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A estiagem já durava mais que o normal, e estava cada vez mais difícil encontrar frutas boas para mastigar. Mas o hominídeo sem nome, impelido mais pelo instinto primitivo do que algum tipo de raciocínio, continuava.

Seu bando estava próximo. O vento de vez em quando ainda trazia seus aromas característicos. Estavam famintos e sedentos como ele. O inverno se estendera mais que o normal, e a vegetação lutava para florescer naquele ambiente inóspito.

O estômago roncou alto. Estava se alimentando de sementes ressecadas e folhas marrons há quase uma semana. Não havia sinal de água, e o sol fustigava seu couro.

Ergueu-se e forçou a vista. Sua mente limitada se recusava a continuar, mas seus instintos, mais confiáveis, o impeliam a prosseguir. Não sabia como haviam chegado àquele deserto rochoso e insalubre, mas sabia que precisava sobreviver. Não tinha realmente explicações filosóficas para este fato. Só sabia. E sobrevivia, dia após dia.

Duas fêmeas tinham parido. Duas bocas para alimentar, até que conseguissem procurar seu próprio sustento. Ele ficou assustado quando uma das fêmeas começou a se contorcer de dor, mas olhou estupefato para a miniatura que ela expeliu. Imediatamente entendeu que era um filhote. E que precisaria ser cuidado.

Subitamente um brilho intenso o assustou. Algo caía do céu. Uma massa de esferas prateadas caía numa velocidade impressionante, sua superfície refletindo o brilho da bola dourada. Cobriu os olhos ofuscados, e por pouco não perdeu o pouso desajeitado.

Refeito do susto, reuniu as forças e correu na direção do objeto. Não, não compreendia o conceito de curiosidade. Apenas era um distúrbio na paz natural, e que talvez trouxesse água e alimento. Levou algumas horas para alcançar o ponto onde o estranho objeto finalmente parara, e quando lá chegou as esferas prateadas já haviam desaparecido. Em seu lugar estava uma forma estranhamente familiar. Parecia um imenso inseto, parado sob o sol com os pés esticados. Mas era grande demais para ser um inseto. Pelo menos um inseto que ele já tivesse visto.

De repente a barriga do inseto se abriu, e duas criaturas emergiram. O cérebro pouco evoluído dele apenas reconheceu a forma. Cabeça, tronco, dois braços, duas pernas. Tinham as cabeças redondas, e apenas um olho brilhante no meio do rosto. Não viu boca. Não tinham pelos, apenas uma pele prateada e rugosa. Caminhavam vacilantes, perscrutando o ambiente. Um deles se distanciou um pouco da mãe-inseto, mas o outro retornou para seu útero.

Sem aviso, a mãe-inseto começou a girar uma de suas antenas. Um zumbido agudo tomou conta do vale, irritando seus ouvidos. Ele urrou incomodado, denunciando sua posição. Um pequeno alvoroço se iniciou. O que estava mais distante da mãe-inseto retirou algo da pele com a mão, e mostrou para ele. O zumbido cessou em seguida.

Olhou desconfiado para a criatura que permanecia parada segurando aquele objeto. O outro não saiu da barriga do inseto. Um impasse de alguns segundos, até que algo em seu cérebro primitivo gritou: "Comida!".

Ergueu-se, e caminhou para a criatura. Aquele gesto era característico. Estavam oferecendo algo a ele, como os mais velhos sempre faziam com os mais novos. Era seu estômago faminto falando, e não seu cérebro. Precisava comer, e aquela criatura claramente estava oferecendo algum tipo de alimento. Não podia se dar ao luxo de recusar.

Quando estava a poucos passos de distância, apurou o nariz. Não sentiu o cheiro característico das frutas ou de água. Não era comida na mão da criatura, mas algo escuro, duro e frio. Irritou-se, e fez questão de deixar isso claro. Urrou e atirou poeira na criatura. Foi quando o objeto explodiu em luz e fumaça.

Ele sentiu o golpe imediatamente, no peito, queimando e destroçando. Caiu de costas, os braços se debatendo inutilmente. Os tremores involuntários se seguiram, além de um frio incompreensível naquele ambiente. Quando sentiu-se sem forças, desistiu de se debater. Com suas últimas forças ouviu, sem realmente compreender, os grunhidos da criatura.

- Houston, nós pegamos um. Repito, nós pegamos um!


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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 29/04/2005
Código do texto: T13758
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia