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A CAPELA


Num determinado ponto de meu sonho eu descobri que estava sonhando. Foi quando vi a capela.
Bem, vou começar do começo que é onde começam as coisas.
Caminhávamos, dois homens vestidos de roupa marrom dos pés à cabeça, e eu, igualmente vestida.
Um era moreno, olhos oblíquos, barba cerrada, mas muito bem aparada; nariz aquilino, testa ampla. Extremamente bonito. Deixava um cigarro no canto da boca e as mãos peludas me impressionavam. Vestia uma roupa que recordava a guerra, roupa militar, as botas por sobre a calça eram marrons e estavam tremendamente empoeiradas, mas eram marrom sim.
Ele caminhava ereto, a mochila nas costas não parecia ter peso para ele, já que era um homem forte.
O que caminhava à minha direita era louro, olhos verdes, franzino. Tinha uma barba longa. Caminhava com dificuldade e não fumava. A fumaça do cigarro do moreno o incomodava, como o pó o incomodava. As pedras do caminho...
Tudo parecia enfadá-lo.
Eu ia no meio... o pó me sufocava, a fumaça também, mas estava consciente que tudo fazia parte. Que não podia mudar e então enfrentava.
O vento castigava e as folhas de cana faziam um barulho gostoso de ouvir. Barulho de vida...
A estrada parecia não ter fim e caminhar ao lado deles era bom e ruim.
Eu podia ficar olhando o caminho e ninguém dizia nada. O moreno ia imponente e o loiro mal podia se levar.
Num determinado ponto da estrada eu vi a capela e pedi que parássemos.
O moreno me falou com uma voz de barítono se era o que desejava mesmo e eu concordei com a cabeça. O loiro nem disse nada. Suspirou.
Paramos e fui descobrindo dentro de meu sonho que conhecia aquele lugar.
Entramos e pude ver a cabeça da santa no altar coberta com um tecido que um dia fora branco, mas que no momento estava marrom. Marrom do pó da estrada. As flores todas estavam cobertas de pó e havia tocos de velas espalhados pelo chão.
Desejei faxinar a capela. Retirar o tecido empoeirado.
O moreno, como que lendo meu pensamento, retirou-o e pude ver um rostinho lindo.
Nunca conheci santos e não saberia dizer que santa era aquela, mas era bonita!
Ajoelhei e o loiro fez o mesmo. O moreno ficava a olhar tudo.
De olhos voltados para aquela figura eu comecei a chorar... ela estava me esperando há tanto tempo. Eu estivera lá um dia e prometera voltar.
Parecia-me que ela estava a me olhar.
Passado e presente se misturavam e no sonho eu sabia que nem o tempo era o que se mostrava. Nada daquilo existia, mesmo tendo existido.
O moreno foi saindo... caminhando... sumindo e o loiro logo atrás...
Eu os vi desaparecendo e vi a mim mesma sentada entre os tocos de vela, olhando para aquela santa que parecia me dizer que tudo era uma fantasia. Que na verdade nada daquilo existia.

Soninha


SONIA DELSIN
Enviado por SONIA DELSIN em 16/01/2005
Reeditado em 24/03/2011
Código do texto: T1729

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Sobre a autora
SONIA DELSIN
São Carlos - São Paulo - Brasil
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SONIA DELSIN