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PAI CONTRA MÃE


Num tempo assim, que já passou faz tempo. Lá pras bandas do fim do mundo, vivia uma família como tantas e tantas outras famílias que vivem por ai. É sim. Mas essa família tinha algo de um pouco diferente. Ninguém ali se casava por amor. Não. Casavam-se por ódio.

Então, quanto mais odiassem uma pessoa, maior era a vontade de se casar com ela.

E foi assim que a pequena Lucila foi criada. Vendo o ódio da mãe. Vendo o sofrimento do pai.

O pai sofria. Já que não era daquela família, havia casado por amor. Realmente amava a mãe de Lucila e só percebeu que era odiado pela esposa, após o casamento, quando estavam indo para a lua-de-mel e a mulher, com cara de nojo, dizia que o odiava mais do que tudo, mais do que tudo, mesmo.

Era infeliz, o pai de Lucila.

Lucila cresceu vendo os pais. Analisando os pais.

Ouvia da mãe, (dia sim, dia não) que o casamento era feito de ódio. Só se podia ser feliz odiando aquele que está ao seu lado. Diariamente alimentando o ódio com vontade de morte. Era necessário acordar e já desejar a morte do outro. Cuspir o asco diário de conviver com o desprezo. Era preciso odiar, acima de tudo. Acima de qualquer sentimento. Até da dor. Antes o ódio, depois a dor.

 Assim a mãe de Lucila aprendeu, assim procurava ensinar a menina.

Ao contrário de tudo isso, o pai da menina buscava ensinar o amor à pequena. Contava estórias de príncipes e princesas que se conheciam e se apaixonavam e se amavam e viviam felizes para sempre. Falava da entrega de sentimentos, das vontades e desejos. De fazer o outro o ser mais importante do mundo. Amar era  muito bom e tão necessário. Era aceitar o outro com os defeitos. Fossem eles quais fossem. Sim. Amar era ser submisso à felicidade do outro. Entregar-se sem medo. A cada minuto ou até menos, pensando no bem viver do outro. Largar-se a si mesmo para admirar ou até idolatrar o outro. Assim como ele fazia com a mãe de Lucila. E sofrer, disse ele, faz parte do amor. O amor sem sofrimento não é amor verdadeiro. Era sangrar por dentro uma dor de abandono e fazer mais e mais pelo outro para, quem sabe, conseguir um pouco de atenção ou um gesto de carinho. E tudo era felicidade. Sim. Um carinho, lá de vez em quando, era presente dos céus e dava forças para continuar a viver para o outro. Amar era mesmo se sacrificar pelo outro, até a morte, se necessário.

Lucila crescia e ouvia mãe e pai. Sua cabeça de criança guardava tudo e mais. Guardava as imagens dos pais: a mãe odiando; o pai amando.

Sem perceber, já odiava o pai. O ódio estava no sangue. Odiava o pai mais do que tudo. Mais até do que o menino que lhe dava flores roubadas do jardim de alguém.  Lucila passou a maltratar o pai de todas as formas. Olhava para ele com uma raiva contida. Um ódio de morte.

O pai da menina, já acostumado com os olhares da mulher, não se afetou ao ver os olhares da filha e a amava cada vez mais. Amava-a mais do que à própria mulher que foi ficando largada num canto qualquer da casa não entendendo muito bem o que acontecia.

Quando Lucila chegou a idade de casar, todos pensavam que se casaria com o rapaz que lhe trazia flores roubadas do jardim de alguém, mas Lucila não quis. Dizia que não o odiava tanto para se casar com ele, mas que tinha outro homem em mente e com ele, sim, se casaria.

A mãe queria saber quem era. Lucila não dizia.

O pai estava preocupado. Quem seria o tal homem que lhe roubaria a filha?  Amava-a tanto que não conseguia imaginar sua menina nos braços de outro homem. No seu coração floriu a semente do ódio. Ódio pelo outro que levaria sua filha. Um ódio de morte por todo e qualquer homem que se aproximasse de Lucila. Quem seria o escolhido? E já era um homem desesperado. Os sonhos faziam sua mente viajar em casamentos onde Lucila era levada por um qualquer que fazia juras de amor. Lucila cuspia o ódio na cara do escolhido. E, por sonhar assim, o pai de Lucila já não dormia.

Os pensamentos torturavam seu coração fazendo o ódio crescer mais e mais e tanto que, num dia qualquer, naquele tempo que já passou, levantou da cama, sem dormir, com olheiras enormes, a cabeça confusa de sono e desespero, foi ao quarto da filha. Acordou Lucila e declarou seu amor. Queria sumir dali e levá-la. Largaria tudo para poder ficar com a menina só para ele.

Lucila gritou seu ódio, não só, por ser acordada fora de hora, mas também e principalmente porque odiava o pai mais do que tudo na vida. Odiava-o de morte.

Tonto e fora de suas razões, pulou sobre a filha, com as mãos apertando o delicado pescoço da menina. Apertava e gritava seu amor. Lucila sufocava e só os olhos demonstravam o ódio que sentia pelo pai.

Os gritos acordaram a mãe que, correndo, foi até o quarto da filha, mas chegou tarde demais. Lucila jazia branca sobre a cama. Os olhos arregalados. Só o ódio nos olhos.

O pai gritava sem parar o seu amor pela menina. Viu a mulher entrar e, como louco, se atirou sobre ela. Agora já não era o amor que o dominava. Era o ódio. Ódio pelas mulheres que tanto amou.

Paula Cury
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 22/04/2006
Código do texto: T143167

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury