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Havia terminado a Faculdade de Comunicação. Fazia pouco tempo. A cobrança de trabalhar na área de formação era enorme. Contudo, Cláudio ia levando sua pacata vidinha, pulando de estágio em estágio. Até que uma noite recebeu o telefonema de um amigo :

- Cláudio, amanhã vai me visitar um amigo publicitário. Gostaria que você viesse até aqui.
- Olha, isto me interessa. Que horas posso ir até tua casa?
- Final da tarde, tipo umas seis horas. Pode pintar uma chance profissional para ti.
- Pôxa, Cardoso, que amigão você é!
- Por enquanto, aguarde, vamos ver o que acontece...
- Um abraço
- Outro

Desligou o telefone e acessou seus sonhos. Quem sabe poderia se empregar em uma grande agência,realizar trabalhos de repercussão nacional.Uma remuneração atraente, colegas criativos.Sua mente não parava de trazer situações positivas.Vencido pelo cansaço e excitação, adormeceu.

Pela manhã, separou uma calça social e uma camisa discreta. Precisava causar uma impressão positiva em seu teórico empregador. Almoçou ansiosamente, mal podia esperar  o fim da tarde. Que , afinal, chegou.

Agora, já estava defronte ao prédio onde seu amigo residia. Seu coração acelerava. O suor escorria pelas mãos. Entrou no elevador. Desceu no quarto andar. Acionou a campainha.Do outro lado, o futuro lhe esperava...

- Olá, Cláudio, você foi pontual, disse Cardoso, num sorriso
- É o mínimo que posso fazer
- Venha conhecer o Fontana, ele é o dono da Exitus Propaganda.
- Muito prazer, sou o Cláudio
- Sou Fontana, vamos conversar um pouco sobre propaganda?
- Claro

Sentaram-se à mesa. Cardoso trouxe salgadinhos e uma taça de vinho para cada um.Conversaram sobre o ranking das agências, publicitários famosos, filmes de propaganda premiados em Cannes e, para descontrair, sobre modelos mais bonitas estrelando em comerciais. Ao final, Fontana falou da oferta que trazia :

- Cláudio,  tenho uma função de free-lance em redação publicitária para te oferecer. A remuneração é de 10% da verba de propaganda de cada cliente.
- Que beleza, Fontana. Você já tem algum cliente para me passar.
- Sim , tenho uma ”conta”  da Arduin Bicicletas. Eles vendem bicicletas e dão assistência técnica.Por ora, querem investir em jornal, outdoor e rádio. Comercial em televisão, talvez ao longo do ano
- Claro, Fontana, aceito de imediato.Passe-me os dados do cliente e o prazo de entrega dos trabalhos
- Bem, o prazo é de duas semanas e o check-list da Arduin está aqui. Lá na Faculdade, ensinaram para você o que é um check-list
- Sim, evidente, são os dados mercadológicos do cliente.
- Beleza, até a vista, Cláudio
- Até mais, Fontana.

Cláudio mal se continha de alegria, ao chegar ao seu apartamento.   Foi garimpar nos cadernos e livros da Faculdade, algumas dicas para executar o trabalho. Como nenhuma resposta mágica surgia, resolveu usar a técnica do “ brainstorming”. Iria alimentar sua mente com tudo que se referisse a bicicletas e, depois, começaria a anotar as idéias que surgissem.

Foi a sua discoteca e pegou o disco Bicicleta, do conjunto Boca Livre.Levou junto, também, o Bicicle Race, do Queen. Mais tarde, passaria na locadora e pegaria um vídeo sobre mountain bike e o assistiria, na íntegra. Quem sabe, retiraria na biblioteca da Faculdade o livro com as falas da peça “A bicicleta do Condenado”, do espanhol Fernando Arrabal.

Juntou toda a parafernália sinestésica sobre o tema. Ia , pouco a pouco, adentrando no universo do ciclismo.Enquanto assistia ao filme, ouvia Fred Mercury  cantando sobre uma corrida de bicicletas.Cenas de montanhas  e bikes se mesclavam à voz bonita do cantor. Entretanto, idéias não surgiam...

Resolveu radicalizar. Pegou emprestada uma bicicleta de seu vizinho e foi ao parque tentar aprender a dominar a técnica. Logo ele,  que só havia andado de triciclo em sua vida. Após, vários tombos e escoriações, conseguiu percorrer  alguns ridículos metros. Deu por encerradas às atividades. Amanhã, voltaria a pensar no assunto.

De manhã, resolveu visitar a Arduin Bicicletas. Apresentou-se e conseguir falar com o dono que lhe mostrou prospectos e um vídeo sobre a fabricação de bikes. Já tinha bastante material para se divertir.Voltou para casa.

Cansado, adormeceu sobre o sofá. Um sonho começou a se delinear em sua mente. Um batalhão de soldados marchava pelas ruas. Passos ritmados, uma cadência monótona. Ao largo, um estudante sentado em uma bicicleta assistia tudo. De repente, solta uma provocação aos soldados:
- Não marchem. Pedalem

Acordou sobressaltado. Pensou no irreal da situação. O Brasil tinha se livrado da ditadura militar, mas os resquícios da repressão ainda estavam no ar. O que queria dizer este diabo de sonho?

Teve um click. Eram os efeitos do malfadado “brainstorming”.Como numa ressaca, ele invadira seu sono e trouxera a idéia tão esperada.

Resolveu desenvolver a intuição recebida. Pensou em slogans obedecendo a um calendário promocional. Dia do Soldado, Dia das Mães, Dias dos Pais, Dia das Crianças, por aí iria.

Para o Dia do Soldado, por exemplo, escreveria : Não marche, pedale. Para, o das Mães : Não empurre carrinho, pedale.Utilizaria o mesmo mote e construiria toda a programação anual.

Pôs-se à ação. Elaborou as peças publicitárias. Digitou o roteiro do comercial para rádio.Pensou em Bicicleta, do  grupo Boca Livre, para fundo musical. Imaginou seus outdoors invadindo as ruas. Estava num quase frenesi.

Colocou tudo numa pasta e levou a Fontana.

Chegou a agência. Fontana não o recebeu com a amabilidade, de costume.

- Sente-se  aí, Cláudio
- Com licença
- Tenho algo desagradável a te dizer
- Fale, Fontana
- O dono da Arduin se desentendeu com o sócio e romperam a sociedade
- Que chato...
- O pior é que desistiram da campanha publicitária.
- Não me diga
- Infelizmente, é isso

Saiu desolado do escritório.Todo o seu trabalho, seu entusiasmo, em vão. Seguiu, cabisbaixo, pela rua. Que, hoje, parecia não ter fim. Nem se apercebeu quando alguém gritou :

- Cuidado, moço

Em sentido contrário, uma veloz bicicleta lhe abalroou. O ciclista saiu em alta velocidade, não prestando socorro.Cláudio ficou estatelado no chão. Começou a ver tudo escuro . Antes de desmaiar, ainda, ouviu a sirene da SAMU. Em sua mente, como uma trilha sonora, rodava Bicicle Race, do Queen. Olhou o céu azul, outra vez, e desmaiou.

Ricardo Mainieri
Enviado por Ricardo Mainieri em 04/05/2005
Reeditado em 05/05/2005
Código do texto: T14731
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ricardo Mainieri
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
1915 textos (29349 leituras)
1 e-livros (105 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 14:32)
Ricardo Mainieri