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OBSESSÃO: a verdade sobre meu pai - cap. VII

Capítulo VII – Susto

O telefone celular tocava estridentemente. Era um soar cruel contra o silêncio de uma madrugada às claras. O som ecoava pela casa, aumentando cada vez mais sua bárbara sinfonia. Uma dor latente invadiu-lhe a cabeça, sua visão estava turva e seu corpo dolorido era uma imensa massa sem sustentação.
Eram seis horas da manhã. Adormecera sobre a mesa e a descoberta não lhe fizera o bem esperado, aumentando suas angústias. Vacilou. Pensou em desistir de sua busca desesperada e lançar um novo véu sobre a ponta do passado que forçosamente viera à tona. Queria esquecer-se de tudo e voltar ao nada, mas não conseguiria viver sem que soubesse de toda a história, nem que para isso tivesse que enfiar-se no lodaçal de lembranças que o assombrava. O telefone ainda tocava.
— Pronto — disse com a voz engasgada e sonolenta.
— Bom dia! Eu poderia falar com o senhor Jean Delacroix? — perguntou-lhe uma voz feminina do outro lado da linha.
— Bom dia — respondeu ao cumprimento apenas por convenção, não estava interessado em conversas —, sou eu mesmo. Quem deseja?
— Sou eu, Laura, enfermeira do hospital em que sua esposa está internada. Lembra-se de mim? — perguntou ansiosa.
— É claro. Como está Fernanda? — perguntou, lembrando-se da noite anterior e de tudo que acontecera nos últimos dias.
— Sua esposa está bem melhor. O quadro é estável. Logo, logo ela poderá ir para casa. Não se preocupe.
— Ela está consciente? — perguntou, demonstrando certa preocupação.
— Sim, ela está consciente, mas, no momento, dorme. A sonolência é normal no estado dela. Como eu disse, não precisa se preocupar — tentou acalmá-lo.
— Laura, ontem, você disse que eu poderia acompanhá-la, correto? Sendo assim, em que horário eu posso retornar ao hospital?
— Às sete horas — respondeu de imediato.
— A propósito, somente eu poderei ficar com ela ou outra pessoa também poderá? — perguntou, enquanto pensava em deixar a esposa aos cuidados de Rita ou Pedro. Assim, teria tempo de investigar melhor as suspeitas levantadas pelas cartas.
— Outra pessoa poderá acompanhá-la sem problema algum. Se não for alguém da família, basta que assine um termo de responsabilidade pela pessoa que ficará com sua esposa. Infelizmente, são regras do hospital, mas se por um lado é burocrático demais, de outro é seguro.
— Tudo bem! Provavelmente será a mãe de minha mulher quem ficará com ela.
— Nesse caso, não será necessária a assinatura do termo. Basta que ela apresente algum documento de identificação.
— Certo. Obrigado pela atenção. Sua ajuda é muito importante para mim, deixou-me aliviado e seguro quanto ao estado de Fernanda. Sou muito grato a você.
Assim que desligou o telefone, Jean apressou-se para guardar as cartas que lhe tiraram o sono. Não podia deixá-las expostas, pois alguém poderia encontrá-las ou perdê-las. Pensou em fazer uma armadilha para quem conhecesse a história de seu pai e Paula, afinal todos eram suspeitos, tanto poderiam ajudá-lo como atrapalhá-lo em suas investigações. Se alguém quisesse evitar que seu objetivo fosse atingido, estaria preparado para defender-se dos inimigos. Planejaria uma estrutura sólida de defesa, nada nem ninguém o deteria.
***
Quando chegou ao hospital, Rita e Pedro aguardavam-no impacientes. Esperavam aflitos a chegada do genro, culpando-o pelo que acontecera. “Se algo mais grave acontecer a Fernanda, ele pagará pelo seu descaso”; afirmava enfurecida, a sogra.
No momento em que foram informados do ocorrido, não aguardaram um minuto sequer, em disparada, rumaram angustiados para o hospital. Concluíram que o fato se dera pela confirmação das suspeitas de Fernanda. Afinal, conversaram muito antes que retornasse a sua casa. Pensaram ter acalmado a filha, mas, ao contrário do que imaginaram, alimentaram seus monstros interiores.
