: ia mesmo ficar com a capintaria de seu pai e dali tirar seu sustento e Alina, que já estava terminando o curso normal, ia lecionar na vila.

Todas as noites, enquanto conversavam ao sopé dos degraus, surgia a criada da casa - a melhor cozinheira que já viram -com alguma coisa na mão. Lucas tomava licor caseiro com biscoitos amanteigados e Alina se aprumava num chá de menta com pedaços de tortas de maçãs ou pêssegos.

7.

O tio de Alina começava a se preocupar com aquele namoro, um derriço que já tomava proporções que ele não esperava. Ainda mais porque ele julgava Lucas um inconsequente, imaturo e pobretão - incapaz de sobreviver naquela família abastada e de nome conhecido nos lugares mais longícuos da vila. Já havia comentado com sua mulher. Ela indecisava e temerosa passara a concordar com ele. Mas , por dentro, amava Alina e Lucas.

Ela logo tratou de chamar Alina e dizer do pensamento do marido.Ela não chegou a perceber o que de tão terrível passava pela cabeça do tio e o porque de julgar Lucas tão superficial e vulgar.

Tão logo Lucas soube da intenção do tio de Alina, eles passaram a se encontrar longe do casarão, quase às encondidas, continuavam juntos, nos arredores da vila. Lucas começou a se sentir amuado e andava cabisbaixo com aquela situacão, mas a sempre presente Alina, tratava de animá-lo. Ele era tinhoso e sentimental e nisto seus sentimentos se contradiziam.

Alina estava grávida de Lucas, de dois meses. Ele jamais viria a saber disso durante toda a sua vida.

Um dia Alina leu um pequeno poema que tinha escrito para Lucas. Ele dizia: "Às vezes a tão arraigada plenitude do verão, se faz transbordar no inverno, e torna alguns homens, soberanos sem reino, e nossa juventude rodopia em mãos de quem não entende de sonhos. Este sonho, às vezes, se precipita e caminha diante do tempo e acabam por morrer em braços de ninguém. Quem manseia os lobos e entende de seus mistério? Quem trata da fúria que entorta os homens e os torna donos de vinténs? A corda acabou; o sifão se quebrou. Não houve festa e a cerveja azedou. Duas vezes se fazemos mulher, ao brotar como trigo no seio quente da amada e quando renascemos em outro ser, em outro homem. O amanhã já tem outro dono...

"Um dia, quando a névoa da vida passar, um cavaleiro solitário, montando num belo corcel branco, se soltará de suas amarras que lhe prendem o corpo e caminhará em direção aos meus seios e os afagará como flores belas e mágicas. Ele, no entanto, não saberá, se ela está viva ou morta. Apenas reconhecerá sua vida, através do doce encanto de suas formas, pela doçura que arqueia em seu corpo. E aos anjos caberá o dom e o milagre de fazê-la despertar e endereçá-la ao antigo senhor...o eterno amo."

Foi a única vez que Lucas sentiu Alina tão apreensiva e amuada.Ouviu com tristeza aquelas linhas.

Aconteceu numa tarde de verão. Fazia muito calor e não havia brisa. A vegetação e os grandes galhos dos carvalhos, pareciam imóveis. Um mormaço invadia o casarão. Os cães espreguiçavam-se no pátio. Os homens que trabalhavam no galpão na moagem de café suavam e andavam lentos e pesados. Na rua poucas crianças brincavam indiferentes.

Alina estava na cozinha, ajudando a criada a retirar polpa de frutas amaciadas para fazer manjar. O tio chegou à porta e rudemente a chamou para conversar em seu quarto.

Alina nunca gostou daquelas velharias, do ar abafado do quarto. Havia imagem sacras dispersas pelas paredes e pinturas de santos em esquadrias muito bem cuidadas. Havia um pequeno oratório e uma vela sempre acesa. No criado-mudo fotos da família e um terço. Na parede,em cima da cama, geometricamente colocada havia uma cruz sempre bacejada pela luz trêmula da vela.

