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O OVO DE PÁSCOA

O OVO DE PÁSCOA
J.B.Xavier

Cansada de um dia estafante, Fátima subiu lentamente as escadarias que a levavam ao último andar do edifício onde morava. Era um pequeno prédio de quatro andares, parte de um condomínio imenso, onde moravam famílias de classe média baixa.

Enquanto subia, ela pensava no que se transformara sua vida, após o divórcio que a reduzira a ter que morar neste imenso “vespeiro”, como ela costumava chamar o condomínio.

Faltavam apenas dois dias para a Páscoa, e ela não tinha dinheiro para comprar os grandes ovos de chocolate para seus garotos, como eles estavam acostumados.  Eles teriam que se conformar com algumas guloseimas banais, como balas e pirulitos.

Já ia longe os tempos confortáveis em que vivera a plenitude do que o dinheiro pode comprar, enquanto fora casada com um homem bem sucedido.

Há três anos ela tentava se adaptar à nova vida simples e sem os confortos aos quais se acostumara nas duas décadas que durou seu casamento.

A confortá-la havia os três filhos. Três garotos que estranhavam muito as dificuldades pelas quais passavam agora.

De qualquer maneira ela não podia se queixar da ajuda financeira que recebia do ex-marido. Não era muita, mas com essa ajuda ela podia cobrir os custos básicos da educação e manutenção das três crianças.

Entretanto, sempre que pensava nessa ajuda, ela sentia-se humilhada por ser obrigada a aceitar essa “esmola” de uma pessoa que desfrutava de todos os confortos que a vida de solteiro pode proporcionar, enquanto que ela, agora, não tinha dinheiro sequer para proporcionar uma Páscoa decente para seus filhos.

Não era justo, pensava, enquanto subia a escadaria. Não era justo.

Além disso, o que mais a preocupava era que o comportamento das crianças estava se modificando e aos poucos fugindo ao seu controle. Inutilmente ela tentava suprir a presença do pai, mas a influência do pai – tanto quanto a da mãe – é insubstituível na formação sadia do quadro psicológico de adolescentes.

Seu emprego não a motivava tampouco. Considerava uma miséria o que lhe pagavam, se comparado ao que dispunha nos tempos de casada.

Afetivamente ela nunca mais conseguira estabilidade, pois percebera ser muito difícil estabelecer um relacionamento estável com alguém. Das tentativas que fez neste sentido, restaram-lhe decepções que a fizeram sofrer desnecessariamente. Por isso decidira seguir sua vida sozinha, ao lado dos filhos.

Ela olhou para os lances de escada à frente e suspirou, enquanto fez uma pausa para descanso. Depois, à medida que foi se aproximando da porta de seu apartamento exíguo, ela já ouviu a baderna dos três garotos.

Voltando a suspirar, ela sentiu as lágrimas forçando passagem. Lentamente, abriu a porta, e seu primeiro olhar foi para a cozinha, logo adiante da pequena sala.

Num relance ela viu que estava tudo bem arrumado, as louças lavadas e a mesa posta, esperando por ela.

“Crianças, vocês são um amor” – pensou ela enquanto ouvia também a baderna imensa que vinha do quarto dos três meninos.

Então ela olhou pela fresta da porta e viu a “guerra” de travesseiros que os três lutavam. Pela sala tudo estava espalhado, numa bagunça para a qual ela olhou desanimada.

Seu primeiro impulso foi dar uma bronca enorme nos meninos. Depois, contendo-se, pois considerou que já ralhava demais com eles, dirigiu-se ao seu quarto, e não mais suportando, deixou que as lágrimas rolassem livremente, drenando com elas todas as frustrações, inseguranças e temores que carregava, em relação ao seu próprio futuro e ao dos seus filhos.

Enquanto a baderna no quarto dos garotos continuava, ainda chorando, ela apanhou uma folha de papel e escreveu um pequeno bilhete à diretora da escola onde eles estudavam. Não lhe ocorria ninguém mais a quem recorrer para ajudá-la na correção do comportamento deles.

No bilhete ela descreveu sua situação, tanto sentimental quanto financeira, e as dificuldades que enfrentava para educar suas crianças. Falou da baderna que eles faziam e da inutilidade de seus pedidos para que eles mantivessem a casa arrumada, já que não tinha recursos para pagar uma arrumadeira. E finalizou pedindo a ela que lhes passasse uma reprimenda sobre o assunto.

“Tenho certeza que eles ouvirão mais a senhora que a mim” – finalizava a mensagem.

Cuidadosamente, ela colocou o bilhete na agenda de um dos meninos e deitando-se na cama, colocou dois travesseiros nos ouvidos, tentando não ouvir a gritaria que os três faziam.

O cansaço a venceu e ela acabou por dormir profundamente. Quando acordou, já era alta madrugada, e o apartamento estava silencioso. Ela foi até o quarto dos garotos e os viu dormindo esparramados sobre a cama completamente desarrumada.

À primeira vista parecia que um vendaval passara pelo quarto. Ela suspirou profundamente e olhou para o rostinho de um dos garotos. Um sorriso brincou em seus lábios. Aquela visão de anjo apagava todas as irritações que ela sentia pelo desleixo deles.

     Silenciosamente ela começou a arrumar a baderna, ciente de que, gostasse ou não, aquela era a tarefa de sua vida.

* * *

No dia seguinte, ao entrar no apartamento, os garotos estavam agitados, e logo que ela entrou, eles correram a lhe perguntar o que ganhariam do coelhinho.

Ela tentou responder, mas um nó na garganta a impediu de falar. Depois, ajoelhando-se, ela abraçou os três, e ainda tentando conter as lágrimas, disse a primeira coisa que lhe veio à mente, até por não conseguir pensar em nada melhor.

-Amanhã será um dia especial. Vocês vão ver que o coelhinho tem muito mais para dar às crianças do que chocolates.

Os garotos se dispersaram e recomeçaram as brincadeiras, enquanto ela foi para o quarto, onde mergulhou na cama, com o rosto afundado no travesseiro, novamente desabando num choro convulsivo e desesperançado.

Após acalmar-se um pouco, sentou-se na cama com a cabeça entre as mãos, pensando se deveria mais uma ver ligar ao ex-marido e lhe pedir dinheiro, e encarar o fato de não estar conseguindo se manter, como disse que faria, nas muitas brigas que tiveram antes do divórcio.

Então, um dos garotos aproximou-se e a abraçou carinhosamente, enquanto lhe oferecia a agenda da escola, e um pequeno pacote, um pouco maior que uma caixa de fósforos.

Ela abraçou o menino quase em desespero e enquanto os outros dois foram se aproximando e sentando-se na cama, em silêncio, ela retirou um bilhete da agenda.

Eles sempre ficavam assim, ressabiados, quando traziam um bilhete da escola.

“Aprontaram alguma, posso apostar”.

Ela retirou os grampos que lacravam a mensagem, mas ao invés de ver a letra da professora, que tão bem conhecia, ela viu a letra miúda da diretora.

“Ela respondeu meu bilhete!”.

“Querida mamãe” – começava a mensagem – “recebi seu pedido e, muito oportunamente, tenho a lhe dizer o seguinte:

Hoje, numa pequena pesquisa feita em sala de aula, foi perguntado às crianças o que as tornava mais infelizes e mais felizes em seu dia-a-dia. Seus filhos responderam que o que mais os deixava felizes era poderem brincar pela casa toda, sem medo. Disseram ainda que o que mais os deixavam infelizes, era a chegada da mãe ao fim do dia. Eles disseram que acham que, para a senhora, tudo é mais importante que eles. Porque, segundo disseram, a senhora ralha muito com eles.
Enviei pelos garotos um pacotinho. Abra-o com cuidado. Ele contém uma relíquia, que para mim, foi por muitos anos o símbolo do que tive que aprender sobre educar crianças. Trata-se de um pedacinho de chocolate, que mandei encapsular num bloquinho de resina para que nunca mais deteriorasse. Esse pequeno pedaço de chocolate fez parte de um grande ovo que um dia meu marido e eu demos de presente para nosso único filho. Logo que o ganhou, entretanto, ele sorriu e o quebrou completamente, rasgando todo o lindo papel que o enfeitava. Fiquei felicíssima por ele ter feito aquilo. Nós não esperávamos por isso. Como não poderíamos nos alegrar? Ele tinha Síndrome de Down severa, e nunca havia conseguido sorrir, e muito menos se movimentar coordenadamente. Mas nossa alegria foi passageira, porque, infelizmente, nós o perdemos alguns meses depois. Desfiz-me de todas as fotos que tínhamos dele, mas guardei apenas esse pequeno pedaço de chocolate. Dentro dele está o sorriso doce do meu garotinho. Meu esposo o seguiu tempos depois, talvez por não ter conseguido superar a perda de quem era tudo para ele. E eu fiquei só, com o sorriso do meu menino.
Por isso estou lhe escrevendo este bilhete, como um alerta. Desejo lembrar-lhe que dentro de alguns anos sua casa estará silenciosa e em ordem, como a senhora deseja, mas o mundo terá levado seus filhos e eles já não estarão aí, para espalhar alegria.  É uma questão de tempo. De pouco tempo.
Este pequenino pedaço de chocolate que lhe envio é meu presente de Páscoa para a Senhora. Já não preciso mais dele. Hoje vejo o sorriso de meu menino em tudo o que olho. Mas por muitos anos, ele foi minha luz. Que ele seja para a senhora o lembrete diário de que não é a quantidade ou a qualidade do chocolate que torna a Páscoa feliz. É a felicidade do renascimento que a Páscoa representa que torna especial qualquer tipo ou quantidade de chocolate.
Renasça a senhora também! Não deixe que o tempo lhe escape. Aproveite-o. Seja feliz e torne seus filhos felizes.

Fátima terminou a leitura enquanto as lágrimas manchavam o papel.

Um dos meninos puxou seu braço, e a olhou com cara amedrontada, suplicando com os olhinhos tristes para que ela não ralhasse com eles.

Fátima abraçou os três e depois, ainda entre soluços, atirou-os na cama, arremessando-lhes todos os travesseiros que podia. E uma grande guerra começou. Uma guerra onde a gritaria de alegria dos meninos se misturavam às suas lágrimas de felicidade.


* * *
JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 13/04/2006
Reeditado em 15/04/2006
Código do texto: T138501
Classificação de conteúdo: seguro
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