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Eles estavam cercados


O cigarro consumia-se lentamente, aparecendo primeiro numa baforada cuspida de fumo, para depois se dissolver entre o outro fumo daquela divisão da casa. A calma aparente de quem o consumia não passava disso mesmo, duma coisa aparente, pois tudo o resto o empurrava para o desespero de 10 homens entrincheirados no meio duma cidade de milhares que lhes era claramente hostil. De momento a coisa parara, e o fumo a pólvora e a químicos dos explosivos deixara que o cheiro ao cigarro e ao suor daqueles homens fosse o odor mais intenso, realidade breve que a qualquer momento poderia (e seria) certamente alterada. O fumador atreve-se a deixar o seu refúgio debaixo da janela e a espreitar por ela e dali divisar as ruas vazias e casas esburacadas que os rodeiam. Tudo calmo...provavelmente os sitiantes também estão a fumar, mas também a planear os momentos finais dos “estrangeiros”, numa estratégia caótica de assalto, que consumaria mais algumas dezenas de vítimas mas que tomaria duma vez por todas aquelas águas furtadas. E o mais absurdo era ouvirem algumas centenas de metros acima de si o som de helicópteros e aviões aliados que esperam uma ordem da capital do mundo para os salvarem, sabendo que essa ordem nunca virá, pois a mesma política que os levou àquela cidade sem lei à procura dum inimigo quase sem rosto determinou agora a inutilidade dessa operação e o desperdício de recursos políticos e humanos num resgate desejado por quase todos, menos pelas pessoas que o podem realmente concretizar. O mais absurdo de tudo é ao lado destes combatentes experimentados de tantas e tantas operações do género estar uma equipa do cadeia de televisão mundial que, apesar do nervosismo estar a filmar a agonia destes homens-como se julgava a operação de fácil execução contactou-se um ilustre representante dos “mass media” para acompanhar os rapazes e atestar da sua eficácia, fazendo história ao abrir-se o enorme precedente de, pela primeira vez na história uma operação do género ser filmada em directo. Afinal eram favas contadas pois uma cidade em anarquia aberta e cheia de inúmeras facções inimigas umas das outras não teria a capacidade de se unir para expulsar o invasor temporário...Erro de estratégia e de visão claros, pois mal os soldados entraram no edifício visado a urbe reagiu como uma colmeia invadida, unindo-se e esquecendo as divisões, desenterrando o espírito morto do pais que já tinham sido para dar uma lição aos senhores do mundo, reduzindo num ápice um grupo de 60 comandos a apenas dez, feridos, quase sem munições e vergonhosamente encurralados numa velha mercearia. Apesar da urgência de os tirar de lá receava-se a perda de mais vidas e também a opinião dum resto de mundo que, farto de mais uma destas operações, reagiu em peso defendendo o fim do exibicionismo militar e daquela aventura insana, mandando há ortigas a solidariedade internacional e condenando os poucos a ainda resistir, fazendo-se cega às imagens da agonia daqueles homens, sendo que estas tiveram o efeito perverso de comoverem os espectadores pela sorte dos pobres e esfomeados atacantes que vaga sobre vaga conquistaram cada metro de terreno à custa de demasiadas mortes, pois afinal eles eram os invadidos e a imagem duma mulher ou criança destroçada por uma rajada ou pela explosão duma granada impressiona sempre mais do que os gritos dum Ranger ferido de morte, agarrado à foto da mulher e dos filhos que alguns milhares de quilómetros assistem na sua casa com ar condicionado e dispensa cheia à morte do seu querido pai e marido, algures num país reduzido à idade média pela guerra civil mas também pela indiferença da nação que agora condenou as sua tropas especiais. A política é o jogo mais insidioso que o espírito humano jamais criou pela sua frieza e vulatibilidade, e eles, os que estão prestes a morrer, apesar de serem homens de acção e bons executantes agora sentem tal dito na pele. Duros de roer atribuem no entanto as culpas da sua sorte à mera impossibilidade logística de os tirar daquele buraco, acreditando no entanto intimamente que num derradeiro momento lhes ordenarão para se prepararem para sair...Duros, duros como as paredes que os protegem estão ali a forjar novos mitos que certamente atrairão jovens imberbes para o exército como eles o foram, e por isso, apesar de toda a sua humanidade latente só se queixam das feridas mais profundas, trocando ainda sorrisos e comentários optimistas, mandando calar ou poucos que ainda gemem e os jornalistas, únicos seres lúcidos no meio daquele inferno e que sabem que de nada vale a moral bacoca e sorridente dos fanáticos a uma morte que os irá tocar a todos inevitavelmente
Eles estavam cercados.

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Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 07/05/2006
Código do texto: T151869
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Miguel Patrício Gomes
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