Quando o tio bateu a porta ela sentiu um calafrio. E ele foi logo ao assunto. Disse que já sabia dos encontros dela com Lucas. Falou que ele não era o homem ideal para ela. E enxovalhou Lucas de maus predicados desde o seu caráter, passando pela pobreza da família até a falta de cultura de Lucas. Alina ouvia, tensa, porém calada. Ela sentia como se alguém a escaldasse em água fervente.

O tio ainda de pé recordou o tempo em que a mãe de Alina vivia e que havia prometido, antes dela morrer ,que daria o melhor para Alina, uma formação clássica e superior e um casamento de primeira linhagem.

Alina suava e apertava as mãos como suas unhas quisessem se encravar na carne.

Finalmente, foi taxativo, e sem olhar para ela, disse que no mês seguinte ela partiria para a capital e ficaria estudando num colégio de freiras, até que se formasse e esquecesse dez vez de Lucas. E finalmente a ameaçou: disse que tinha capatazes suficientes para dar uma lição em Lucas e para vigiá-la dia e noite se fosse necessário.

E como entrou saiu, batendo bravamente a porta.

Um silêncio desabou no quarto. Alina ficou estática, sua vista se anuviou. Um murmúrio parecia agoniar em seus lábios. Estava pálida e ainda parada. O calor se misturava a um gélido pavor.

Finalmente caiu de bruços na cama e se largou às lágrimas, sem a costumeira valentia. Com o dorso encolhido, chorou flácida, como um vinhedo batido por ventos fortes. Parecia cair num abismo em direção à Lucas, mas ele não estava lá.

8.

FRAGMENTOS:

"Idas são formas de percas. Quem não perdeu, vai perder. Quem ganhou, ganhou. O imutável da coisa é que ela se locomove. Há trinta anos- e parece hoje estava com um homem de sobressalto e pertinaz dúvida: ele, subitamente, meditando, me perguntou, o que somos? Eu mal sabia soletrar coisas da filosofia, disse apenas que somos o que somos. Nada mais disso. A pedra filosofal existe de duas maneiras: ou você é ou não é. Se você é, continuará a ser durante os séculos que virão. Você não se perderá vulgarmente no solapé da terra. Alguma coisa no move para lá e para cá. E nos torna mutáveis diante do futuro. Se você olhar a Terra bem do alto verá que tudo aquilo não é nada diante di gigantismo do universo. Por isso tudo é tão passageiro e invulgar.Hoje somos o que somos, amanhã já não seremos o que fomos. Salve-se nisso tudo o amor.Com o o amor você transcende todas essas barreiras.O que realmente somos salvos do encanto e da angústia do universo é um amor que trasncende a todas as estrelas, planetas e o que vier mais pelo escuro adentro. Se há vida permanente, ela mora com você."

"Toda rotina é atroz. Toda permanência e aviltante. Se as coisas se mitificam,se transformam,se moldam em novas formas, porque não a vida da gente também não sofre diariamente uma metamorfose? Um dia não é igual a outro. Não é igual a nada. O que foi ontem, mudou-se, com outras formas para hoje.Se você é sofredor de ontem, hoje é passageiro do alívio ou da esperança, ou apenas um simples relapso do destino. Postagem de sensações descuidadas você pode ter ferido alguém ontem, mas hoje pode transformar tudo num perdão. Tudo é uma questão de distância que não existe, de uma proximidade fictícia, de uma loquacidade invulgar.Pena que hoje seja hoje e não tenham sido ontem o que nós desejaríamos que fosse amanhã..Ontem acabou, morreu. Nos transformamos em mais alguma coisa. Somos diferentes de ontem e esse tempo jamais voltará."

