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O outro

   Enquanto caminhava por dentro de mim, encontrei uma porta no meio de lugar nenhum. Não hesitei em abrí-la para verificar onde me levaria.
   Do outro lado, vi campos lúgubres e senti o olor das putrefatas coisas que um dia alí viveram, dalí, pude ver uma trilha que partia da porta e desaparecia por de trás de um emaranhado de rochas um tanto longínquas. Receoso, dei alguns passos avançando na trilha...
   Depois de tempos de caminhada, aproximando-me mais e mais das tais rochas sem nada encontrar, deparo-me com uma pessoa, alí, parada no meio da trilha, com a cabeça baixa, como se mirasse o solo. Aproximei-me dele devagar apenas o suficiente para notar o quão incrível era a semelhança entre nós, percebí, inclusive, que a cada passo que dava em sua direção ele erguia um pouco a cabeça, até que me pús em sua frente e pude ver seu rosto por completo, era como se houvesse um espelho ante mim. Mas nele, sentia coisas que não me permitia sequer pensar; na frieza de seu olhar pude ver uma fúria contida e sabe-se lá há quanto tempo.
   Encarando-me, ele disse:
   - Não te preocupeis, não te farei mal, pelo contrário, estou grato que estejas aqui.
   - Quem é você? - Perguntei amedrontado.
   - Não sabes? Eu sou o que você mantém preso aqui há muito tempo.
   - E o que houve com esse lugar? - Perguntei.
   - Foi consumido. Por tudo o que guardaste, mandando pra mim sem perceber, foi nossa ira que consumiu o que havia de belo aqui, mas já não há mais nada para que eu consuma aqui dentro, por isso sou grato que tenhas vindo me libertar.
   - Não! - Tremendo, gritei em resposta - Não deixarás esse lugar! Não permitirei que destruas o que ainda me resta de bom. Sairei agora e te deixarei nesse campo morto!
   - Aí é que te enganas meu caro...
   - Por quê?! - Quase em desespero eu gritava.
   - Porque ao entrar, esqueceste a porta aberta...
   Antes mesmo de terminar a sentença, ele foi desfazendo-se em uma névoa fétida, deixando as palavras no ar seguidas de um som ecoante da porta sendo fechada com uma força tremenda.
   Caí de joelhos tentando angustiosamente respirar, e num grito abafado pelo pesado e pútrido ar que me enfraquecia o corpo, dolorosamente eu sentia cada pedaço de minha carne enrugando, ressecando e partindo... A dor era imensurável, enquanto minha vista enturvescia, lembranças e pensamentos conflitantes me bombardeavam a mente confundindo minhas sensações e emoções, foi então que comecei a sentir o peso na fronte e sobre as pálpebras, a essa altura, só um pensamento era claro: Estou morrendo...
   E ele estava livre... Livre no resto de mim...
victor
Enviado por victor em 22/04/2006
Reeditado em 27/08/2008
Código do texto: T143408
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
victor
Belém - Pará - Brasil
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victor