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Os dias de Simone

     Começava entardecer e a estrada estava escorregadia da chuva dos três últimos dias, mas Antonio não queria deixar de visitar a tia no interior, naquele final de semana. Aquele momento era muito importante para ele, já que estava me levando, sua futura esposa para conhecer os parentes. Tinha muito carinho por sua tia Lourdes, uma vez que esta estivera em sua vida, cuidando-lhe desde os seus nove meses de idade. Para ele era também sua mãe, apesar de assim denominar sua avó, D.Bina.
      Chegamos cansados e logo vieram as crianças. Silmara de apenas três aninhos, alegre, sempre correndo. Sirton, de uns seis anos, retraído e quieto. E Simone, muito recepetiva. Uma menina esperta de nove anos.
      Na entrada da casa havia uma grande varanda que circundava a casa toda, muito fresca e limpa. A casa era toda de madeira de pinheiro, com grandes janelas com cortinas brancas. Era possível sentir a felicidade naquela casa, com aquelas crianças, amáveis. A tia Lourdes, uma professora, muito educada, veio ao nosso encontro, abraçando o sobrinho e a mim também, dizendo que estava feliz por termos chegado bem, já que a estrada estava tão cheia de lama.
      Na cozinha, uma farta mesa se dispôs para nós. Um enorme pudim de leite sobressaia. Conversamos muito, mostraram-nos fotos, saímos para o quintal e tudo era muito bonito, muito limpo e organizado. Ao longe pela estrada que seguia para o Norte, o menino avistou um carroçeiro e gritou que o pai estava chegando. Um homem calvo, de sorriso aberto e muito prosa. A conversa dava rumo em muitos sentidos e ríamos felizes.
      Logo após, veio Rosa, que era filha adotiva do casal, muito solícita e delicada, levou as crianças para a cama e preparou os quartos.
      De manhã, o sol brilhava e foi possível passear pelo vasto pomar atrás da casa e colher algumas ameixas brancas.
      E, assim foi que eu conheci Simone.
      Os anos passaram depressa. Antonio e eu somos pai de duas meninas e Simone adora brincar com as crianças. Mais tarde, tivemos um menino, que Simone adora contar piadas com ele, e muito gostoso ver a amizade entre eles.
      A mãe de Simone, partiu cedo daqui, quando a menina estava com apenas quatorze anos, e os irmãos menores, ficaram sob tutela dos avós maternos.
      Simone, passou por um período de revolta e de insatisfação. Era visível a dor e a saudade que sentia da mãe, tão pronta a satisfazer todas as vontades dos filhos. Era uma mãe exemplar, dedicada, devotada, pode-se dizer. Os primeiros anos, foram difíceis, tanto para as crianças, quanto para a D.Bina e seu esposo Joaquim. Afinal, já com idades avançadas, teriam agora de vir morar na cidade com os netos. Reestruturar a vida a partir da perda da filha amada. Tudo era muito doloroso para todos.
      Todos os três estavam estudando. Simone por sua vêz foi estudar Contabilidade. Começou trabalhando em um escritório e depois em outro, e assim por diante. Sempre trabalhando, ajudando a cuidar dos irmãos mais novos, ajudando os avós em casa. Pouco tempo tinha para namorar. Em casa, bordava e fazia crochê muito bem. Caprichosa como só, Simone sempre alegrava a todos com suas brincadeiras e hospitalidade.
       Depois de estar trabalhando, por nove anos em um mesmo escritório, resolver voltar estudar. Prestou vestibular e passou no curso de Direito. Sempre quis ser advogada, planejava sempre tudo meticulosamente e seguia seus sonhos. Ajudava a todos, de um jeito ou de outro. Sempre tinha tempo para os outros. Um olhar meigo e um ombro amigo.
       Queixava-se, de vem em quando de dores de cabeça. Começou apresentar pressão arterial alta. Comia mal,pois ia de manhã para o escritório, e só voltava à meia-noite. Passava o dia com cafézinhos e bolachinhas. Não comia frutas nem legumes ou verduras. Estava com sérios sintomas de  denutrição. Magra demais, estudando sempre, trabalhando sempre. Assim estava Simone.
       Durante um ano, desde que começara a faculdade de Direito, ia definhando cada vez mais. Mas continuava trabalhando e nesse ano resolveu tirar férias de vinte dias.
                             
                              X
       O celular tocou. Cinco e quarenta e sete da manhã do domingo dia dezoito de dezembro de 2005. A voz tremia e soluçava, dizendo apenas: - A Simone morreu... apenas levou as mãos na cabeça e disse que doía muito. Caiu morta aos trinta e cinco anos, cheios de dias de Simone...
                             
                              X
... e onde quer que você esteja, minha menina, vou lembrar de seu sorriso franco, seu caminhar rápido e de sua autenticidade para com a vida. Que Você esteja com sua mãe e com o vô Joaquim, o Zeca e com Deus!
Você ficará sempre em nossos dias... cheios de Simoninha...
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 14/04/2006
Código do texto: T139122
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
310 textos (10916 leituras)
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NENINHA ROCHA