"É na noite que se descobre. Sob as luzes das avenidas ruas, você se acha num mundo intransigente,facultativo,dilacerante,agreste e peculiar..É na noite, onde se você quiser é que você se mão se acha.. E se desencontra. Pode ouvir um som de um piano que não existe, ou um maestro das estrelas tocando rapsódias sob postes mal-iluminados. Pode encontrar o absurdo da vida em toda sua lascividade. Mas afinal, o que queriam? Que na noite fossem rezadas missas e pregados oratórios? Não, a noite foi feita para tentar se descobrir e descobrir aos outros. Se eu perco, alguém também perde por mim. Se eu encontro, mil outros também já encontram. Bares cheios, quartos parelhados de mulheres altivas e bem pagas, homens avulsos perdidos dentro de si. Copos na mão! Ah! Se a noite não fosse feita de copos não seria noite.Quando amanhece sobrevive a angústia. Você deixou alguma coisa para trás que nunca mais verá e se perdeu entre a massa. "e seu espírito.

"Me banho ao sol, me prumo aos pingentes de estrelas. Há pós e procuras, mas a mim não cabe decidir: o que está escrito, está escrito. Que os escrivães se comportem. Não tenho nome, nem sobrenome. Tenho um número que me identificam como cidadão de pátria nenhuma, cuja bandeira já foi mascada pela guerra. No me interior só quero agora a paz que nunca tive e a presença de qualquer fantasma que finja ser gente de pouca conversa e que toque piano.";

"Que me levem daqui, que não me façam remoer a um passado sem fim,agreste,rústico, que levam a um futuro sem direção.Não há mais nada a fazer.Perdi o que tinha, rezei sem saber, acompanhei os que me amavam. De súbito, um rompão no tempo e debrua a magia que nos suportava. Todos eles se foram para uma guerra sem volta e, se um dia me chamarem vou negar a mim mesmo. Só ergo a bandeira da esperança uma vez. E esse tempo já passou.E me dizem: você será apenas restos da multidão.";

"Me escondo em ruas escuras onde os passageiros passam a procura de algo. Não sei se acham. Mas a procura é duvidosa e cheia de ânsias.Parte de mim está neles, parte do que sou eles também são. Somos iguais: o nada e o vazio.

"Toda pessoa reduzida a infelicidade é um momentâneo. Hoje aqui, amanhã ali, sempre a procura de alguma coisa que lhe tiraram quando nasceu. Um dia, antes de morrer, ele vai encontrar esta pérola, uma goma de ouro, que despencou de seu espírito.Depois disso, será um homem feliz.Morto, mas feliz.O que vem depois é outra história."

"Não sei igualar as coisas.Não sei relacionar o próximo. Se antes augurava uma vida cheia de lagos pacíficos, hoje me redemoinho em ansiedades e vazias pensatas. Hoje nunca foi igual a ontem. Ontem foi um vento ralo, morno que rebatia em nossas faces, mas nada nos dizia. Fomos descobrir, tarde demais, onde o tempo é perspicaz e silencioso. Ele age a sua maneira e, de resto, nos deixa em abismos de profundidade"

"Cada tempo é um tempo, cada hora, um espaço. Se você se reduz ao tempo está fadado ao ócio. Mas se você descobre dentro de você uma outra parte que lhe falta, a vida será sempre de uma intensa procura. E um dia você achará. Afinal, neste céu imenso, não pipocam mil estrelas?"

"Detalhe: procuro nas ruas escuras, cercado de bêbados, uma idéia ou uma ação. Encontrei ação. No ralo de meu espírito lembrrei-me de que, quando jovem, sonhava e conseguia conquistar o sonho. Hoje me rejubilam apenas as flores que me mandam. Mas meu sonho nunca mais voltou. Foi morar em outro espaço, sem tempo, sem jardins".

"Há mais entradas em minha vida do que trilhas. Já me perdi em centenas delas. Cada vez que abro uma porta encontro outra e mais outra. Disse-me o mago do tempo que as portas são sonhos passageiros e inconsequentes. Mas, disse ele, haverá uma porta que jamais se abrirá. É nela que você oculta seu espírito dos homens."

