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Inesquecível

Ela bateu a porta do Escort 92. Bateu de novo e mais uma vez. Então fechou. Sentia-se cada dia mais insatisfeita com este velho amigo.

Marina tentava mantê-lo sempre em dia, mas o tempo o condenava mesmo assim. O mesmo também lhe ocorria. Ela, um modelo 75, começava a observar-se com mais preocupação diante do espelho.”Essas pálpebras já foram mais altas”. Forçava um sorriso e contava quantos traços formavam-se ao redor dos olhos. “Toxina botolínica ? Deus que me livre!”. Ia dormir todas as noites com o rosto coberto de Renew.

Após fechar a porta ativou o alarme. Uma ajeitada no vestido, verificou se  os dentes não estavam manchados de batom, respirou fundo e adentrou ao restaurante. O ambiente era agradável, bem iluminado, não muito grande, mesas bem posicionadas, cadeiras forradas em veludo garantiam um certo requinte ao lugar.

Um ponto para Leandro, tinha bom gosto, soubera escolher muito bem o lugar para um encontro como aquele. Ele já a aguardava em uma das mesas. Ao avistar-lhe, veio a seu encontro. Era gentil também. E como estava bonito! Vestia um impecável blazer marinho, muito bem cortado, a camisa de linho dispensou a gravata e a calça jeans completou a elegância despojada. Beijou-lhe suavemente o rosto e conduziu-a ata a mesa.

Leandro era amigo do primo do marido da melhor amiga de Marina, a Luiza.

Elas eram amigas desde a  adolescência. Pati e Vivi também faziam parte do grupo. Pati casou-se com um empresário inglês e foi morar em Londres. Vivian já estava no segundo casamento e participava semanalmente do encontro de casais, junto com Luiza e o marido. Marina aparecia vez ou outra, pois estava sempre desacompanhada, destoando o grupo, o que a encabulava imensamente. A proposta chegou no último encontro destes:

- Desta vez, tenho certeza que vai dar certo! – Afirmou, excitada Luiza. – O Leandro é lindo e charmoso, você vai amar, Marina!
- Lindo, charmoso e solteiro! Só pode ser gay, Luiza!
- Claro que não, Ma. Ele só é seletivo! E agora nem adianta, eu já confirmei a ele que você iria, não vai furar, heim!
- Ah, você confirmou! Agora então, você é minha agente matrimonial!
- Eu não marquei seu casamento, sua tolinha! É só um encontro de negócios. Você quer comprar um apartamento, e ele é corretor. Só isso! E como você é muito ocupada, só poderiam conversar num sábado a noite.

O sábado a noite chegou e lá estava Marina. Se sua sobrinha estivesse ali iria dizer que aquele homem é “tudo de bom!”. E ela teria toda a razão.

O jantar desenrolou-se normalmente. Conversaram sobre várias coisas além de imóveis. Leandro era notável por sua inteligência e habilidade com as palavras. Entendia-se porque era bem sucedido. Luiza tinha razão também. Ele era lindo, charmoso e muito mais... Despediram-se trocando telefones.

Ela desativou o alarme, entrou no carro e bateu a porta com força.

Ali ficou, inerte, olhar perdido, distante...

Tinha raiva de si mesma, jamais iria conseguir livrar-se do fantasma que a assombrava! Leandro não era ele. Nenhum outro seria como ele.
Ligou o rádio. Laura Pausini cantava: “Inolvidable para mi... Tu no me dejes más...”.

Com os olhos marejados de água, partiram. Ela e o Escort 92, eternamente juntos, rumo ao vazio que ele deixou.


Catia Schneider
Enviado por Catia Schneider em 07/06/2006
Reeditado em 29/03/2016
Código do texto: T170968
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Catia Schneider
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 38 anos
147 textos (33308 leituras)
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Catia Schneider