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As quatro enxadas

As Quatro Enxadas

Zé estava ciente que tinha que sair de casa o mais cedo possível para procurar serviço. Irritado, não é de agora que o mundo vem prevendo uma escassez. O plantio de café está acabando. Culpa de quem? Do governo que não cuida desse povo miserável que passa fome? E por falar em fome sua reserva de mantimentos está no fim. Ainda bem que a mulher tem leite nos peitos para dar sustento ao guri. Mas se ela não comer o leite acaba. Logo agora que tem um pequeno de três meses em casa, o ex-patrão resolve trocar o cafezal por pasto. Não vai ter lugar para todos, disse ele, e então foi dispensando. Dispensou todos, só a família dele dava conta de cuidar do gado.
Ainda bem que o compadre João emprestou a meia-água nos fundos para passar uns tempos. Quem sabe Zé vire bóia-fria e suba no primeiro caminhão que aparecer na vila. Mas lá também estão dispensando trabalhadores. Os seus pertences são poucos. O de mais valia era o berço do neném, não é novo foi oferecido por uma família amiga, não teria mais utilidade, as crianças cresceram.
Há uma informação que na fazenda do Sr. Fabriciano, uma boa caminhada da vila, estão precisando de uma família para serviços de enxadas. Zé foi, saiu cedo, antes do sol apontar no horizonte. Levava no embornal uma marmita com pouca coisa: mandioca cozida, arroz e dois ovos fritos, acredita que não dá tempo de voltar até a hora do almoço. Água não levou, deve ter riacho pelo caminho. E depois o povo da roça nunca nega água para quem tem sede. Foi caminhando, cruzando estradas e trilhas. Cafezais e pastos, este muitos maiores, aqueles já se acabando. Dá dó ver os cafezais morrendo. Já vai longe o tempo da fartura do café, tinha serviço para todos. Ou melhor: todos que tinham coragem de trabalhar. Chorar não é bom, trabalhar é preciso para se viver e serviço vai ter. Chegando na fazenda foi logo questionando pelo Sr. Fabriciano, procura daqui, descansa dali, refresca ademais na sombra duma mangueira. Que bom a vida se fosse só sombra e água fresca. Até que enfim a entrevista com o Sr. Fabriciano, homem bom, matuto, mineiro de Uberaba, distante de fazendeiro arrogante e cheio de si. Rico sim, mas trabalha na roça com os subordinados. O homem é bom, está disposto a empregar. A primeira pergunta de Fabriciano para o Zé foi. Quantas enxadas o Sr. tem? Prontamente e sem titubear, na lata, o Zé respondeu: Quatro. No que diante da resposta o Sr. Fabriciano disse ao Zé que poderia ocupar uma casa da colônia, a última na beira do início do cafezal, está vaga.
Zé, todo faceiro mudou no domingo. Vai trabalhar, ganhar dinheiro, dar sustento para a família e talvez sobre dinheiro para substituir sua botina rota, já rasgando. Teve cuidado especial com as enxadas, amolou-as, passou lixa e vela nos cabos. Na segunda feira esperava ordens. Aparece o Sr. Fabriciano a cavalo. Cavalo branco, chapéu marrom, esporas prateadas, agora parece mais fazendeiro, garboso, cheiro de si. Foi logo perguntando da família. Zé mostra a porta da casa de madeira, lá estava a mulher com o guri no colo. Sr. Fabriciano não acredita que houve um mal entendido. Olha para o outro lado da parede e lá estão quatro enxadas prontas para o trabalho. Esse pessoal da cidade não entende, resmungou Sr. Fabriciano quando já estava de volta após encomendar as ordens ao Zé. Será que Fabriciano, o mineiro em terra Paranaense falou mineirês quando perguntou ao então candidato a emprego quantas enxadas tinha na família, ele na verdade queria dizer, quantas pessoas estão aptas a trabalhar, e não o número de ferramentas. O Zé continuou trabalhando sem saber do engano que cometera. O Fazendeiro com gesto de matuto entendeu, o Zé não mentiu e nem enganou, queria serviço e teve serviço. Fabriciano resmungou consigo mesmo: Um dia ele descobrirá o engano.

Valter Figueira
Enviado por Valter Figueira em 22/05/2006
Código do texto: T160614
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Sobre o autor
Valter Figueira
Carlinda - Mato Grosso - Brasil, 48 anos
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Valter Figueira