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ÀS VOLTAS COM O MUNDO CÃO

As Pirâmides do Egito foram construídas a porretadas ( onde   o corpo
humano foi amortecido sob imensos rolos de pedras que constituíam  verdadeiras montanhas), pelo sangue dos seus interlocutores escravizados,atualmente expostos como heróis aos turistas, que se reclinam e  valorizam aquela obra arquitetônica.  Este sangue seco, jaz nas paredes e ápices, glorificando as façanhas ou lembranças idas...somente como lembranças, pois ninguém ousa permanecer nos escombros, sem escutar vozes estranhas clamando por sentença para os reis adormecidos em sarcófagos, sob pesadas colunas esmagando-os, como os que hoje dormem à luz dos refletores, desassistidos, entupidos os ouvidos, isolados da voz do jardineiro de apito na mão, traçando diretrizes para  aniquila-los  dos seus  domínios, qual   peste bubônica, serpentes venenosas, ou urinós que não cumprem mais nenhuma função.  Seres em degradação, atingidos por raios de trovões ardentes, qual viga acesa, que lhes tira o direito, o controle e impõe-lhes a invalidez.
      O mundo-cão prepara o bote, lança-o, mostra a força, atormenta e fá-los desperceberem-se dos riscos proximamente, ávidos. -Nesta cidade- em cada feição um clamor; na esquina um ladrão; no sinal, guardas corrompendo motoristas de táxis e carros particulares.    Há efetivamente um buraco na rua Figueiredo Magalhães,outro na Santa Clara... pivetes recolhendo, afanado dinheiro das bolsas das senhoras   desocupadas,que perambulam pelas ruas vendo vitrines em dias chuvosos.  Nos Super-mecados, os preços voam tão altos quanto os foguetes, e as praias ficam sempre lotadas mesmo em dia de segunda-feira.  Do Pão-de Açúcar pode-se ver claramente  a sujeira borbulhando junto aos  cascos dos navios,  fermentando focos; alimentando cardumes logo mais, estendidos nas bancas das feiras livres. As barcaças vão e voltam, despejando lá e cá multidões de cadáveres vivos mal alimentados, cujos timbres, identificam-se pela tosse crônica conservada no peito fervente esmaecido, dos filhos da terra dos “papa-goiabas” quase sempre fortificados nos conteúdo dos panelões aluminizados das carrocinhas que vendem angu na Praça XV e nas laterais da Praça Mauá – ponto dos contrabandistas e da malandragem carioca.  Lá o diabo esconde o  chifre, no afã de aperfeiçoar o clã e aumentar o prestígio.  Os passantes são contorcidos a entregar o que têm aos bicheiros, homens de farda, camelôs, paralíticos, cegos, ou a exóticos tipos físicos que disputam moedas dos milhares que trafegam a esmo. Completando o quadro, o esmoler que usa na perna um pedaço de fígado podre, envolto  em tiras  para  impressionar  e emocionar aos caridosos andarilhos. Como se não bastasse, não é raro do alto dos edifícios,  estatelarem-se corpos despedindo-se e   mergulhando no vazio – fórmula que encontram para se libertarem dos patrões, cobradores,  ou de suas histórias de amor! Por outro lado surge a Ponte Rio Niterói inaugurando mais um ponto de encontro dos desiludidos da vida.  Atualmente, as cadeias não impressionam mais aos malfeitores; muito frágeis, proporcionam-lhes constantes fugas, em que usam até helicópteros- o fino da sofisticação.  Aqui fora o feijão não frequenta tanto a cozinha dos pobres e o leite não se deixa mais ser bebido por qualquer um.  Os hospitais são câmaras mortuárias infectadas, apontando para o necrotério. – Uma senhora internada num   desses, solicitou ao seu filho, sua transferência para um outro, onde pudesse morrer em paz, pois  tornava-se insuportável, ter que assistir ao   passamento de um   moribundo, todas as noites colocado ao seu lado e pela  manhã  retirado morto;  com isso o seu estado de saúde mais abalado se tornara.  Sua transferência foi providenciada para uma unidade do Exército, onde o sacerdote que lhe distribuía a unção dos enfermos pouco caso fazia do seu sofrimento; a cada suspiro de morte, aconselhava    pôr “lubrax 4” no coração, para em vez de pifar, fazer: “Pif-paf!...  Pif-paf!...” Mesmo assim, a alma não  abriu exceção: deixou o corpo que no cemitério, por falta de um documento, entrou pela escuridão da noite à beira da sepultura, até o amanhecer do dia seguinte.  Na capela mortuária do andar de cima, uma senhora transparecia sua dor, lamentando a morte de uma amiga, parecia histérica. Começando a beijar a morta pelos pés, ao alcançar a cabeça, levantou o lenço que cobria o rosto, só aí, verificou não se tratar da morta por quem tanto chorava, pois ela jazia na câmara ardente no andar de baixo.  Para lá se dirigiu muito acanhada, depois de enxugar os olhos. – Caso idêntico aconteceu comigo;  como representante, compareci a um velório. Deslocado e sentindo-me estranho, alguém se aproximou de mim e perguntou: - Você é amigo do meu pai? – Ao que respondi – trabalhamos junto no Colégio. – Ela arrebatou: - Meu pai trabalhava no Cais do Porto; ele era Fiscal de Renda, não professor. Outra vez assisti ao sepultamento  de um motorista, pensando ser um aluno; na pressa, alguma coisa não funciona . Nas Cidades do interior, as crianças tinham costume de sepultar as outras crianças.  Num desses enterros, comecei a me encher de pavor, ao atentar para o caixão azul sem tampa; os olhos esbugalhados sobressaindo às flores brancas que enfeitavam o corpo,soltei a aselha do caixão, o que fizeram os outros amigos e nos pusemos a correr, deixando o defuntinho a rolar estrada abaixo; o último a correr, rolou junto. “O mundo cão cria situações embaraçosas.
Zecar
Enviado por Zecar em 15/05/2005
Reeditado em 01/07/2016
Código do texto: T17030
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Zecar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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