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As profecias de Mirtes

     
    Há séculos atrás,em um dos muitos reinados que compuseram o Período Medieval na Europa,conta-se a respeito de uma velha senhora,de nome Mirtes,que decidira viver solitária numa caverna.Algumas vezes,de tempos em tempos,dizem que ela saía do interior da tal caverna e sentáva-se num tronco de árvore antigo às margens do caminho que conduzia à uma das maiores vilas dentro dos domínios de Eduardo III,rei de França.

     Era de todos conhecido e,muito difundido,o poder que Mirtes possuía sobre o futuro.Sua fama,diziam,ia  muito além de apenas predizer os fatos que se sucederiam;afirmavam que ela podia mudar o futuro das pessoas apenas desejando fazer isso.

     Os cidadãos do reino,aqueles considerados como os mais felizes,eram justamente aqueles que contavam a sorte de um dia tê-la encontrado.Mas quando perguntados sobre o que ela lhes haviam dito,eram unânimes em se calar.Aconselhavam,porém,que todos os que buscassem a felicidade fossem procurá-la.

     Um serviçal do rei Eduardo,acompanhante do príncipe herdeiro Ricardo,na ambição de vir a se tornar um importante membro da côrte,posto que tanto almejava,decidiu procurar essa tal senhora,assim que a fama dela pareceu-lhe convincente pelos diversos testemunhos."Vou pedir-lhe o trono,e se ela puder executar tal proeza em meu favor,sou capaz de dar-lhe metade de todos os meus futuros bens".Dizia Bernard,o serviçal,consigo mesmo.

     Nesta cobiça,alimentada em grande parte pela inveja,o coração de Bernard não cedia sequer ao amor que sentia pela bela Anne,dama de companhia da princesa Charlotte da Espanha,que passava algum tempo no país da França.Todos os esforços,desta digna jovem,de nada adiantavam quando a paixão de Bernad pelo poder e fortuna eram tão desmedidos.

     Tomando,certa tarde,uma das carruagens de uso do rei,Bernard seguiu pelo caminho onde se dizia poder encontrar a mulher de palavras proféticas.Após chegar ao local determinado teve de esperar muito.Por impulso entraria na tal caverna e a traria para fora a força de apelos,mas fora aconselhado a não tomar outra atitude que não a de ter paciência e,em última instância,desistir e retornar outro dia.

     Bernard sorriu,largamente,ao vê-la despontar e aproximar-se do velho tronco,sentando-se.Ela mirou-o profundamente.

-Vá e sejas feliz!-Ela disse-lhe,voltando em seguida ao interior da caverna.

     "Como assim?...É só isso?!",ele pensou alto,fechando o sorriso,muito decepcionado.Já de volta à vila ,o mais rápido que pôde,interceptou um soldado,seu conhecido:

-Diga-me,o que aquela mulher lhe disse para que fosses assim tão feliz?
 
-Já disse,não o posso revelar!

-Como não?Se estou aqui a te pedir é porque preciso muito saber.Não só do que ela disse a ti,mas a muitos outros pretendo interrogar,pois a mim de nada valeram as palavras dela.

-Por favor,sr.Bernard...

-Te ordeno,da parte do rei,que me digas o que ela te revelaste!Quero comprovar se,porventura,sou acaso um idiota aos olhos dela ou menos digno,que tu e os outros,de receber
uma palavra a meu contento.

-...Mas o rei Eduardo nunca pareceu tocado pela existência dessa senhora;senão antes,por que ele interferiria agora?

-À um pedido meu ele interferirá.Sabes como sou influente e lido diretamente com os poderosos do castelo.Queres mesmo experimentar a desdita de minha inimizade?

-Sr.Bernard,não entendo o motivo de tamanha insistência.

-Por que relutas tanto?Acaso ela te proibiu de relatar qualquer coisa?

-Nunca...mas foi sempre costume,entre os agraciados,guardar segredo.

-Não mais à partir de hoje!Fala,homem!!

     Com o semblante consternado,o soldado baixou a cabeça e murmurou:

-"Vá e sejas feliz!",foi isso o que ela me disse.

-Como?!Não posso crer no que ouço!Foi isso mesmo o que ela disse a mim!-Bernard parecia muito irritado.

-Então,não te tortures mais.Acredite nas palavras dela.

     Sem prolongar o diálogo com o soldado,Bernard saiu pela vila interceptando tantos quantos sabia terem estado com Mirtes e, por meio de ameaças e imprecações,conseguiu realmente que todos lhe dissessem o que queria ouvir.Para seu maior espanto,o segredo,guardado por todos,era aquela mesma única frase: "Vá e sejas feliz!".

