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ESCATOLOGIA


Na época em que ainda pertencia à chamada população economicamente ativa, uma bronca me acompanhou por todo o tempo de trabalho: a alvorada. Tinha verdadeira ojeriza de ter que levantar cedo para trabalhar. Se não fosse minha condição de notívago, obviamente teria buscado ajuda psicoterápica. Constatei que a disputa entre ir dormir e sair na noite era combate desigual. Os fascínios chamativos da noite eram como tentáculos virtuais do polvo da boêmia me puxando para fora de casa. A música da noite, o viciado ar de bares esfumaçados, o andar insinuante, o extravagante perfume, os sensuais trajes, a demasiada maquiagem e os excitantes lábios carmíneos das mulheres-problemas; o pretenso diálogo intelectual da madrugada sob o efeito etílico de imoderadas doses degustadas ao som de imortais tangos e boleros eram apelos irresistíveis para mim.
Na alta madrugada devido ao mecanismo de defesa fisiológico começavam ocorrer os inevitáveis bocejos. Prova de que o cansaço físico havia marcado presença na noite e agora desejava bater o cartão de saída, trocando de turno com o descanso. Era hora da retirada com o digno andar de quem deseja expressar o não cometimento de excesso etílico.
Como nas frias madrugadas curitibanas havia poucas opções para uma bela canja de galinha de final de noite, assim, ela, a cama, surgia na mente tal qual um belo manjar espiritual. Um agradável banho quente e os alvos lençóis, era a pedida inteligente.

Já deitado, acendia o último cigarro, sendo obrigatório o devanear sobre as últimas horas, a lembrança da última conquista, o inteligente papo com aquela inigualável mulher e a postergação do “abate”, para um dos dias subseqüentes em horário de expediente, óbvio.

Nestes enlevos, dormia como um inspirado poeta desejoso de enaltecer a mulher amada através de versos únicos e acordava como um bárbaro furioso com o barulho do maldito despertador. E nas manhãs chuvosas, então? Assim que escutava o barulho de chuva e trovões, à vontade que tinha era espatifar o relógio-despertador jogando-o contra a parede, depois, virar para outro lado e tirar mais uma gostosa pestana, ouvindo a sinfonia da natureza ir gradativamente se ausentando do meu alcance auditivo. O máximo que conseguia era uma conotação paradoxal de que o proibido é legal.

No day after, difícil era olhar aquele rosto másculo e brabo na hora do barbear-se, parecia  pronto para o duelo com qualquer pessoa que me chamasse de bonito. Higiene pessoal executada, o enfrentamento do trânsito complicado das horas de pico e o costumeiro atraso.

No dia que saiu minha aposentadoria, passava defronte minha casa uma daquelas máquinas de rolo compressor, adivinhe o que eu fiz com o despertador.

Nos primeiros dias de aposentado, quando acordava, fazia questão de olhar o relógio de pulso com ar de desprezo, sorrir, virar de lado e dormir novamente com cara de garoto sapeca.

Hoje, acordei repentinamente com as batidas na porta do meu quarto. Olhei o relógio, eram 10h00. Para mim, madrugada ainda. Esbravejei. A autora do infame despertar era Izaura, minha empregada, avisando-me que haviam telefonado comunicando que um colega havia morrido e que o enterro seria às onze horas no Cemitério Municipal.

— Quem morreu? — exclamei, curioso.
— Perguntei, mas não souberam me dizer, só falaram que era um fiscal que se aposentou faz um mês e que numa viagem o avião entrou em pane e ele recusou-se a apanhar um pára-quedas verde-branco – respondeu-me Izaura.

Rapidamente me arrumei e enquanto me dirigia ao cemitério, fui questionando:
“Fiscal atleticano? Seria o Xixo? ...Harry?... Guigui?... Otto Jr? Não! Esses, não eram fiscais…quem seria?... Seria o Tito? ... Não, este ainda está na ativa. Fala que só sai quando o governo premiar os aposentados com um benefício que só foi concedido para o pessoal da ativa. Se ele sai agora, vai perder dinheiro...Quem será?... A gente nunca sabe a hora da partida. Já está fazendo um mês que estou aposentado e ainda não cumpri minha promessa de fazer aquela tão sonhada viagem; de fazer aquele curso de pintura. Puxa! Nem na Biblioteca tenho ido.

Envolvido nessas elucubrações adentrei na capela mortuária. Enquanto me direcionava ao ataúde ia cumprimentando com um balançar de cabeça os colegas aposentados que ali estavam e pareciam não me reconhecer. Interessante, não estou vendo nenhum fiscal da ativa. A Izaura disse que ele se aposentou faz pouco tempo... e nenhum colega da ativa? Estranho!

Mas estranho mesmo foi na hora que deparei com o rosto do “de cujus”. Eu era o anônimo defunto!

— 6/3/2006 23:22:33


Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 16/04/2006
Código do texto: T139953
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
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Luiz Celso de Matos