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A Lenda do Pé-Grande

Com certeza, alguma vez na vida, já deves ter ouvido falar de alguma história sem pé nem cabeça, sobre seres fantásticos que ninguém nunca soube se existiram mesmo... Pois esta que vou te contar é apenas mais uma, sobre um animal muito comentado em vários lugares do mundo. É a história de um bicho... meio bicho, meio gente, bastante raro nos países do norte, e que, há bem pouco tempo, nem se sabia que existia também ao sul do planeta! Esta pequena história parece mais uma lenda estrangeira que virou causo gaudério!
Contavam os mais velhos, que no interior da mata subtropical brasileira, vivia o tal bicho de que falo, ou melhor: bichos, no plural, pois apesar de poucos, há uns trinta anos atrás ainda não estavam ameaçados de extinção e, acredita-se, viviam em pequenas comunidades, escondidos em ‘canyons’ e grutas onde é muito difícil chegar. Hoje, sabe-se que esse comportamento medroso não tem muito a ver com o instinto do bicho. Por exemplo, um pequeno grupo deles permaneceu acuado por caçadores na mata desta típica cidadezinha do interior, bem ao sul do Brasil. Com o passar dos anos a população desta espécie foi diminuindo, diminuindo..., talvez por doenças transmitidas pelo homem através da água poluída ou por causa do desmatamento, já que não se tem notícia de que os caçadores tenham conseguido matar algum deles. O que se sabe é que algumas pessoas teriam levado belos sustos ao encarar a figura de um enorme monstro peludo que andava de pé, como uma pessoa. Assim, aos poucos, aqueles pobres bichos foram morrendo até restar apenas um animalzinho, ou melhor, nem tão ‘inho’ assim, mas certamente, o mais jovem deles, ainda um bebê. Mas essa é uma história um pouco antiga e que hoje em dia ninguém sabe contar direito.
Desde então nunca mais se ouviu falar do bicho, segundo o que o vovô Gaudêncio nos contou. Na verdade, quem mais ouvia falar sobre o Pé-Grande – como assim o chamávamos – éramos eu e meus primos. Eram histórias que ouvíamos atentamente à beira do fogo de chão quando a família se reunia no sítio onde o velho Gaudêncio passava seus dias com a vovó Maricota, cuidando da criação de ovelhas e de uma pequena horta. De resto, a propriedade era tomada de muito verde: uma floresta de araucárias que se estendia até um vale profundo, onde a mata ainda virgem cobria a beira do ‘canyon’, – ou do ‘perau’, como dizia o vô Gaudêncio – protegendo as margens de um rio de águas muito frias.
Vovô acendia o fogo com as folhas da araucária que eu e meus primos catávamos em baixo das árvores, segurando-as pelas pontinhas para não nos espinharmos... E como elas deixavam o fogo alto e brilhante! Iluminando tudo à volta e fazendo um barulhinho gostoso de estalinhos!... Depois o vovô ia colocando pedaços de lenha mais grossos ao redor para alimentar o fogo, tudo catado no chão do mato, sem derrubar uma árvore sequer!
A chaleira preta com tripé estava sempre presente, e a cuia de chimarrão passava de mão em mão enquanto os presentes falavam de antigos parentes e amigos falecidos e contavam causos muito curiosos.
Um bom tempo depois, diferente do que acontecia todas as noites lá em casa – quando mamãe desligava a TV e me levava pra dormir – todos os adultos despediam-se e recolhiam-se misteriosamente, ficando, em volta do fogo, apenas nós (as crianças) e o vovô. Apenas nós, o vovô e a floresta! Pelo menos é nisto que eu preferia acreditar enquanto meus olhinhos arregalados observavam a luz trêmula que mal iluminava o tronco das árvores ao redor e que pintava em tons de dourado a barba e os cabelos branquinhos daquele homenzinho magro e curvo que nos olhava com olhos muito sérios por baixo das grossas sobrancelhas.
Então começavam os incríveis relatos de vovô sobre as vezes em que ouvira falar ou mesmo vira de perto o Pé-Grande. Vovô descrevia tão bem o Pé-Grande e seus hábitos, que parecia estar falando de um velho amigo. Dizia que o bicho não era mau, mas que muitas vezes ficava furioso por ser tão perseguido, ou tinha que assustar as pessoas para aproximar-se de suas principais fontes de alimento: o pinhão e a erva mate. Esta última não mais cresce naturalmente nas matas, e os pinhões estão mais escassos a cada ano que passa, além da araucária ser uma árvore mais comum em lugares altos. Assim, segundo o vovô, o Pé-Grande tinha, muitas vezes, que subir o ‘canyon’ em busca de comida.
