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UM MUNDO PERDIDO


Estive viajando um dia destes pelo passado e encontrei uma casa abandonada.
O mato crescia ao seu redor e as janelas estavam todas quebradas.
A escadaria tinha muitos degraus danificados.
Havia um lustre meio dependurado no hall de entrada.
O piso estava todo coberto de pó e os móveis carcomidos pelos cupins.
Entrei num quarto que me pareceu ser o mais iluminado da casa.
Uma cama larga me recordou a mulher que se deitava nela.
O espelho estava trincado e tão manchado!
A janela estava aberta e notei que se quebrara toda.
O vento balançava uns trapos. Havia sido uma cortina aquilo.
Aproximei-me para ver a paisagem e era linda.
Os morros que eu avistava dali, os campos de um lado, e os cafezais do outro a se perder de vista tocavam meu coração.
Um pássaro, com seu canto triste, veio me despertar das lembranças.
Afastei-me da janela e voltei à sala.
Os móveis estavam cobertos com uns tecidos empoeirados. Fui retirando um a um e a poltrona estava inteira.
Sentei-me nela e recordei alguém.
A lembrança me trouxe a sensação deliciosa do reencontro.
Uma mão invisível tocou suavemente meus cabelos e de olhos fechados fiquei entregue à lembrança e àquela presença etérea.
Durou um tempo aquilo. O tempo de sentir a paz daqueles tempos. As noites tão antigas que me voltavam.
Lentamente fui escorregando da poltrona e me aproximei da lareira meio cambaleante.
Não havia lenha, mas o fogo morava em minha lembrança.
Uma taça de vinho na mão de alguém. As palavras calmas. Tão doces!
Eu sabia daquele tempo e sabia que estava entrando num mundo perdido.
Eu me aproximei de um móvel escuro e abri as portas. Os livros estavam todos ali ainda.
Fui abrindo um a um e sabia que no meio de um deles encontraria uma carta.
Eu a li e as lágrimas corriam.
Uma fotografia bem antiga também caiu aos meus pés.
Peguei-a e apesar de amarelada pude ver beleza nela.
Um riso de alguém que amei.
A noiva do retrato permanecia com o rosto meio sério e o rapaz sorria.
Estava escrito em seu rosto do orgulho que sentia em estar com aquele braço apoiado no seu.
Guardei os livros, abriguei a carta nas aconchegantes folhas velhas. A fotografia também deixei guardada. Fechei delicadamente as portas do velho móvel e me afastei dali.
Encostei a porta e parti.
Lamentei, entretanto, o mundo que perdi. Lamentei o mundo que deixei ali.

Soninha




SONIA DELSIN
Enviado por SONIA DELSIN em 16/01/2005
Reeditado em 24/03/2011
Código do texto: T1728

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Sobre a autora
SONIA DELSIN
São Carlos - São Paulo - Brasil
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SONIA DELSIN