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                           Amor à Capitu

                                                             Rosa Pena



 
Não era para ter sido uma história de amor, ambos pareciam pessoas tão resolvidas nesta área, muito menos uma história triste, até porque os protagonistas estavam sempre de bem com a vida. Bem até demais!

Começaram como dois desconhecidos conhecidos e de repente já estavam transando loucamente. Sexo pelo sexo é ótimo, uma garantia de não sofrimento. Lavou, tá novinho em folha e, sendo apenas sexo, a culpa é menor, aliás, não há. Faz bem à relação. Segundo Sartre e Simone, amores contingentes revigoram o casamento. Ele começando um, ela num estável. Durante o dia, se referiam aos cônjuges de forma carinhosa, mas ao bater dezoito horas, começava a metamorfose. Maldita ou bendita urgência de sexo, apenas sexo e nada mais.

Tinham que se encontrar e transar. Reconheciam o direito de nada dizer sobre a vida que corria lá fora, de ter outros em suas camas, de não se ver nunca mais, se melhor lhes conviesse. Não tinha acordo, não existia compromisso, nada de juras, segredos compartilhados, mentiras sociais, que dirá renúncias, pois não eram sequer insubstituíveis sexualmente. Apenas mais dois gostosos no planeta da sacanagem. Não dar bandeira ou deixar rastros era a condição, sine qua non, para a manutenção daqueles encontros fortuitos. Bilhetes trocados eram como os votos do conclave. Cinzas na lata de lixo.

Uma única vez, entre eles, surgiu a pergunta:
— E se eu não quiser mais?
— Vamos à luta. Não temos vínculo algum, nem exclusividade. Só sexo, apenas sexo e nada mais.

Descobriram, no meio de uma fenomenal trepada, que gostavam do mesmo vinho; em outra diabólica, veio a Billie Holliday; no final de um banho encapetado, a coincidência da Sociedade dos Poetas Mortos; o Ferreira Gullar foi citado quando ela ajeitava a calcinha, num ritual que ele adorava olhar; Morro de São Paulo, quando ele beliscou a bunda dela. Descobriram o ciúme, quando se negaram ao ménage à trois, tão e tão fantasiado.
Que zelo é esse?
Amor como os olhos de Capitu?!

Deram um displicente tchau definitivo, afinal, ele era um feliz recém-casado e ela tinha um casamento firme. Sempre foram absolutamente desnecessários um ao outro.
Estranhas insônias insanas que passaram a ter! Desgraçada úlcera que arde a cada gole de vinho ao som da Billie. Que coisa de maluco não querer mais ler o Ferreira.
Vá à merda, Sartre!
 


LIVRO UI!
prêmio prosa&verso O Globo
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 12/05/2005
Reeditado em 25/04/2009
Código do texto: T16502
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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