     Tomado de cólera voltou ao mesmo caminho onde Mirtes costumava aparecer e,penetrando a caverna,arrancou-a de lá à força brutal,acusando-a de farsante."Vá e sejas feliz!" Foi a única resposta dela.

     Neste interim chega um jovem,trajado suntuosamente,por certo um príncipe de outro reino e,sem se dar conta do que estava acontecendo,achega-se de Mirtes,praticamente de joelhos e recebe dela um sorriso com a sentença:"Vá e sejas feliz!".O rapaz sái saltitante de alegria,toma sua montaria e,mesmo à certa distância,ainda ascena agradecido.

     Bernard ficou consternado ao comprovar a terrível realidade de que todos haviam sido "enganados",quando minutos depois,notou que a fisionomia e os gestos daquela mulher,em tudo refletiam a postura de uma louca;Mirtes era incapaz de dizer outras palavras que não aquelas:"Vá e sejas feliz!".Com grande pesar,principalmente por si mesmo,ele lança um último olhar para a mulher insana e parte.

     Não bastasse sua desolação,foi vítima de ladrões saqueadores quando voltava para o palácio.Além de levarem a carruagem,deixaram-no ferido por flechas.Uma,apenas por sorte,não roubou-lhe também a vida quando atingiu-lhe gravemente no pescoço.Foi socorrido por um jovem,que passava à caminho do campos pastoris.

     Dias depois,tendo sido cuidado pelo jovem e sua família,Bernard pediu que o rapaz o ajudasse a chegar ao castelo,no que foi atendido prontamente.Muitos membros da corte já davam-no como morto,tantos dias estivera ausente.Felizmente,ele já estava de volta a seus afazeres.Em agradecimento,Bernard ofereceu alguns dias de pousada ao jovem,que nunca havia estado naquela vila antes.

     Só quando sua saúde estava completamente restituída é que Bernard se deu conta de que,graças ao ferimento causado pela flecha,não podia mais falar.Ainda lastimando-se por mais esse infortúnio,vê sua amada,Anne,em companhia do jovem camponês que o ajudara.Ele parecia estar conquistando-lhe o coração,mas "Em que isso devia importar-lhe?"-pensava.

     Muitas e muitas vezes,em suas andanças pela vila,ele se deparava com aquelas pessoas sorrindo,conversando,tão felizes,como ele não podia estar.As vezes era tão grande a fúria que sentia que bem desejaria ver aqueles sonhos esmagados...Ah,se pudesse falar,contaria-lhes quem era realmente a tal "profeta" que lhes havia prenunciado felicidade.

     Meses depois,o suposto assassinato da princesa Charlotte da Espanha e a prisão de seu assassino,trouxeram á tona uma série de revelações.Quem havia morrido era a dama de companhia da Princesa,que desde o principio se fizera passar por ela.Anne,era na verdade a princesa Charlote que,ameaçada por inimigos de seu pai,estava se escondendo na França até que fosse capturado aquele que havia sido enviado para tirar-lhe a vida.Com a captura dele também o mandante de tal crime foi desmascarado.

     Anne,ou melhor,Charlotte voltou a Espanha com a permissão dos pais para elevar ao trono consigo,aquele simples camponês,que a despeito do que ela mesma acreditava,conseguiu banir de seu coração a desventura provocada por Bernard e ao mesmo tempo conquistar-lhe de vez o coração.

     Ao tomar conhecimento dos fatos,desesperado,Bernard só pôde desejar a morte.Sua vida era uma grande ironia,pensava,pois tudo demonstrava que ele estava realmente "predestinado" a felicidade que sempre sonhara.Mirtes,mesmo em sua ignorância a respeito do futuro,prestava um favor aos que dela se aproximavam,porque ao acreditarem nela,as pessoas deixavam de se preocupar com a "tal felicidade que chegaria" e acabavam descobrindo a verdadeira felicidade,oculta sob o véu de cada dia.

     A FELICIDADE PODE ESTAR NA BANAL CONDIÇÃO DOS ACONTECIMENTOS E DOS SENTIMENTOS MAIS SIMPLES.NO ENTANTO SÓ É POSSÍVEL VÊ-LA QUANDO NÃO A ATROPELAMOS COM OS DESVANEIOS DOS DESEJOS QUE JULGAMOS SER A "TAL FELICIDADE QUE PROCURAMOS".

      ....Vá e sejas feliz!

       
Heli Paula
Enviado por Heli Paula em 04/06/2006
Reeditado em 05/06/2006
Código do texto: T169575
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Sobre a autora
Heli Paula
Campos dos Goytacazes - Rio de Janeiro - Brasil, 38 anos
225 textos (9589 leituras)
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Heli Paula