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A BALEIA



Tarde de sol na beira do mar, onde as ondas desmanchavam sobre os dedos dos pés, vivia um siri. Era mesmo um siri como outro qualquer, sem nada de mais ou de menos que o diferenciasse de outros tantos e tantos siris já vistos pelo mundo.
Bem, não é porque era um siri normal que não tinha lá seus sonhos meio absurdos como todo mundo. E assim, sonhava com uma baleia que havia conhecido há alguns anos atrás. Linda com suas formas arredondadas, olhos pequenos e tão sinceros. O siri suspirava ao lembrar do sol refletindo na pele da enorme baleia. Ele estava apaixonado. Completamente apaixonado pela baleia que havia visto apenas uma vez.
Desde então, o siri não fez mais nada de sua vida, apenas paralisava frente ao mar esperando o retorno de sua amada. Não compartilhava da vida dos outros siris. Não se interessava por nenhum siri fêmea e assim, com o tempo, foi deixado de lado por toda a comunidade de siris que o achavam um pouco maluco por só pensar na baleia.

Voltando no tempo.

O siri ainda era pequeno, quase uma criança siri. Andava com seus irmãozinhos pela praia tranqüilamente, brincando de esconde-esconde, fazendo buracos na areia e esperando ser descoberto. Porém, nem toda tranqüilidade do mundo residia naquela praia e, por assim dizer, havia pescadores por ali. Os malvados pescadores que pescavam peixes e capturavam siris e outros tantos animais marinhos menos atentos.
A mãe do siri sempre avisava: cuidado com os pescadores.
Era uma boa mãe e sempre avisava os filhos.
Os filhos, como bons filhos que eram, achavam sempre que a mãe exagerava. Os pescadores podiam ser malvados, sim, mas eles eram corajosos e fortes e quase invencíveis e não davam muita bola para os avisos da mãe. Saiam no horário em que era proibido. Arriscavam a própria casca ao passar muito perto de um pescador e corriam a cavar buracos na areia. Sempre o mesmo esconderijo.  Eram sabidos. Eram invencíveis.
Porém, como sempre há um porém, houve um dia em que, os siris brincavam na areia e não perceberam a aproximação do filhote do pescador. Brincavam os siris e não sabiam que o filhote do pescador também brincava. Brincava de pegar siri e, como os grandes siris eram rápidos demais, o filhote do pescador brincava de pegar os filhos dos siris.
Assim, num repente, uma sombra se fez sobre os pequenos siris e quando se deram conta, era tarde demais. Alguns irmãos gritavam na mão do filhote do pescador, outros corriam desesperados para todos os lados, mas não conseguiam escapar, eram aprisionados e só sabiam gritar um pedido de socorro.
O nosso sirizinho correu como nunca havia corrido na vida e estava quase sem ar quando percebeu a mão do filhote de pescador muito próximo a ele. Estava tão cansado que não conseguia dar mais um passo e assim, fechou seus olhinhos e esperou pelo pior, pedindo em oração um milagre marinho.
E qual não foi sua surpresa ao perceber que não havia sido capturado. Algo chamava a atenção do filhote de pescador. O siri abriu os olhos e olhou na direção dos olhos do menino e então estava lá. Nem tão longe da costa. Ela brilhava com os raios de sol, subia e descia nas águas do mar como se dançasse um balé improvisado e era tão lindo.
Tanto o filhote de pescador como o siri estavam encantados com a visão e já não pensavam em mais nada.
A baleia mergulhava para logo voltar à superfície mais brilhante que antes. A água do mar espelhava o céu e tudo o mais.
Era, portanto, de se esperar que o siri se apaixonasse por ela. Além de toda sua beleza, o pequeno siri sabia que era a resposta ao seu pedido. A baleia era sua salvadora. Linda, imensa e tão brilhante, havia salvado sua vida e, daquele dia em diante, o siri sentava à beira da água, onde as ondas se desmanchavam, apenas para esperar a aparição de sua amada.

Voltando ao presente.

