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Silêncio



Toc toc toc, quebrando o silêncio com seus tamanquinhos, olhar lá no fundo, pensando , pensando. Menina, quase mulher, sem se dar conta dos olhares à volta, cismando. Olhares de cobiça, já naquele alvorecer de gente, olhares de desejo naquele corpinho apenas esboçado, dos brutos que ainda terminam a noite, nos bares.
Toc toc toc, batendo na calçada naquele início de manhã, já quente,ela segue indiferente, marcando o compasso dos seus pés pequenos, em direção do trabalho. Pode? Tão pequena, tão bonita, tão delicada, enquanto  a juventude se mantém, mas que, logo, começa a murchar,como flores cortadas do pé, trabalhando sempre, desde cedo, sem oportunidades, sem escola, sem futuro, diante de si somente o dia que começa, começa duro, limpar as crianças da patroa, que ela se levanta tarde, que elas precisam ir para a escola, arrumar o quarto, lavar a roupa e já está tarde, as crianças já voltando. Almoçar os restos, quando os há,, depois toca arrumar o quarto, que as crianças já bagunçaram todo, lavar a roupa da escola,arrumar, lavar, passar.
Toc toc toc, já é quase noite, agora os sons são outros, mas seus pequenos tamancos levam a menina de volta para sua casa. Casa...O padrasto já terá chegado, bêbado, seus irmãos, sujos, famintos, esperando a mãe, que ela sempre traz alguma coisa, lá da casa dos ricos, onde trabalha.
Seu futuro, ser igual à mãe, trabalhando pesado, envelhecida aos vinte e poucos anos, tantos filhos, quantos casamentos, triste, amarga, doída, quase analfabeta, que os pais não lhe puderam dar estudo, igual que a menina, sem tirar.
Mas não, é diferente, a menina sonha, a menina deseja e, ao contrário da mãe, passa sem olhar pelos rapazes, pelos homens, sem ouvir os comentários , os assobios, sonha com a escola, que a patroa prometeu para o ano. Sonha com o dia em que estará sentada na classe, vai saber o abc e as contas, vai a viagens como as que o patrão conta pras crianças, só de ler nos livros.
Sonhando, nem percebe  o tempo passar, mas o tempo percebe a menina e, de pena, pára de passar. Deixa que os sonhos fiquem livres, vagueiem, pareçam reais. E nem o tempo nem a menina percebem a vida, mas a vida percebe o tempo e a menina, crescendo, sonhando e, de pena, sai de mansinho, deixa a menina sem tempo subir a uma nuvem, correr pelo azul e se perder no espaço...silêncio...





nádia estrela
Enviado por nádia estrela em 21/04/2006
Código do texto: T142769
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Sobre a autora
nádia estrela
Torres - Rio Grande do Sul - Brasil
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