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Ciranda da vida

Roberto acordou, sua cabeça doía. Olhou ao redor, buscou o marcador do relógio. Deu um salto! “Meu Deus! Perdi a hora!” Levantou-se, bufando, e entrou no chuveiro de pijamas mesmo. Sabia que não podia demorar mais, tinha uma reunião importante.

Cinco minutos, terminou o banho. “Cadê minha toalha?” Chamou sua mulher. Nada. Gritou pela toalha. O silêncio continuava. “Puta merda!” Foi buscar a toalha, batendo os pés e esbravejando.

Passou pela cozinha antes de sair, queria tomar um café. Mas... “onde está Marianna? Cadê o cheirinho gostoso de café que emanava pela casa todos os dias? E o pão quentinho recém buscado da padaria?”

“Deixa pra lá... estou com pressa”.

No caminho pro trabalho, lembrou-se de sua vida quando pequeno. Morava no interior, não tinha nada, não era nada. Resolveu tentar a vida na cidade grande. Foi quando conheceu Marianna.

Ela apareceu-lhe primeiramente em sonhos. Depois, em carne e osso. Parecia uma visão angelical... suave, serena, inteligente. Tudo o que sempre desejara em uma mulher. Perfeita. Perguntava-se como poderia tê-lo amado à primeira vista... Mas amou. E era sua mulher.

Pensava nas artimanhas que criou para mantê-la junto dele. Lembrou-se de todas as vezes que quis dizer-lhe que a amava, que ela era a mulher da sua vida, mas não sabia por quê nunca conseguia. A palavra engasgava. Trancava-lhe a garganta.

Por causa disso, plasmou uma barreira em torno de si. Foi aí que começou a perdê-la... Mas ele não sabia disso. Não queria saber.

Agora se perguntava por que estaria a pensar nisso. Logo hoje, que estava atrasado. Precisava se concentrar. Afinal, tinha uma reunião importante.

Marianna não havia lhe deixado bilhete. “O silêncio dirá tudo, pois no silêncio, cabe tudo. E nada”.

Quando voltou pra casa, transtornado pela reunião que não fora muito bem sucedida, pensou nos braços de Marianna, naquele abraço que tirava toda sua inquietação, naquela boca que beijava a sua como se fosse a primeira vez.

Mas Marianna não estava lá. Não havia cheiro de janta. Não havia seu perfume no ar. Tampouco suas palavras de amor.

O chão continuava manchado da água do banho da manhã. As flores estavam meio desmaiadas pelo calor e abafamento do apartamento. Marianna não estivera ali, constatou. “Será que arrumou um amante”?, perguntou-se.

A noite chegava e ele, sem notícias. Telefonou para o celular dela, mas o aparelho estava desligado. Ligou para amigos, nenhuma notícia. Encontrou o número de uma colega de trabalho e teve que sentar para conseguir digerir a notícia: “Marianna pediu demissão ontem pela manhã. Você não sabia?”

Roberto nem se despediu. Desligou o telefone e deixou-se ficar inerte, perdido em seus pensamentos. Refez os últimos passos da esposa. Lembrou-se do abraço e do silêncio da noite anterior.

“Marianna foi embora. Perdi seu amor, como ela havia me avisado.”

Por um momento, Roberto sentiu alívio. Não precisaria mais demonstrar força, poder. Não precisaria mais procurar as fraquezas na mulher para diminuir sua auto-estima. Não precisaria mais buscar motivos para mostrar-lhe que só ele poderia amá-la na vida.

Mas os dias se passaram, as roupas acumulavam no banheiro, estava definhando.

Porém, do que mais sentia falta era o perfume que Marianna deixava ao passar. Sua inteligência e habilidade em resolver problemas. A forma como ficava brava, com um leve tom róseo em suas bochechas. Sua indignação com a injustiça do mundo.

Não imaginava quão arrebatador era seu amor por aquela mulher.

Tentou buscar apoio nos amigos. Na boemia. Em outras mulheres. Nada preenchia o vazio do seu ser.

Já havia perdido vinte quilos. Já havia perdido a noção de tempo. Via Marianna em todas as mulheres, mas também não a via em nenhuma.

Entrou em desespero. Como continuaria a levar sua vida agora? Que detalhe havia perdido? Como não havia percebido o que estava a acontecer?

Só Marianna sabia a resposta.

Deitou-se na cama. Aquela mesma cama onde ainda havia resquícios do cheiro de sua amada. Aquela mesma cama onde dividiram, um dia, um amor incontido, inacabável, insaciável. Esperaria, ali mesmo, a resposta.

Mas ela não veio...

Em seu enterro, somente o padre e seu cachorro.
Caroline Schneider
Enviado por Caroline Schneider em 27/04/2006
Código do texto: T146489
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Sobre a autora
Caroline Schneider
Curitiba - Paraná - Brasil, 38 anos
286 textos (26218 leituras)
8 áudios (3057 audições)
5 e-livros (5008 leituras)
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Caroline Schneider