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METAMORFOSE

               



Elegantemente vestido Jânio repassa os olhos na aconchegante sala de jantar. Receberia nesta noite uma presença feminina muito importante.

Observa demoradamente cada detalhe da mesa: baixela e as bebidas a serem servidas. Dirige-se à cozinha, sente a boca salivosa ao sentir o cheiro do assado. Acrescenta alguns detalhes a mais, sobre o jantar, com sua serviçal. Corria tudo de acordo com suas exigências. Refinado malandro, aprendera com uma amante francesa tudo sobre etiqueta.
“Impecável!” — diz para si mesmo após a verificação.
Vai até a sala de estar. Tudo também muito perfeito.

Apurando o olfato percebe no recinto o sutil odor da colônia  amadeirada que usava.
Não esquece de separar alguns CDs com músicas de gosto eclético.

Olha-se no espelho, ajeita o nó da gravata, repassa o pente sobre o bigode e sobrancelhas. Ajeita algumas flores que estão em ricos vasos de porcelana sobre o aparador. Sente-se um marinheiro de primeira viagem ao constatar toda sua excitação. Consulta pela décima vez seu relógio.
“Se Malena for pontual, em quinze minutos deverá soar a campainha.”

Sentou-se por alguns instantes na poltrona de couro. Este encontro estava sendo planejado há muito tempo. Jânio apostava todas suas fichas em seu rosto bonito e seu irresistível charme. Como todo bom malandro, era um cativante sedutor. Possuía gestos estudados, uma entonação de voz suave e um atraente sorriso. A rica francesa havia sido uma verdadeira lapidadora. Transformou um mal-educado bonito, num moço refinado.

Os bens que Jânio possuía, foram conquistados por intermédio de ardentes romances com algumas mulheres mais velhas.

Tinha, porém, entre outros problemas, uma paixão avassaladora por cassinos e bebidas. Era um bebedor e jogador patológico. Sabia a hora de entrar na orgia ou na jogatina, a de sair, não aprendera jamais. Agora, estava falido. Fora apresentado a Malena, em uma exposição de quadros, por meio de uma amiga. Por ser leitor contumaz de colunas sociais, já sabia que ela era uma bem sucedida socialite que enviuvara há pouco tempo. Malena já aceitara dois convites dele para o teatro. Demonstrava estar segura e ter simpatia pela companhia fascinante de Jânio. Hoje, ela concordara em vir jantar em sua residência. Uma união de ambos seria para ele a salvação financeira. Prometeu a si mesmo que se tudo desse certo, passariam a lua-de-mel em Las Vegas ou Monte Carlo.

Saiu de suas divagações com o esperado som da campainha.
Afastou a inevitável tomada de ansiedade com umas rápidas inspirações.

Sorrindo, recebeu Malena com uma linda orquídea branca e beijou-lhe o dorso da mão. Pelo meigo olhar de Malena, sentiu que conseguira estender adequadamente o tapete vermelho da cordialidade.
Conhecia os sutis segredos de um requintado anfitrião.

— Toma algo, Malena?
— Água, por favor!
Levanta-se, apanha a água e sugere que ela tome uma dose de uísque.
— Então, só um pouquinho — diz Malena.
— Sua presença em minha casa merece pelo menos uma dose deste “doze anos”, mas também só tomarei uma dose. Astuciosamente assegura que só bebe raramente — “Só bebo em ocasiões especiais como esta.”

O diálogo inicial fora sobre literatura e música clássica. Habilidoso, ele deixa para ela a clara impressão que ambos apreciavam as mesmas obras.

Com uma relativa progressividade o inusitado fez-se presente naquela sala. O recém aberto litro do uísque, já estava pela metade. Como num passe de mágica, Malena parecia estar conversando com outra pessoa.  Pasma, ela fica se perguntando onde tinha ido parar aquele elegante homem que a recebera há pouco.

Inquieta e assustada se questionava se fora uma decisão correta ter vindo até a casa de Jânio. Aliás, embriagado, este mantinha um monólogo repetitivo já faziam uns vinte minutos. A tonalidade da voz havia ganhado uns decibéis a mais juntamente com uma certa dificuldade em articular as palavras. A descompostura fez-se presente. Paletó e gravata já esparramados no sofá. Cinzas de seus inúmeros cigarros fumados já marcavam sua calça azul e o belo tapete do assoalho.

Malena não acreditava no que estava presenciando. Estava no interior de um labirinto de desagradáveis surpresas. O fio de Ariadne que encontrou, foi a sensata idéia de sair dali o mais rápido possível.

— Jânio, perdoe-me, já se faz tarde, preciso ir agora.
— Quê é isso Dona Zefa, pêra um pouco... Que frescura é esta?... E a gororoba que mandei fazer?... Gastei uma nota preta no “papudo”, tá sabendo?

Foi a gota d’água para Malena. Com fisionomia séria, levanta-se, dirige-se a porta e sai da casa com os olhos lacrimosos. Decididamente, este homem ela não havia conhecido.

No dia seguinte, Jânio acorda acompanhado do mecanismo de defesa fisiológico mais íntimo nas manhãs de todo alcoolista abusivo: a ressaca. Gemendo, cabeça explodindo, boca amarga, ânsia de vômito, diz para si mesmo:
- Porcaria! Novamente estraguei tudo. Maldita bebida!
Para tentar se livrar da presença incômoda da autocrítica promete para si mesmo, uma vez mais, parar de beber dentro de duas semanas. No próximo dia primeiro...




Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 28/05/2006
Código do texto: T164922
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
92 textos (3257 leituras)
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Luiz Celso de Matos