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A cama

Ele segurava uma foto velha da namorada porque aquilo era tudo que tinha sobrado. Foi um relacionamento triste e sombrio, com duas crianças vestidas de preto e coturno achando que tesão era amor.
Sim, crianças sempre confundem o corpo com a mente , e acabam por afogar-se em ambos. Enganados pelos sentimentos que acreditam ser amor, elas conspurcam até mesmo o prazer moral de beijar. Não, ás vezes, essas crianças trilham estradas sorumbáticas de vinho e poder, vinho seco com poder vazio!
O menino continuava a olhar a foto velha da namorada. Por muito tempo seus cabelos negros e já falhos pelo excesso de tintas de qualidade duvidosa eram afagados por mãos delicadas com dedos finos, hábeis, de unhas pintadas com esmalte da mesma qualidade das tintas pra cabelo. Os tempos de infância se foram quando o tesão, descobriu-se, era amor. Ou terá sido o contrário? Será que este amor passou a se chamar tesão e desse momento em diante, morreu , queimado em uma fogueira de gozos intermináveis? Gozo estes, que vinham com o prazer carnal, mas morriam na cama? Sabe, quando o amor perde o sentimento, e acaba por sucumbir a outras tentações em uma Via-crucis pouco ortodoxa....perde-se a validade de tudo aquilo conquistado na relação. Passa-se pelo processo de “desgostar”.
O garoto -pois meninos não choram- começou a chorar. Sentiu a pele quente da amada roçando sua pele fria e quase morta. As peles criaram um pequeno tornado que foi rodopiando até o céu e baniu as nuvens. Quando as nuvens chegaram lá em cima puderam ver o roçar de corpos vivos , movidos pelo amor de sonhos, ouve um eco do orgasmo e a eternidade parou.
Era feio olhar as pessoas fazendo essas coisas.
Quando o tornado parou e os dois jogaram seus corpos ofegantes para o lado, suados, cabelos grudados nos lábios de saliva misturada.... sim... o tempo acabou para ambos....
O menino, garoto, homem, se perguntava por quê não era ele naquela cama. Por quê outro?
Eu te amo. Sussurrou milhões de vezes até que sua garganta secasse e as velas do enterro fúnebre e vicioso se pagassem aos poucos, como as estrelas do céu com a chegada do carro do sol.
Eu te amo. Sussurrou o menino para a foto. Eu te amo. Gritou para a foto enquanto seu sobretudo negro e muito bonito, comprado em uma loja (a mesma que vendia tintas para cabelo!) , o sobretudo... o sobretudo esvoaçava ao vento que levava as nuvens lá para cima, onde a menina acabara de se virar numa cama, com outro ao seu lado.
Cabelos colados no rosto suado. Bocas ardendo com sangue refrescado pelo suor maculado!!
Foi o momento em que o menino repetia para si: desesperadamente: repetia para si. E tudo isso carece de explicações SIM! Por que ele não entende os motivos de não ser escolhido para o prazer...
E, às vezes, quando em sua cama, com aquele desenho azulado, ele olha para o lado e Diz; Eu te amo e a foto velha da moça bonita, nunca responde...Ah, esse menino, ele morreu todas as noites antes do pôr do sol, até que um dia, outra veio tomar-lhe a cama...
José Roberto Vieira
Enviado por José Roberto Vieira em 14/04/2006
Código do texto: T139145
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Sobre o autor
José Roberto Vieira
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
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17 e-livros (1659 leituras)
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José Roberto Vieira