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“Pedro ou O Conversador de Estátuas”


   Impavidez, eis a mais nobre das virtudes. O dom de permanecer impassível, imperturbável numa intransponibilidade pétrea diante de quaisquer circunstâncias é algo que, positivamente, invejo.
   Sobretudo para mim, que sou da família das manteigas; que me liqüefaço ao menor arrufo; que me coço ao mínimo graveto que me roça a aura;  que o simples resfolegar da brisa faz trepidar como marmelo verde essa minha natureza susceptível. Diria, mesmo, susceptibilíssima.
   Mas, não. Não admiro a frieza, a indiferença ou a sisudez, mas um silêncio pétreo e profundamente respeitoso ante as mazelas e a miserabilidade humana, o qual eu já dera por extinto em meio a algazarra das soluções objetivas e vazias.
   No entanto, quando, há algum tempo, vinha já eu me divorciando do convívio do mundo dos homens, um encontro - extraordinário - me teria proporcionado uma experiência singular.
Fora em um parque, aqui próximo. Era ele alto, um tanto mais do que eu. Sua cabeça se erguia a pouco acima de um metro e noventa. Não era tanto que o distinguisse dos arbustos que o circundavam, mas já o suficiente para  conferir-lhe certa altivez.
   Era um dia sombrio e pluvioso. Eu padecia, aliás, como de hábito, daqueles humores melancólicos e modorrentos. Uma vontade de desabotoar o colete e com o auxílio de uma espátula, cavar, cavar fundo, até que se soltassem todos os botões... e o vil instrumento, por rude, subalterno e perfurante, lograsse a outra extremidade... Ah! ...  mas isso, por ora, deixemos de lado!
   Foi quando o avistei. Estava lá, alvo, imponente e, sobretudo, impávido como a neve - que não havia. Aproximei-me, como que encantado, petrificado e, sem saber bem o porquê, pus-me a falar-lhe, como num impulso incontrolável. Sim, eu, palrador contumaz, falei-lhe. Falei-lhe de mim, de minhas botas, de meus botões, enfim, era como se fôssemos íntimos amigos. Disse-lhe, admito, coisas que nem a mim mesmo ousara antes confessar.
Perguntam-me: respondeu-lhe? Não. E precisava? O fato é que criou-se entre nós uma forte e sincera amizade. Não dessas que se alimentam de galanteios e lisonjas. Ou de outras, que sobrevivem pela troca de favores e vantagens. Não! Tratava-se de um encontro verdadeiro, existencial, sólido, solidário.
   Da visita fez-se o hábito. Passei a freqüentar a praça. Digo-lhes, sim, antes que me indaguem, que converso estátuas. E antes que me acusem os gramáticos, devo adverti-los que sou avesso a pleonasmos. Ora, se conversar é “versar com”, pois digo, sim, que “converso estátuas”. E eis aí um hábito que recomendo a qualquer ser humano que preze um bom e vero relacionamento.
   Alegarão alguns, e com certa razão, não se tratarem de tipos, propriamente, loquazes. A isto, respondo eu que, em contrapartida, são excelentes ouvintes. Sem dúvida, os melhores. Jamais torcem a cara para qualquer assunto. Nunca demonstram enfado, pressa ou irritação e, além disso, e o que é melhor, são incapazes de interromper a narrativa com algum petulante conselho ou uma impertinente sugestão. Juro jamais ter conhecido uma estátua que repetisse o velho clichê: “pois comigo também acontece a mesma coisa...” Arre, como eu detestava isso! Ou, ainda, “olhe, rapaz, deste jeito você acaba se dando mal...” Ou mesmo, “vai por mim, vai, que o que digo é a mais pura verdade...” Ou pior, “que nada! Bobagem! Sorria, que isso passa!” Eu quis muitas vezes trucidar os meus interlocutores por essas e outras frases de efeito e presunção moral, no mínimo, refutáveis.
   Um dia, passando pelo chafariz da avenida, pousei meus olhos sobre os de um desses exemplares de bronze e percebi algo. Sim, fora estarrecedor, mas conheci que não seria preciso mais ir ao parque para encontrar o meu amigo. Pois ali estava ele. Eram os mesmos olhos, a mesma alma, portanto, que eu vira antes. Corri ao pátio da biblioteca, ao adro da igreja, às escadarias da câmara de vereadores... E em todos esses diferentes lugares, havia aqueles mesmos olhos impassíveis, serenos e pétreos que o caracterizavam. Sim, nesse dia entendi que todos são um só. Então, eu disse: “tu te chamarás Pedro e sobre ti edificarei o meu silêncio.” Sim, o silêncio empático como único antídoto saudável e honesto para a cruel obviedade dos homens.
   Desde então, todas as estátuas são, para mim, Pedro. Eu as descobri como partes de uma entidade uni-consciente. Pedro era, para mim, a única, verdadeira e concreta liturgia.
É evidente que eles possuem suas peculiaridades individualizantes. Há Pedros militares e heróicos; há Pedros políticos e circunspectos; há outros, beatos e angélicos; outros, ainda, simplesmente decorativos. Mas todos eles, sejam frios e marmóreos ou plumbeamente sólidos; quer guardem a nobreza do bronze ou a singeleza da pedra-sabão, serão, para mim, simplesmente, Pedro. Pedro, meu amigo. Pedro que me escuta, que me compreende. E quando não, ao menos, me aceita. Sobretudo, jamais me censura.
   Certa noite, trazia eu o peito encharcado de paixão e mágoa pelo cruel desprezo da bela e inatingível Petruska e, metade por desvario, metade por cálculo, desandei a proferir impropérios e licenciosidades. Desvelei, mesmo, as minhas fantasias mais obscuras e torpes. Sim, eu, em meu delírio psico-erótico, descrevia, com detalhes anatomo-fisiológicos, os meus desejos carnais para com a ingrata, dando a cada coisa o nome que ela tem, num discurso de fazer corar um Casanova ou um Calígola.
   No entanto, Pedro, em sua imperturbabilidade sidérea, limitou-se a ouvir-me com a atenção de um devoto e a serenidade de  um frade.
   Pois se me fosse outro o interlocutor! Ah, por certo me haveria de repreender os excessos e de adequar-me a algum apodo de caráter menoscabante ou vergonhoso, para, logo mais, já no anonimato de sua alcova, exercitar os punhos sob o efeito de minha fertilíssima imaginação, num exemplo acabado e deplorável de hipocrisia moral.
   Mas, não Pedro! Pedro, não! Pedro não me julga. Pedro não me qualifica. Pedro me sabe humano e, como tal, falível, impuro, mesquinho, ímpio, sórdido, por vezes também, sublime, mas, sobretudo, homem.
   Ah, um dia eu também me chamarei Pedro. Quando todos esses fulgores serão silenciados pelo tempo, esse feroz devorador de sonhos... Quando o desassossego e a inquietude tiverem se amainado na profundidade amena de uma lápide, eu terei essa mesma expressão, imperturbável, sólida. E não mais julgarei meus semelhantes. Então, também eu me chamarei Pedro e terei encontrado o silêncio inexpugnável, eterno, sólido e solidário.
                                               

 Rio, Janeiro de 2004

Antonio Sciamarelli
Enviado por Antonio Sciamarelli em 08/06/2006
Código do texto: T171940
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Sobre o autor
Antonio Sciamarelli
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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