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O homem e o mar

O Homem e o Mar

O sol estava ardendo, como esteve ardendo todos esses dias. Parece que não chove faz muito tempo. De um lado é bom, sempre vai ter serviço. Se chove não se pode trabalhar. O duro é a poeira no meio do caminho, ela entra no caminhão e impregna nas narinas dos trabalhadores. Até a enxada, quando passa sobre o solo para cortar as ervas daninhas, levanta poeira. A terra seca lembra o nordeste, lugar ruim de onde vieram muitos que aqui estão. Papagaio não pode ter lá, senão as cabras comem achando que é mato só porque é verde. O chapéu panamá faz um pouco de sombra não evitando que o suor corra como água de chuva no rosto de Zozé.
Água! Isso mesmo, é água que quer para matar a sede, para lavar a alma. Um rio de água, um mar de água. Mas que tamanho tem o mar? Será maior que a imaginação de Zozé que nunca viu e sonha em vê-lo? Zozé pára de capinar, vai até a moringa e se sacia de um bom gole dágua, água de poço, boa, fresca, doce. Dizem que o mar tem água salgada, deve ser suja. Tantas coisas se joga no mar. O mar silenciosamente recebe tudo o que mandam, como um cemitério de coisas inúteis, indesejadas pelos humanos. No retorno olha o horizonte, adiante uma linha quase azul faz com que o céu se encontra com a terra. Dizem que no mar é assim, você olha até onde as vistas alcança. Lá diante o mar se encontra com o céu, é tudo azul, dizem, ele mesmo não tem certeza, só vendo. Já viu na televisão preto e branco, não da para saber se é azul.
Zozé sonha com o mar, uma imensidão de água que balança em ondas intermináveis. Aonde começa e termina o mar? Só Deus sabe. Que rumo se toma para ir ao mar? Dizem se tomar o caminho do sol se chega ao mar, de um lado chega mais rápido, de outro demora um pouco mas chega. Então o mar rodeia a terra seca? Bem que poderia vir um pouco de mar para amolecer essa terra dura.
— Sabe Zozé, isso tudo aqui foi um imenso mar um dia. Mas um tempo muito distante que a gente nem imagina. Agora, olha só que imensidão de verde. Parece um mar verde de tão grande. Não acha Zozé?
— Acho não. Mar tem que ser mar de água. Onde vivem peixes, como tubarão e baleia. Não pode ser mar de terra. E quem garante que aqui já foi mar. Só Deus sabe.
Zozé não sabia, assim como muitos não sabem, outros até tiveram a informação e não acreditam, que o mundo dá voltas e voltas e sofre diversas transformações. São transformações drásticas como a era do gelo, a era dos dinossauros e quem sabe a era dos grandes mares que invadiram todo a espaço terrestre. Mas quem estava lá para contar? Só Deus sabe.
Todo homem tem que conhecer o mar disse uma vez um marinheiro. Aqui não tem mar. Será que esse marinheiro acha que todo mundo é viajante como ele? Isso foi na televisão, ele estava numa dessas cidades a beira mar. Lá é fácil, é só andar um pouco e já está pisando nas areias da praia. Muita gente mora lá e nem liga para o mar. E o barulho? Será que é o mesmo quando se pega uma casa de caracol e põe no ouvido? Dizem que sim, e assim, antes mesmo de conhecer o mar, Zozé já ouviu o seu barulho. O barulho das ondas se agitando. Uma parte já tenho conhecido, disse Zozé, o som do mar, agora tem que ir lá e comprovar o seu azul, sentir o seu cheiro, correr em suas águas. Mas o mar está longe. Longe na geografia e no tempo. Enquanto isso Zozé puxa motivamente a enxada. Um dia ele irá ver o mar.


Valter Figueira
Enviado por Valter Figueira em 29/05/2006
Código do texto: T165475
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Sobre o autor
Valter Figueira
Carlinda - Mato Grosso - Brasil, 48 anos
39 textos (2147 leituras)
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Valter Figueira