Fazia sol. O céu quase sem nuvens estava mais azul do que nunca e o mar agitava algumas ondas perdidas.
O siri sentado olhava o horizonte, quando avistou a baleia. Sim, era ela. O siri soube ao sentir seu coração disparar. Era ela. Não como tantas outras que haviam passado por ali. Não. Desta vez era ela e o siri sabia e chorava emocionado o retorno de sua amada.
Por todos os lados ouvia-se a voz do siri que chamava pela baleia, mas aprece que só ela não ouvia.
Outros siris se aproximaram dele e perguntaram o que ele fazia e por que fazia e como fazia e outras perguntas cheias de interrogações e o siri não respondia. Seus olhos cheios d’água  só conseguiam seguir os movimentos da baleia que subia e descia se aproximando da costa.
O siri sentia que era sua única chance e assim, correu para o mar e se lançou nas águas e nadou ou caminhou tão depressa quanto pode até chegar bem próximo à baleia.
Lá estava ela. Imensa e tão linda. O siri gritou e gritou e gritou mais e tanto que a baleia acabou por ouvir aquele som diminuto e olhou para ele.
O siri sorria e a baleia sorriu e se aproximou mais  e seus olhos quase grudaram.
Por um instante parecia que o mundo ia acabar num gole de mar.
A baleia, então, perguntou ao siri o que ele fazia ali e o que queria com ela. O siri contou sua história e contou também sobre sua paixão imediata e que faria de tudo para ficar com a baleia. Queria se casar com ela. Viver pelo resto de sua vida ao lado daquela a quem amava.
Uma emoção especial tomou conta do coração da baleia que disse também ter se apaixonado pelo pequeno siri, mas viu-se em perigo quando um barco a seguiu e tentou capturá-la. Assim, mesmo não querendo, ela teve de fugir para longe, muito longe daquela praia. Uma lágrima rolou dos olhos da baleia enquanto ela contava ainda que havia esperado por anos que o siri fosse ao seu encontro. Sonhava sempre que o pequeno siri aparecia com um ramalhete de estrelas do mar para presenteá-la, mas nada aconteceu.
O siri respondeu que também ele a esperou por todo o tempo. Não havia feito mais nada de sua vida a não ser esperar a volta da baleia.
E tudo era silêncio. As ondas não quebravam e todos os peixes pararam de nadar. Parecia que todos ouviam a conversa dos dois apaixonados e esperavam pelo final, quem sabe com um beijo apaixonado.
A baleia rompeu o silêncio dizendo que esperou pelo siri e por isso sofria a cada dia que não o via chegar. Sofria tanto que resolveu entregar-se aos pescadores. Sua vida não tinha mais sentido sem o pequeno siri. Porém, no dia da pesca, quando ela estava por se aproximar demais do barco e assim ser capturada, uma baleia macho se aproximou e conseguiu afastá-la do barco.
Os pescadores atiçaram a visão de duas baleias e seguiram na captura. A baleia macho lutou por horas à fio contra os pescadores e depois de ser atacada várias e várias vezes conseguiu virar o barco fazendo os pescadores quase afogar.
A baleia macho, então, se aproximou da outra baleia e disse, com um sussurro de voz sofrida, que havia salvo sua vida por estar apaixonado. Havia tanto tempo que era apaixonado por ela e ela não percebia e ele tomava conta dela, sempre afastando os pescadores enquanto ela sonhava perdida nos pensamentos. Ele havia cuidado dela durante todo o tempo, não descuidando sequer um instante.
A baleia silenciou e não conseguia mais falar.
O siri ouvia atentamente a história da baleia e seu coração se fez pequeno e doído e parecia que não conseguia bater. Ele havia entendido tudo. Havia perdido seu grande amor. Seu único amor, por não ter feito nada. Havia esperado e tão somente esperado pela volta da baleia. Não havia feito nada por ela ou para se unir a ela. Sabia, agora, que o tempo não voltaria atrás para que ele pudesse mudar sua atitude. Era verdade. Ele apenas esperou e a perdeu.
A baleia não disse mais nada, porque não era preciso. O siri voltou à praia onde muitos outros siris o esperavam, porém nada se ouviu de sua voz e ele apenas caminhou lentamente até que os raios do sol não o alcançassem mais.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 24/04/2006
Código do texto: T144296

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury