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O MENDIGO E O CÃO

Duas almas que se cruzam é como o raiar do sol encontrando a manhã. As ilhas ao encontrarem-se formam os continentes e por debaixo das águas mais profundas os mais bizarros peixes mergulham e são saborosos.

Toda esta complexidade desnuda uma das mais simples locuções existentes, já cantada por poetas mil, objeto de suicidas, clonagem de tragédias e tristezas: a solidão.

Pois em verdade lhes digo: não existe solidão na face desta terra, jamais houve. Até mesmo os mais solitários seres deste mundo entrelaçam-se  e convivem com algo ou alguém; os mais tristes filósofos têm a filosofia e os mais solitários músicos têm a música. Portanto, tudo o que cantam a respeito desta moça desembestada é pura bobagem.

Certa tarde parei com uns amigos em uma lanchonete que freqüentamos diariamente para descarregar as tensões do dia e tomar aquela cervejinha. Ao lado estava o mendigo, diário também, que ganha o seu lanche dos fregueses dali ou, quando estes não se encontram, do próprio dono do bar. Todos os dias o mendigo chega sozinho, mas àquela tarde ele estava acompanhado por um cão, molambo como ele, magro e certamente também faminto.


O mendigo sentou à mesa do lado de fora e fez o seu lanche, durante todo o tempo o cão ficou sentado ao seu lado, como se guardasse o saco de bugigangas do mal-trapilho ou aguardasse alguma sobra da refeição. Não importa, em nenhum momento seu semblante de companheiro se desfez, em nenhum momento o cão perdeu sua postura.


Após terminar o seu lanche, o mendigo pegou seu saco e retirou-se. O cão, como um guarda-costas, o acompanhou marcando o passo do homem. A imagem do cão e do mendigo foi afastando-se e apagando-se à distância pelos poucos raios de sol do entardecer, que davam um brilho todo especial àquela amizade tão bela.


Este filme da vida real ficou gravado em mim e sei que permanecerá para sempre, mesmo sabendo de toda involuntariedade, de todas as maselas e mansardas da vida ou da falta delas, enfim todas as ignonímias e iconografias que podemos guardar nos menores frascos, e são nos pequenos frascos que se guardam as mais suaves essências.
Celso Godoi Neto
Enviado por Celso Godoi Neto em 05/05/2006
Código do texto: T150707

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Sobre o autor
Celso Godoi Neto
Porto União - Santa Catarina - Brasil
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Celso Godoi Neto