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É Natal.

É Natal

O Sol apregoava as costas de Zozé ali emborcado catando as maçãs de algodão que relavam no chão. Estão úmidas, vão render mais no peso. Zozé não levanta já faz quase vinte minutos. Suas costas danam a doer, é sinal dos tempos que estão passando. O peso da idade judia da gente, não rende mais.
— Será que vai chover Zozé?
— Vai não, hoje você vai ter que mijar no fardo.
— Eles desconfiam Zozé!
O sol estava a pino, mais bem adiante uma manada de nuvens negras se achegam e se acomodam para juntar chuva.
— A tarde, depois da bóia chove Zozé.
— Cê num é adivinhadô.
— Não é advinhadô Zozé, é adivinho.
— Se qué ensiná vai ser professor e não catadô de algodão.
— Calma Zozé, eu apenas  quis ajudar. Nós estamos tudo na merda mesmo. Amanhã é Natal você sabia Zozé?
— E daí você vai chamar o Papai Noel, lá em casa não tem dessas coisas não.
Zozé sempre viveu e acredita que sempre viverá da roça. Mas essa roça de hoje não é como a de antigamente. No seu tempo de homem moço, forte, raçudo, era meeiro, morava na colônia, tomava água do poço e banho no riacho. Agora tudo é difícil, tem que pagar aluguel, pagar água, pagar energia, o dinheiro que tira não dá pra nada. Nunca imaginou que teria de trabalhar duro até véspera de Natal. Para ele Natal nunca foi grande coisa. Mas tinha as rezas, as novenas nos sítios vizinhos. Na cidade não, o povo enche a cara. Tá todo mundo querendo beber e ficar incomodando os que querem paz.
— Zozé você tem carne no almoço hoje?
— Que nada só tem um zoião mesmo.
A carne é rara, aparece mais nos discursos utópicos dos sonhadores comedores de zoião. O ovo frito, que outrora era a esperança de continuação das galináceas, torna-se esperança de vida e alimento dos desesperados catadores de riqueza.
— Zozé, um dia ainda vou ficar rico, você vai ver. Vou ajudar toda essa gente pobre que precisa trabalhar na véspera de Natal.
— É bom você trabalhar, senão nem para comer amanhã você tem. Deixa para sonhar de noite.
As bolas de algodão ainda verde, incitavam a imaginação de Zozé, parecem bolinhas das árvores de Natal. Zozé não entendia porque ele não encontrou ainda no mato uma árvore igual aquela. É pinheiro, disse certa vez dona Nina, não tem no mato. Porque será que não usam uma árvore fácil mangueira? ou jaboticaba que é muito bonita?
— Zozé você sabe o que o pessoal vai fazer hoje a meia noite?
— É a missa do Galo?
— Zozé!! Oh Zozé!! acorda homem de Deus. Será que não aprendeu ainda que a Missa do Galo é na Sexta Feira Santa.
— Ah é!! Então meia noite é que aparece o papai Noel. E aonde é que ele aparece que eu nunca vi um de verdade?
Para Zozé, todos os que ele encontrou fantasiados de velhinhos vermelhos, eram na verdade fajutos disfarçados de Papai Noel. Seu pai, como não podia presentear a prole de 10 filhos, contou-lhe a verdade muito cedo. Assim aprendeu na vida, a diferenciar sonhos de realidade. Os Natais eram sempre iguais, e Zozé sabia que tinha que se esforçar para não ser alienado pela propaganda que faziam. Ou seria sentir inveja? Não! Zozé não era invejoso. Seu pai ensinou todos a conformarem com a situação, e pelo menos trabalhar para não passar fome. O Natal não coloca comida na mesa, não paga suas contas. Então como pode ficar em casa de papo pro ar e dizer que é Natal.
— Zozé!! Hei Zozé? Você vai comemorar o Natal na sua casa?
— Eu vou rezar na igreja.
— Não estou falando de rezar, estou falando de festejar, tomar umas cachaças.
— E rezar não é comemorar? Será que Jesus Cristo quer que eu encha a cara para comemorar o nascimento Dele?
Zozé sabia, era esperto, apesar da simplicidade e da ignorância em certos assuntos de banco de escola, que alguns teimam em dizer que é burrice, que para comemorar não é preciso encher a cara. Basta respeitar como ele respeitava. Basta amar o semelhante como ele amava. Como também basta viver, como ele vivia.
Era véspera de Natal, as bolas de algodão lembravam luzes. A chuva aproximava, o vento balançava as folhas e Zozé ali na labuta, embordocado catando as maçãs, as de baixo estão mais pesadas. Vai chover, que bom, não vai ser preciso mijar no fardo.
Valter Figueira
Enviado por Valter Figueira em 29/05/2006
Código do texto: T165474
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Sobre o autor
Valter Figueira
Carlinda - Mato Grosso - Brasil, 48 anos
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Valter Figueira