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CONTO DA ARANHA

Caminho pelas paredes... escondo-me pelas arestas do sarrafo... respiro por todo o corpo... tenho oito pernas e patas e seis olhos... meu veneno é fatal... meus movimentos são ágeis... sou aranha...
Minucioso teço minha teia... ocioso aguardo... ansioso espero minha presa passar pelo despercebido predador e ficar presa. Presa a presa caminho lentamente em sua direção, imobilizo seus membros, otimizo meus espaços, enclausuro-a em casulo próprio e espero calmamente... contundentemente... a inevitável asfixia mecânica.
Então sorvo-lhe todo o sangue... sou aranha... sou vampiro... sou sanguessuga... sou predador... encruado em náuseas vis, assim como em volúpias de desabstinência. Pela réstia do que sou carrego a morte em meus desejos... rastejo pelo teto... desobedeço Newton... sou mais leve que a gravidade, sou mais leve que a luz... sou aranha e tenho um tédio enorme da vida... sou aranha e me arrasto pelo que sou atento que um dia talvez possa transformar-me naquilo que não sou e que não possa ser, talvez até nem queira, mas sei que é tudo vão... porque sei que aqueles que sabem o que são sabem o que não podem ser, mas mesmo assim tentam... eu não tento... no intento apenas meu instinto, tinto minhas presas com sangue daqueles que são insetos inconformados com sua própria existência e que, desesperados, viram presas fáceis desta aranha que vos fala... sim eu sou aranha... arranca o sarrafo da parede que estarei lá pronto a te picar... meu veneno é fatal... meus movimentos são ágeis... tenho uma sede enorme da vida...
Tenho articulações... sou individualista... trabalho sozinho... não acredito no montante para fazer parte do todo... prefiro imaginar que o todo é um único fragmento perdido de todo o resto... o todo é singular... acredito na singularidade do todo... sou todo fragmentado... sou um pouco todo... sou vários todo... não possuo predadores... faço parte do todo unitário... reino em minha teia e meu sarrafo é meu castelo... qualho o sangue do inseto antes de tê-lo... sou aranha e não Otelo... sou equivocado selo... aracno coberto de pelos... anticlero um mero ser cínico de sorriso amarelo... antídoto do meu próprio veneno...
Não há domínios... não há dominadores... não há... jamais houve... nunca haverá... estabeleço sinceros pêsames àqueles que pensam que são aranha também... como eu... ah ah ah ah ah ah ah ah... pode até ser que sejam, mas aquelas de jardim... inofensivas e indefesas... sou calor latente que fibrila em meus micro organismos... não ouço tua voz... sinto tua presença... transito pelo teu corpo desapercebido e pico... pico... pico... ah ah ah ah ah ah ah... sou aranha venenosa... tenho uma alegria tremenda da vida...
Sou sorrateiro... sou calculista... não preciso de oculista pois tenho seis olhos... sou hermafrodita... tenho filhotes... reproduzo-me a cada instante...
Celso Godoi Neto
Enviado por Celso Godoi Neto em 07/04/2006
Código do texto: T135248

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Sobre o autor
Celso Godoi Neto
Porto União - Santa Catarina - Brasil
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Celso Godoi Neto