Quando alguém pegava no sono (o que era bem difícil acontecer com os mais velhos e atentos), vovô nos botava pra dormir todos juntos no velho galpão, que já tinha os colchões preparados, e ficava vigiando a porta à luz do lampião até dormirmos.
Vovô nos contou que numa das vezes em que se aventurara nos ‘peraus’ com seus amigos, encontrara uma enorme pegada, muito parecida com a de uma pessoa, embora fosse muito maior do que o pé de muito marmanjo de dois metros de altura. Tal pegada conservou-se intacta dentro da mata durante anos, e quando tive idade suficiente para conhecer a beleza do ‘canyon’, qual não foi minha surpresa quando meu pai pôde mostrá-la para mim!? Era um pezão enorme, descalço, e com as marcas dos dedos e tudo!
Muitas vezes queríamos duvidar das histórias que o velho Gaudêncio nos contava, mas então, éramos surpreendidos por algum sinal da existência do bicho.
Certa feita, estávamos muito entretidos com os causos do vovô, à beira da fogueira, e ninguém estava com sono, nem mesmo os menores. Todos já tinham sido convidados a dormir, mas não queriam. Foi quando, de repente, ouviu-se no mato ali perto um barulho de galhos quebrando e som de bicho bufando. Sem pestanejar, vovô gritou: - Pé-Graaandiiii!!!!!! Todos pro galpão! Rápido! Saímos numa carreira daquelas, com os coraçõezinhos saindo pela boca! E vovô vinha atrás, com a língua de fora! Até então não sabíamos que ele conseguia correr tanto! Passados alguns minutos em que ficamos todos em silêncio dentro do galpão, vovô nos pôs para dormir e disse que ficaria vigiando por nós. Quando acordamos, veio ele com a história de que, ao voltar para apagar o fogo encontrou o Pé-Grande lá, quietinho..., tomando um mate! Ao ver o vovô, esquivou-se medroso, afastando-se como um gigante desajeitado. Mesmo de longe, vovô percebeu o olhar triste do bicho, e, com pena dele, atirou um pacote de erva para que levasse. Do Tio Ernesto surgiu a versão de que vô Gaudêncio teria mateado junto com o bicho e ensinado ele a preparar o chimarrão, mas essa história o vô nunca confirmou.
O certo é que desde aquele grande susto, sempre que ouvíamos os urros do Pé-Grande, cedo da manhã ou à tardinha – e às vezes parecia até mais de um bicho gritando – ficávamos cheios de pavor e pena. Imaginávamos que ele estava com fome, ou fugindo de um caçador, ou ainda, chorando a morte dos rios e a destruição das florestas. Eu ficava pensando como as pessoas podiam ser tão más para querer destruir a “grande casa verde” do pobre bicho e porque aquilo que era diferente ou desconhecido nos causava tanto medo. O Pedrinho, filho do capataz Almiro, e que morava no sítio desde que nasceu, nos dizia que aqueles urros eram dos bugios, uns macacos vermelhos que ele já tinha visto no mato. Mas é claro que nós não acreditaríamos numa história dessas!
Os anos se passaram e nunca conseguimos ver o tal Pé-Grande. A não ser aquela vez em que o confundimos com o Seu Juliano, um enorme senhor de origem alemã que de vez em quando visitava meu avô. Bem, pelo menos seus pés eram tão grandes quanto os do Pé-Grande!
Talvez o gigante solitário tenha morrido pela arma de um caçador, ou doente por causa da água poluída, ou com fome e sem abrigo com a derrubada da mata, ou ainda, talvez nunca tenha existido realmente, mas, para mim, nos meus sonhos de criança, ele continua vivo..., no restinho de mata que ainda resta, no crepitar da fogueira que ainda estala em meus ouvidos, no pé do Seu Juliano, na enorme pegada do 'canyon', naqueles urros assustadores, na escuridão da mata, nas noites que passamos no galpão – escondidos em baixo das cobertas de lã da vovó – e nas longas conversas ao pé da fogueira..., refletida na barba branquinha daquele vovô contador de causos.  
Mauricio Micharay
Enviado por Mauricio Micharay em 06/08/2009
Código do texto: T1739596

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Sobre o autor
Mauricio Micharay
Farroupilha - Rio Grande do Sul - Brasil, 40 anos
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