Rita lançou os olhos para o genro. Não dirigiu a ele sequer uma palavra. Não era necessário, seu olhar dizia o que se passava na alma. Já Pedro tivera maior discrição. Aproximando-se de Jean, cumprimentou-o entristecido pelo estado em da filha. Sabia que culpado ou inocente pelo que ocorrera a Fernanda, a intenção do que realmente aconteceu não foi provocar mal a ninguém. Quis saber o que ela tinha feito, não queria mentiras, apenas a verdade, pura e concreta.
Jean explicou-lhe como encontrou a esposa e os fatos que os levaram até aquela sala de espera. Obviamente, ignorou os motivos que o fizeram se atrasar tanto, levantando suspeitas na sogra, que não acreditou em suas palavras. Ela podia sentir o cheiro das mentiras apenas ao se aproximar dele.
Antes que Rita molestasse o genro com sua raiva crescente, o médico chegou à recepção. Seu rosto transmitia serenidade àquelas almas em conflito, sua expressão de alívio acalmou os nervos à flor da pele da mãe desesperada, evitando uma discussão na sala de espera.
— Senhor — disse pondo as mãos sobre os ombros de Jean —, sua esposa teve uma boa noite de sono e passa bem agora. Não sei o que a levou a ingerir demasiada quantidade de álcool, portanto aconselho ao senhor que procure um tratamento específico para ela imediatamente. O alcoolismo é uma doença e, mais do que tudo, o apoio da família é fundamental — disse seriamente.
— Minha filha não é alcoólatra — exaltou-se Rita, falando duramente com o médico. — O que aconteceu foi um fato isolado. Não admito que falem assim de minha criança.
— Senhora — insistiu o doutor —, compreendo o seu nervosismo, mas é preciso entender que a situação de sua filha é delicada. Se ela não possuía o hábito de beber, pode ser que agora, ela se entregue a esse vício se não tiver o apoio de vocês. É preciso cortar o mal enquanto ainda é pequeno, pois, à medida que cresce, eliminá-lo será cada vez mais difícil. Existem grupos de ajuda que podem orientá-la para que não caia nesse abismo. Não adianta serem rudes com ela, isso não ajudará em nada, o que ela precisa é de carinho e compreensão e, em hipótese alguma, críticas negativas ao seu comportamento — disse, tentando acalmá-la.
— Não posso concordar com isso — teimou Rita — minha filha não é uma alcoólatra. Tudo isso é um engano. Ela não tem culpa de nada. A culpa é sua — disse, estendendo o dedo em riste para Jean — e de mais ninguém. Se estivesse com ela, isso não teria acontecido. Você faltou com suas responsabilidades de marido e minha filha é quem paga por seus caprichos.
— Eu — tentava explicar-se, mas as palavras faltavam-lhe. Não sabia o que responder para justificar sua ausência. Sentiu o remorso corrompendo suas idéias. Com um brusco movimento, caiu sentado no sofá. Sua cabeça parecia que, em poucos minutos, explodiria. Tentou controlar-se, mas não foi possível, lágrimas escorriam de seus olhos sem que pudesse detê-las.
— Tal pai, tal filho — disse ela ironicamente. — Não vou deixar que aconteça com minha filha o mesmo que seu pai fez a Elizabete.
— Rita — Pedro a repreendeu, tentando encobrir o que a esposa estava levantando com sua raiva incontida. — Esses são assuntos pessoais e que não dizem respeito a todos aqui presentes. Controle-se, você não está sendo sensata e, sim, desagradável.
— O que você sabe sobre meu pai — perguntou, levantado a cabeça, nervoso, exigindo que lhe desse a resposta imediatamente.
— Nada — interveio Pedro, rapidamente — Rita está nervosa, Jean, não sabe o que fala.
— Não sei — disse ela furiosa desafiando o marido.
— Não, não sabe — falou rispidamente, virando-se para a mulher, reprovando sua atitude.
— Senhores, discussões agora não resolverão o problema. Por favor, tenham calma — implorava o médico. — Vocês estão em um hospital.
— O senhor tem razão, doutor. Desculpe nossa falta de discrição. Estamos muito nervosos com o que aconteceu. Prometo que não se repetirá, tem a minha palavra — desculpou-se Pedro.
Rita e Jean se entreolharam. Ele a fitava curioso e enraivecido.
— Vamos, quero ver minha filha — Pedro os chamou, trazendo Jean de volta à realidade.
