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"EU VIM AQUI POR UMA APOSTA: CASACA DE COURO PULE NAS MINHAS COSTAS!"

Rosa Ramos Regis - Natal/RN - 2005

     Mesmo nas noites sem luar, as brincadeiras eram divertidas. Nossas mães, candeeiro à cabeça, num equilíbrio perfeito e enganando o vento,emcabeçavam a fila a procura de um bom alpendre onde emtabulavam sempre uma boa conversação com vistas a passar o tempo antes da hora de dormir. Muitas vezes os encontros eram na "casa-de-farinha" - a única do lugar, não importando quem estivesse a fazer a farinhada. Todos se solidarizavam na raspagem das mandiocas, que entravam noite a dentro, indo, por vezes, até o amanhecer do dia seguinte e que tinha por recompensa um pouco de massa e goma, fresquinhas,que seriam utilizadas na fabricação dos beijus que iriam substituir o pão, raro naquelas bandas, no café da manhã e no jantar durante alguns dias.Enquanto isso as crianças, depois que enjoavam de raspar mandiocas, soltavam as facas, ferramenta essencial para tal, e corriam para o terreiro da casa de farinha que, também, era a estrada por onde todos caminhavam, e iam brincar. Isso, quando era noite de lua cheia, pois no escuro não havia como extravasar suas energias, e ficavam sentadas no chão à entrada, que podia ser em qualquer um dos lados, pois, pelo menos ali no Jerimum, a casa de farinha era totalmente aberta, com apenas uma cobertura de telhas sustentada por esteios de "pau-ferro" escolhidos a dedo, contando as travessuras do dia e admirando as estrelas que, em noite sem luar e sem muitas nuvens, mostravam-se na sua plenitude encantando os nossos olhos.
     Uma das brincadeiras mais concorridas pela molecada para uma noite enluarada, era a da "Casaca de Couro".
     Dizia-se que nas casas abandonadas,as chamadas "taperas"
existia uma personagem mítica, a "casaca de couro", que seria alguém que teria morrido, um vaqueiro talvez, e sua alma ficara penando e fazendo morada nas casas abandonadas. E assim, formava-se um grupo que elegia um dos seus componentes, talvez o mais "corajoso", para ser o primeiro. Então, o "corajoso" ia até a casa abandonada enquanto o resto da turma ficava a uma certa distância, e gritava: - Eu vim aqui por uma aposta, casaca de couro pule nas minhas costas! e disparava de volta ao grupo, numa carreira desabalada, todo arrepiado, e ouvindo as pisadas fortes do "casaca de couro" que o perseguia. Às vezes, o medo era tão grande que o moleque não conseguia correr, ficando pregado ao chão, aterrorizado! até que algum "peitudo" o fosse "socorrer" e arrastá-lo de lá.
Rosa Regis
Enviado por Rosa Regis em 24/04/2006
Código do texto: T144259
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Regis
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 67 anos
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