"Que me levem daqui.Mas uma palavra quero dizer antes de partir.Perdi o que não tinha, ganhei o impossível e conquistei nódoas que nenhum tempo fará apagar. Sei disso...sei disso. Sou bom em matemática e por isso perdi meu tempo procurando alturas, enquanto meu barco me esperava no sopé da montanha, junto ao mar, onde ondas rebatiam contra os rochedos. Mas nunca houve sol em tal oceano de espíritos".

"Quero encontrar neste dia pessoas tão diferentes de mim, mas que se igualem em solidão. Coloquei rosas em seu templo e rezei, sem saber, que deuses sem nome haviam levado o que eu mais amava, por quem eu mais me perdia. Dizem: é verdade: agora você vagará entre mil mãos de seda, sem encontrar nenhuma.Será apenas multidão"

"Hoje dedico minha vida a natureza diversa. Que ela faça o que quiser. Que me banhe de sol ou me deixe aprumar meu sono sob as estrelas. Mas não deixe ela hoje partir. Se for, levará metade de mim. E a outra parte é feita apenas de rezinas, pós e procurars.Se for levar, nãoleve minha parte dela ."

"Meu nome é João. Tenho dois amigos: um pássaro e um cão. O pássaro me resfaz da faina e o cão me guarda de meus amigos.Hoje já não quero mais ver ninguém. Pois, debruas, todos já passaram do tempo"

"Quando se perde um amor se encontra outro. Quando se perde o poder de lutar, esconde-se na floresta de fantasmas. Se hoje alguém quiser me achar que procure pela primeira floresta e gritem: "João...João...para onde levaram teu cordão de ouro?"

"Me calo diante das evidências que me aprovam. Me acusam de solitário, gigante dos mares sem naves. Mural deposto dos homens. Procuro nos vãos uma saída e só me deparo com falsas ansiedades e faces que um dia pousaram em minha vida e hoje as procuro e só encontro velhos retratos amarelados e passageiros.Mas naquele tempo não havia fotógrafos!"

"Não quero hoje que me julguem um perdedor de sensos. O que vou fazer se aqui me colocaram e não satisfeitos, dramaticamente me tiram logo meus achados? Se reclamo não é por mal. Mas porquê, a vida foi feita para tirar.Não sou brinquedo, mas não me amortizem meu caos com danos e perdas.Que a tragam vestida de branco.Minha princesa diária e de vidro não pode morrer."

"Perguntaram-me hoje porque estava tão soberbo. Disse apenas que mais uma vez vi o sol raiar e, depois, suas luzes morreram. Querem vocês homem mais feliz do que eu? Choro apenas de alegria"

"Sou dono de duas guerras. Uma, os homens atiram a esmo para matar. Outra, me procuro enre os arvoredos o sentido das coisas que me entregam. Uma bela vestal pousou, num campal de flores e disse, que durante cem anos eu esperaria. E deveria estar preparado como um verdadeiro cavalheiro. Desses, fogosos que lampeiam o mundo, mas não o conquistam"

"Minha queda para solidão nasceu quanto tinha 18 anos. Deuses empertigados me presentearam com uma vestal. Anos depois a levaram. Hoje procuro pelas ruas de bêbados e mendigos, aquela que se foi.Encontro apenas ruas e avenidas vazias e luzes alucinantes de carros. Dentro de mim,nada.";

"A força que eu não tenho procuro em outros homens. A força que procuro vaga pelos bosques. E me disseram que nada minha vida seria rala em conquistas. Ganhei um ramo de rosas e por isso, já considero o mundo conquistado. Falta porém aparcer quem as entregou. Partiu ao rair do dia e se enondeu entre as nuvens. Perversa maldade. Serei um pássaro e então irei reconquistá-la como uma águia."

"Quero a vida hoje sem complicações. Se tudo já perdi me resta minha única arma: a reconquista.Mas como espadar no breu, sem armas?A vida me foge rapidamente".

"Tive duas chances na vida.Ambas as perdi. Na primeira era para conquistar uma montanha. Desisti, era grandiosa e forte demais.A segunda construir uma montanha. Desisti.Era difícil demais.Levaria mil anos para tentar realizar as duas.Paciência, comprei uma garrafa de aguardente e dormi apaixonado pelo meu fracasso. Em ambos os casos mesmo vencendo seria um perdedor."

"Hoje faço 64 anos. Ganhei de um mendigo um par de botas e perguntei de que me serveriam? Ele,complascente, apenas disse "ande sem parar, até gastar o solado, e encontrará metade de sua vida que te tiraram. A outra parte só daqui há cem anos. Quando alguma estrela se mover para abrir um pequeno espaço que será só seu".

"Mais revelador do que a palavra só uma outra. E me disseram procura sua parte em outra parte. Ora, se já a nada pertenço, só me resta colocar a terra e procurar o que me foi tirado. E todos se reunirão em perdão-comum. Afinal tinham piedade daquele homem que perdeu a vida e encontrou outra, sem morrer. Coisas de assustar. Coisas de criança brincar.Coisa de fazer fantasmas correr".

"Nós somos tão passageiros como o vento, tão fugazes como uma tempestade. Por isso procure dentro de você uma luz que só necessita o afago de mãos sedosas para iluminar seu espírito".

"O destino não é loquaz? Quando descobri que eu já não era mais eu, e sim parte de outra parte, meia-metade de outro, ele me fez encontrar comigo mesmo e disse afague os lábios e será todo seu.Tolice de sonho de fanhosas vozes".

"Sou tímido ao ponto de me negar,diante de um universo que não foi feito prá mim. Procuro nas estrelas bordas invisíveis para me achar. Encontro pequenos pedaços de ouro, espargidos junto às estrelas. Agora, não sei foram feitas para mim ou uma pequena amostra de que poderiam ser feitas para outra. Não ouso tocar em coisas mutantes, vísíveis ou não, sei que são meus pequenos achados.Quero a carne e o espírito e os festejo."

"Um dia me fizeram acreditar que era apenas uma criança. Concordei com os avós e os pais. Quanto tudo cresceu e se transformou, vejo os que foram e deixaram marcas que agora me ferem profundamente. Sou fruto de um passado e mal sei enfrentar o presente. Sei que um vazio mediano me toma quando toco em coisas antigas ou elas me invadem e me colocam num redemoinho de solidão e saudades. Se é pura tolice, é pura tolice minha."

"Andando por ruelas, de passos largos e nervosos, anseio o que está por vir. Meu encontro com o passado estava há poucos metros. Se havia indecisão, havia o repentino de descolorir o futuro. E depois de duas ruas, três avenidas, um poste mal iluminado e um bêbado me vi diante de um um espelho.Me via três vezes."

"Nada mais impossível do que querer conquistar o que está aparentemente mais próximo.Se você estende a mão encontra apenas rostos sem faces, imóveis e já, pelo tempo, mortos é sinal que você caminha também para lá. Se você anseia a vida carregue a bandeira dos poucos. Não se achegue,não se mova,não ame, não faça gestos mas não deixe nada passar."

"Sentei no banco da pracinha e pensei: lá estão os amantes. O mundo para eles era apenas um só.Medrava angústia no tempo. Eles não sabiam que voavam a uma velocidade incrível, sem volta. Um dia porém, ele fará o mesmo e se perguntará: para onde foi o açoite que me feriu e agora me alarga de sós e anseios, que o tempo levou e não mais tráz?"

"As coisas intemporáveis são as mais cativantes. Fui ver um morto, que não era eu. Fui visitar sua sepultura que não era minha. E não senti medo.Nada mais havia ali, eu sabia. Mas sua lembrança, cativo em lágrimas.Quando você partiu apenas disse que não demorava.E 500 anos se foram e eu espero que o vôo do pássaro termine seu vôo e pouse em meus ombros, já arqueados."