Jean ouvira as palavras da sogra e calara-se. Sabia que ali não era o local adequado para discutirem os problemas familiares, entretanto pôde descobrir que os sogros sabiam da história de seu pai e, lamentavelmente não iriam ajudá-lo em sua busca pela verdade.
Para evitar maiores conflitos, os acompanhou sem nada dizer, apenas imaginando o quanto sabiam.
No quarto, Fernanda, pensando na infelicidade que cometera, olhava para o teto angustiosamente, quando a porta se abriu. A presença do pai a acalmou. Sentiu a segurança que lhe faltara na noite anterior.
— Desculpe-me, papai — implorou aos prantos como se regressasse à infância. — Por favor, não me odeie pela besteira que eu fiz.
— Calma, minha filha — disse sereno, abraçando-a em seu leito. — Não precisa chorar; o pior já passou. Está tudo bem, ninguém odeia você, querida.
Rita correu ao encontro da filha e afastou o marido, chorando muito.
— Como você está, minha filha?
— Estou bem, mãe. Sinto apenas meu coração acelerado. Às vezes dói um pouco, mas o médico disse que é normal. Eu só preciso repousar e beber bastante água — explicou fitando os olhos da mãe. — O que dói, na verdade, é a minha consciência. Não sei bem em que pensar, mãe. Como deixei as coisas chegarem a este ponto? Não sei como vim parar aqui nem como deixei minha casa. Não sei o que meu marido pensa de mim, tampouco o que dele penso. O que está acontecendo com minha vida, mamãe? Será que perdi o meu encanto? Eu hoje não sou mais a mulher que era? Não há mais atrativos para encantar o homem que eu amo? Minha vida, a cada dia, se torna mais insuportável e sem sentido.
— Não diga isso, minha querida. — Pedro, tentava animá-la. — Vocês estão passando por uma crise e isso é comum a todos os casais. Sua mãe e eu já tivemos muitas brigas e nem por isso desistimos da luta que é a vida. Superamos todos os problemas de mãos dadas e seguimos em frente, sem temer o que nos aguardava no futuro. Erguemos a cabeça e chegamos a um acordo. Fizemos do diálogo nossa arma contra as impaciências da vida conjugal. No fim, fomos corados com o seu nascimento, por isso não se aflija tanto, o que você está passando agora são coisas do momento e logo ficarão para trás.
— Será mesmo, pai? — disse com ironia. — Mas onde está Jean? Onde está meu marido? — perguntava aos prantos, sentindo o abandono.
— Ela tem razão — disse Rita. — Onde está aquele miserável sem coração?
— Ele está lá fora, conversando com o médico. Você sabe disso. Pare de tramar contra o casamento de sua filha — falou com severidade para a mulher, já cansado de tantas implicâncias. — Desse jeito você só irá piorar a situação, faça algo para ajudar e não para atrapalhar.
Rita pensou em responder o marido à altura, mas vendo a filha em tão delicada situação, preferiu nada dizer.  Afastando-se para a janela, pensava em como fazer para ter a filha de volta a sua casa.
Fernanda percebeu o clima de descontentamento dos pais em relação ao que ocorria com ela e seu marido, mas fingiu indiferença, não queria aborrecê-los ainda mais. Tinha a consciência de que causara muitos problemas e não queria aumentá-los. Pensava ainda, quando Jean entrou no quarto. Sentiu vontade de atirar-se aos braços dele ao mesmo tempo em que queria esmurrá-lo com toda a sua força. Cismava no que ele iria dizer, se iria desculpá-la ou culpá-la pelo que aconteceu.
Jean, calmamente, caminhou em direção ao leito, cada passo parecia durar uma eternidade. Da janela, Rita o fitava rancorosa, enquanto Pedro afastava-se da filha. O coração da jovem acelerava. Seu amor era tão intenso que a simples presença dele fazia estremecê-la completamente. Delicadamente, ele tocou sua testa, arrumando os cabelos que lhe encobriam o rosto. Apertou suas mãos delicadas e beijou-a, suprimindo as preocupações que atormentavam suas mentes.
O silêncio dominava o quarto e ninguém parecia disposto a encerrá-lo. Apenas uma palavra dita em má hora poderia estragar a magia do momento e tudo voltaria à amargura e tristeza de antes. Minutos depois, Jean quebrou o silêncio.
— Vamos embora!
— Podemos? — perguntou ela, chorosa.
