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Waiting for Ângela



Numa tarde de outono, Rubens havia se declarado para Ângela. Reunira toda a coragem que a timidez permitia e falou a ela sobre seu  amor. Entretanto, não imaginava aquela resposta politicamente correta :

- Rubens, você é uma pessoa muito legal.Amigo, confidente, alguém especial.Mas, eu amo Eduardo, o filho do dono da revenda de automóveis.

Rubens olhou para o nada e conseguiu balbuciar umas poucas palavras.

- Ângela, eu não tenho nenhuma chance?
- Um dia querido, você vai me entender e pensar que foi melhor assim...

Tentou esconder uma insistente lágrima que queria desaguar rosto abaixo. Engoliu em seco e resolveu voltar para casa.Que iria fazer? A moça preferia aquele playboy inconseqüente e de carro diferente a cada semana...

Os dias passaram céleres e chegou o sábado. Ele nem pensava em alguma “balada”
no estado emocional em que  ficara. Nisso, o telefone tocou...

- Rubens, onde anda você, rapaz?
- Oi, Marcos, ando meio caseiro, ultimamente...
- Cara, quem sabe a gente saí para colocar as idéias em dia?
- Levei um fora de uma garota.
- Mulher tem bastante no mundo.Quem sabe tu não “descola” outra...
- Não sei. Mas, pensando melhor aceito teu convite.
- É isso, meu irmão. Aparece aqui em casa às nove.
- Legal. Vou levantar o astral.
- Abraço.
- Outro.

Colocou uma camisa esporte e  jeans preto, sapatos mocassim e meias. Tentou esboçar um sorriso.O espelho retornou uma quase careta...

Pegou o ônibus quase vazio. Sentou-se.As ruas passavam pela janela. Olhava distraído, na mente uma leve lembrança de Ângela. Logo, se deu conta do bairro onde estava.Acionou a campainha próximo à casa de Marcos. Desceu.Ele já o esperava no portão.

- Legal que você veio, Rubens.
- Vamos ver se saio deste baixo astral.
- Vamos beber todas, hoje, cara!
- Vou esquecer a Ângela de vez...
- Mulher nenhuma merece nossa tristeza.
- Acho que você tem razão...
- Te anima, meu irmão, que o botequim do Cebola nos espera.


Na realidade,  botequim era um nome carinhoso. O local era quase um pardieiro. Pintura desbotada nas portas e paredes, imagens de cantores bregas, fotos de mulheres nuas. O dono, um gordo, desdentado, indicou uma mesa tosca no fundo do bar.

- Lá é mais tranqüilo, gurizada
- Valeu, Cebola, traz uma cachacinha especial pra nós.

De imediato, vieram dois copos.Dentro uma aguardente misturada com canela e nada para acompanhar. Bebum de fé não mistura bebida com refeição...

Sorveram aquele líquido quase ocre de um trago só.  Rubens sentiu alguma dificuldade. Marcos ria...

- Cara, não estás acostumado?
- Com cachaça, não.
- Você se acostuma...

Após, vieram às cervejas. De início, geladas. Depois da segunda, mornas e enjoativas.
Mas a dupla ia encarando. Aparentemente sem problemas.

Outras mesas foram sendo ocupadas. Homens de meia-idade, rapaziada, nenhuma mulher.
Uma jukebox ao fundo,  tocava sucessos de Zezé de Camargo e Luciano intercalado por algum pagode. Por vezes, um saudosista  dava voz a Nélson Gonçalves ou Lindomar Castilho: protestos...

Rubens quis ir ao banheiro.Cerveja sempre faz este estrago, pensou. Em passos claudicantes, foi se escorando nas mesas e conseguiu chegar até lá. O banheiro era infecto. Papel higiênico, naturalmente, não existia. A pia estava amarelada pelos pingos milenares e a privada não tinha tampa, nem corda para puxar. Acomodou-se sentado na privada e urinou abundantemente. Isto era contra seus princípios.Sentia-se meio feminino com esta atitude.Cambaleante, retornou à mesa.

- Marcos, vou pedir a “saideira”.
- O que, Rubens, você, está pedindo trégua?
- É, vamos encerrar por aqui.

Cebola foi chamado e reapareceu com uma cerveja gelada, desta vez. Beberam rapidamente, sem conversar. Pagaram a conta e se dirigiram para a casa de Marcos que era perto dali. Noite quente, rua tranqüila. Resolveram estender o bate-papo por mais uns momentos.

- Valeu, Marcos, por instantes esqueci da Ângela
- Mulher nenhuma vale a pena, cara!
- Queria pensar como você, mas não consigo.
- Um dia você chega lá...
- Valeu meu irmão, até a próxima
- Valeu!

O ponto de ônibus era quase ali. Não demorou muito e um veículo estacionou e ele, tropeçando, embarcou.

Havia um lugar vago no fundo do corredor.Acoplou-se à poltrona e recostou a cabeça, sem nada pensar.

De sobressalto, acordou-se. O coletivo havia passado vários pontos de sua casa e ele precisaria voltar. Apertou, freneticamente, a campainha e desceu sem saber ao certo onde estava.

Era uma zona erma e mal iluminada. Próximo a uma árvore se escorou e deixou verter todo o jantar saboreado, antecipadamente, em casa. Novo refluxo e mais vômito espalhado pela calçada. Nisso, uma sirene rasgou o silêncio.

Dois policiais desceram e enérgicos se aproximaram de Rubens.

- Te escora neste muro e fica quieto
- Vocês nunca viram ninguém vomitar?
- Quieto, guri, vamos te revistar
- Eu tou “limpo“ seu guarda
- O que tu fazes a estas horas por aqui?
- Bebi demais, pois uma mulher me deu o fora

Os dois guardas riram entre si. Um deles disse :

- Guri, vai pra casa. Esquece esta mulher...

Rubens não esperou muito.Em passadas miúdas e estudadas tomou o rumo de sua casa.
A sobriedade estava retornando.Junto com ela a lembrança de Ângela.

Escorou-se, novamente, em outra árvore. Chorou impiedosamente.A chuva fininha do amanhecer  parecia acompanhá-lo num dueto.Improvável e surreal...



Ricardo Mainieri
Enviado por Ricardo Mainieri em 29/05/2006
Código do texto: T165151
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ricardo Mainieri
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
1917 textos (29353 leituras)
1 e-livros (105 leituras)
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Ricardo Mainieri