"Ao sentar naquele banco de cimento, nos abraçamos e juramos coisas eternas,dizeres de homens e amantes.Loquaz este tempo: nos leva,indomável, para um canto de breus, e nos acalenta com mãos que chegaram um dia de primavera e partiram no inverno. Igual a pássaros que mais sabem da natureza. Hoje espero essas mãos e encontro tubos pela garganta e dores formidáveis. A vida tornou-se um rascunho. E quem a escreve não sou mais eu."

"Este mês tem trinta dias.Minha vida tem trinta noites. Nessas, vou sair fantasiado de encantos e lá, ao alvorecer vou cantar a prosa mais bonita e dizer prá ela: o corpo já se foi, mas restam cinzas que o tempo guarda em algum lugar. E este lugar, chamam de amor"

"Falando de pai para filho, de mãe para pai, digo que não tenho pai.Falando de avós, digo que eles sonharam e se foram.De tios,tias,primos ou sobrinhos, nada tenho. Me restou uma paisagem que se transforma em homens rudes.De tempos em tempos, e sem encanto,não me percebem nem quando vivo estou. Se assim é a vida. Assim é a morte: um velho bonde que vai recolhendo passageiros à esmo, mas de intuito formado."

INTIMIDADE DO DESTINO:

Lucas chorava. Já passava da meia-noite, quando surgiu daquelas lembranças. As luzes das casinholas em frente já estavam apagadas. Só restavam às parcas luminárias da rua. Fazia mais frio. Levantou-se e aprumou suas roupas, repuxando-as devido ao frio.

Colocou o chapéu e se levantou. Percorreu todo caminho de volta pelo varandão, quase repetindo os mesmos gestos de quando chegara. Pulou no pátio. Viu algumas ratazanas zoarem nas frestas das portas. Colocou as argolas de ferro no lugar e fechou o portão.

Já na rua viu uma placa, meio pendente, dizendo apenas 'vende-se", amarrada num dos lastros de madeira da varanda.

Andou até a quina da rua, se voltou, e olhou pela última vez o que restava do belo casarão. Sabia que nunca mais voltaria ali e nem razão para isso havia.

Teve medo e ficou mais triste.

Chegou na estação de trens vazia, onde um relógio marcava uma hora da manhã. Dois garis sonolentos, varriam o pequeno salão de espera. O primeiro trem para à capital só sairia dentro de quatro horas. Sentou-se num dos bancos de madeira, chafurdou o chapéu mais rente aos olhos e se encolheu no sobretudo. Fechou os olhos tentando dormir. Mais as fortes lembranças eram mais fortes. Ficou acordado toda a noite.

9.

Numa noite de 12 de agosto de 1923, ainda com restos de inverno no ar, Lucas, de 24 anos, filho de capinteiro, armou-se de uma espingarda do pai e matou Alina, também com 24 anos, com um tiro no coração, nos degraus do casarão. Alina vestia uma saia azul de cetim e uma blusa de lã e estava com um pequeno lenço branco, adornando o pescoço. Ela morreu na hora e seu semblante parecia de paz e serenidade.

Lucas não deixou o local até que a milícia chegasse. Foi julgado e condenado a 15 anos de prisão. Cumpriu 11, saiu em condicional, e nunca mais foi visto. Alina foi enterrada na mesma sepultura da mãe, num pequeno e deleixado cemitério que ficava a uns 50 quilômetros da vila. A cerimônia foi simples e havia pouca gente. Seu tio alegou problemas de saúde e não foi ao enterro. Lucas, em toda sua vida, nunca confessou o motivo que o levou a matar Alina.

Em 1945, um rico fazendeiro da região comprou o casarão, mandou demolilo e construiu outra casa que tinha linhas avantajadas e modernas.

Ali passou a viver junto a sua mulher Carla e seus filhos, Roberto, Douglas, Alina, Patrícia e Carla.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 07/04/2006
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Sobre o autor
José Kappel
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