— Sim, podemos. Já conversei com o médico. Não há problema em partir agora, desde que você siga as prescrições médicas — alertou. — Vamos, levante para se arrumar.
Virando-se para o sogro, Jean, discretamente fez um sinal para que ele o acompanhasse para fora do quarto. Sem despertar suspeitas, os dois saíram, alegando que iriam à recepção cuidar dos documentos para a liberação.
— Pedro, eu não sei bem como dizer, mas acho melhor levar-mos Fernanda para sua casa. O que aconteceu ontem me pegou de surpresa e não tive tempo para arrumar o estrago que ela fez. Tenho muito medo de que ao ver o caos que ela fez, tenha uma recaída. Tenho certeza que em sua casa, ela poderá superar esse problema, já que as lembranças virão com menor intensidade. Não sei se você pode me entender, mas estou muito preocupado com ela.
— São esses os verdadeiros motivos para levá-la para longe de casa — questionou, pois desconfiava de que o genro escondesse alguma coisa a respeito da noite passada.
Jean ficou em silêncio, buscando um jeito de fazê-lo aceitar sua idéia, sem que com isso parecesse querer transferir as responsabilidades. Rompendo apressadamente a mudez, disse de imediato:
— Sim, são esses os motivos, nada mais. Temo que ela se aborreça com o estado em que se encontra a casa. Não se preocupe, pedirei a Jurema que limpe tudo.
— Jean — insistiu — fui amigo de seu pai e sou seu amigo, gosto de você como se você fosse o filho que não tive, portanto não me esconda nada, sei que está mentindo. Está estampado em seu rosto, filho. As mentiras não duram para sempre e quando a verdade vier à tona será difícil consertar os erros. Confie em mim, diga quem é ela? — Perguntou, não acreditando no que o genro lhe dizia.
— Ela? — surpreendeu-se. — Ela quem?
— Não se faça de desentendido, rapaz! Está claro que você tem uma amante. Já faz algum tempo você está diferente, frio com minha filha, sempre inventando desculpas para não fazer os programas que faziam juntos — parou, olhando-o com cumplicidade. — Diga quem é ela, ficará entre nós. Depois procuraremos um jeito de amenizar o problema, quem é ela — insistiu.
— Pedro, por Deus, eu não tenho amante, juro. Nunca a traí! Isso nunca passou pela minha cabeça — respondeu confuso, sem acreditar no que ouvia.
— Não estou aqui para repreendê-lo, quero apenas ajudá-los. Se não há outra mulher, o que o atormenta tanto? Qual é o seu problema?
— Desculpe-me, mas não posso dizer nada a respeito ainda — lembrou-se do que Rita disse na recepção do hospital e achou melhor controlar sua curiosidade. — Não sinto ainda a segurança necessária para revelar o que me tira o sono. Talvez, outro dia possamos conversar sobre isso — continuou, terminado o assunto.
— Eu não devia, mas vou confiar em você. Não direi nada a Fernanda sobre esta conversa. Em outra oportunidade retornaremos a este assunto e você contará o que tanto o aflige. Não pense que esquecerei, quero uma explicação convincente ou não farei o menor esforço para que minha filha tire essa idéia de traição da cabeça — disse perturbado com o mistério de Jean. O que ele está escondendo; cismava.
O tom autoritário de Pedro o deixou amedrontado. Teria de encontrar um meio para que o sogro não lhe escondesse a verdade, mas não sabia como. Pelo que ouviu na recepção, os sogros conheciam muito mais da vida de Charles do que ele próprio. Mas como fazê-los contar o que sabem; pensava, seguindo pelo corredor.
Retornaram ao quarto depois de alguns minutos. Decidiram levá-la à casa dos pais. Fernanda não gostou da decisão tomada pelo pai e pelo marido sem o seu consenso, mas a aceitou sem questioná-los.
***
Saindo do hospital, uma das enfermeiras chamou por Jean e, sem deixar que os outros percebessem, entregou-lhe um pequeno pedaço de papel dobrado. Ele rapidamente o abriu e ao ler o que estava escrito, balançou a cabeça negativamente. Agradeceu, colocando o bilhete no casaco sem dizer uma palavra, apressou-se para alcançar a esposa.
Já no estacionamento, Rita o interrogou:
— O que ela queria?
— Esqueci o cartão de crédito — mentiu.
Entraram no carro e deixaram o hospital sumir pelo retrovisor.
Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 04/06/2006
Código do texto: T169423

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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