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O Triste Fim do Professor Célio

O triste fim do Professor Célio

Ele está sozinho em casa, como sempre estivera nos últimos anos. Faz tempo que não tem uma companhia para conversar ou pelo menos relembrar os velhos tempos de magistério. Os amigos se foram, como parte de sua família. Ou toda ela. Outrora fora bem afeiçoado. Era professor, homem das letras e de bons trejeitos. Foi membro do Clube Campestre, reunia com a alta sociedade. Foi presidente de partido. Como era animado em época de eleição, a casa era um entra e sai de militantes e eleitores em busca de algo em troca do voto. Foi vereador, presidente da câmara, lembra com uma ternura bucólica desse tempo. Mas tudo se foi. O tempo abriu feridas, ou foi suas atitudes? E o tempo, esse desgraçado tempo não conseguiu curá-las. Ficou remoendo como um câncer. É isso aí, um câncer que maltrata, que mata sem pedir licença. Onde foram todos? Não eram amigos, eram cânceres a dilacerar o cérebro ou as notas de valores bancários.
Raramente saía, as vezes uma saída rápida ao mercado em busca de alimentos, o mínimo para o sobrevivência, e é claro não poderia se esquecer do velho barreiro, sua bebida preferida e remédio para espantar a solidão. Essa solidão que o deixa cada vez mais carrancudo, mais pensativo, parado no tempo e no espaço em busca de uma resposta. Uma só resposta que diga o que houve. Bebo para esquecer! Foi a resposta que dera a si mesmo quando se perguntou porque as lembranças o maltrata. Quero esquecer que fui alguém, que tive alguém.
Sua esposa há muito tempo partiu em busca de uma sonhada independência. Agora é independente, quer sonhar sozinha. Lembra da última frase dela: “não quero terminar minha vida ao lado de um bêbado!”. Seu filho, Marcelo, foi ser advogado, está na capital. Vive bem, uma vez ou outra vem ver o pai. Porque viria mais? Ele tinha medo de seguir o caminho do pai. Tinha medo da hereditariedade, essa mania de filho ser igual ao pai. Não! Gritou certa vez a mãe – Ele não será igual ao pai.
Todo dia de manhã recebe uma visita preciosa. A enfermeira Joana que vem lhe aplicar as injeções de insulina e saber se está tudo bem. A Joana é atenciosa, bem diferente da outra enfermeira que o humilhava sempre dizendo. “como pode um homem tão forte acabar assim, desse jeito’. Como era o nome dela mesmo? Não se lembra. Deixa prá lá. Ainda bem que vem alguém aqui. Apesar de saber que é trabalho dela fazer-lhe visitas diárias, sempre encarava como uma visita de cortesia. Gostava de inventar, assim fugia com a solidão e a vergonha do abandono.
Foi até a geladeira, pegou um copo com água para fazer descer melhor os comprimidos da tarde, ou como poeticamente sempre respondia quando a Joana perguntava se havia tomado os comprimidos da tarde: “Ah, os comprimidos do crepúsculo? Tomei sim e com uma dose de rimas poéticas.” E assim tirava um sorriso daquele rosto preocupado da bela Joana. Além da água, pega um copo com o velho barreiro ou “a água que passarinho não bebe” como costumava brincar com os seus companheiros de botecos.
Retorna ao quarto, coloca com carinho os copos na cabeceira da cama, joga num canto a muleta. A sim a muleta! Desde que amputou a perna esquerda ela tem sido sua companheira nas caminhadas matinais. Recusou a usar cadeira de rodas. Sempre achou que com a muleta se sentia mais livre, mais independente mais agente e menos vítima.
Abre o criado mudo e lá estão algumas fotos antigas, para matar a saudade de tempos idos procura algumas para distrair e sonhar. Depara com uma foto de uma família feliz. Ele, a esposa e o filho. Como ele cresceu, como o tempo passou, como ficamos velhos. Outra foto onde ele participa de uma formatura como professor. Foi professor daquela turma. Como estão todos? Que caminhos seguiram? É claro que no meio deles alguns hoje são pais de família, bóia-frias e cortadores de cana. Se não traçar caminhos diferentes terão os mesmos destinos de seus pais. Onde está aquele menino que na primeira aula de português o surpreendeu lendo um texto com uma rapidez acima do normal. Lembra que o pai desse aluno era um desses desgostoso da vida e companheiro de boteco. O que houve? Será que o pai do aluno entendeu aquilo como um elogio ou uma repreensão? E o aluno? O que aconteceu com ele? Há muitas perguntas para poucas respostas nesse mundo de lamúrias e sofrimento.
Outra foto lhe chama a atenção, outra formatura, agora sua participação é como diretor da escola. São caras alegres, como se estivessem falando: “Futuro estamos prontos venha!” Coloca a foto bem perto dos olhos para ver se reconhece algum dos formandos. Apenas um, sua cara não é estranha. É claro! É seu filho. Como está elegante. Parece mais com a mãe. Não tem essa cara branca avermelhada. Cara de Alemão. Cara de Europeu Caucasiano. De onde vem essas peles que fogem do sol quente e bronzeador. Seu filho não, tem pele de latino. Latino americano, uma mistura de Catarinense com Baiano. É conterrâneo de Chico Buarque. É brasileiro, um híbrido representante da terra brasilis. O sorriso da foto lhe enviava uma mensagem. Tal como “Pai estou bem”. Será que está bem? Está bem, não é um bêbado. É advogado. É doutor nas leis.
As lembranças são muitas e nunca acabam. Não são poeiras que uma faxina revolve. São ferrugens que impregnam e vão corroendo. As lembranças mata aos poucos. Ou será saudade de tempo idos e vividos. Tempo das vacas gordas, bem aproveitado, bem gozado. Tempo em que sua palavra valia e sua voz ecoava nas salas de reuniões.
O remédio do crepúsculo está a espera para ser devorado. Não tem a fome necessária para sorver. O seu pecado da gula se mistura com o pecado do vício. Uma cachaça é o alívio do suplício solitário. Outrora fora apenas prazer. Muito prazer obteve com a cachaça. Depois descobriu que era o seu pior câncer que mata o corpo e a alma. Põe suavemente o comprimido na boca, estica a mão e pega um copo no criado mudo e emborcando-o toma todo o seu volume. Percebe o erro, é tarde. Tinha tomado a cachaça no lugar da água. Um remorso e arrependimento invade o seu ser. E agora? Grita para ver se alguém vem socorrer? Ou deita em seu leito maculado e espera o efeito passar? Não tem forças, o jeito é esperar. Como ultimamente tem feito. Espera que alguém lembre do que foi. Do professor que foi, do homem político que foi. Tudo outrora, tempos que não voltam. As pessoas passaram e ele ficou. O que é agora? Um nada deitado na cama moribundo esperando a morte chegar. A morte, última estação da vida terrena. Será que há céu?
Em sua mente passam lembranças boas, felizes que bem poderiam continuar se não fosse o maldito vício. Ficou confuso, porque será que aquilo estava passando em sua mente? É uma revisão, uma síntese daquilo que foi e viveu. Fragmentos de momentos felizes. O casamento. O nascimento do filho. Os diplomas políticos. As eleições em que quase desistiu porque não considerava com votos suficientes. Os bons projetos aprovados. Tudo isso trazia um prazer imenso. Sorria. Ria. Gargalhava. Mas sentia medo. Poderia ser o prenúncio da morte. O destino quer que tenha uma morte feliz, alegre, por isso traz as boas lembranças. Vem o sono, olhos pesados, e a vida ainda passa em sua mente. Devagar para observar os pequenos detalhes. Os detalhes da felicidade. Sempre acreditou que a felicidade estava em observar bem os pequenos detalhes. Os detalhes da vida agora surge como uma vida em detalhes. As lembranças passam, o sono chega, adormece.
Joana chega para a visita diária. Ver como anda o seu paciente é um exercício que pacientemente faz antes de ir para o hospital. Entra, a porta está sempre só encostada, ordens médicas. Vai ao quarto e encontra o seu paciente deitado na cama, morto e em seu rosto ainda dá para ver um sorriso. Para Joana o Professor Célio morreu feliz, como poderia ter sido na vida.
Valter Figueira
Enviado por Valter Figueira em 22/05/2006
Código do texto: T160611
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Sobre o autor
Valter Figueira
Carlinda - Mato Grosso - Brasil, 48 anos
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Valter Figueira