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O Olhar, O Espelho e O Beijo

  Ele estava em frente ao espelho. Fitou o próprio olhar, mas desviou, continuando sem entender o porque de todo aquele horror que ensaiavam ao observá-lo. O que poderia haver de errado com ele? Talvez fosse só mais um cara ensimesmado, introspectivo, como Bento Santiago de Dom Casmurro, mas sendo ainda um menino novo, na flor da idade, não conseguia esboçar de forma racional maiores reflexões sobre si. Ele apenas sentia... Enquanto alguns são capazes de criar gigantescas labaredas, ele se resumia a uma frívola faísca. Frívola não... Talvez nem uma faísca fosse. De certo era maior que isso, reles era ele. Acho que seria melhor se o menino tivesse morrido no acidente de carro que sofreu aos 12 anos de idade, mas, por outro lado, eu não estaria agora empenhado em desvendá-lo, criá-lo e recriá-lo.
  O garoto tentava mergulhar em si, uma imensidão vasta e virgem de tristeza, traumas e umas poucas e moderadas doses de alegria. Esse pouco contato com a alegria foi motivado, provavelmente, pela super proteção dos pais e, certamente, por medo e conformismo dele. Se outros caminhos não o tivessem conduzido sua vida até o ponto em que está agora, ele estaria assistindo a algum programa imbecil na TV ou trancado em seu banheiro a se masturbar automaticamente.
  O que ele precisava era transgredir, não em forma de rebeldia sem causa, mas sim como uma superação, que o levaria a ultrapassar limites imaginários impostos por si só. O que é a vitória senão uma superação de si mesmo? É a metamorfose do conformismo para algo próximo e, paradoxalmente, muito além disso. Talvez fosse por medo de se arriscar que ele adotava essa atitude estática, mas, com o tempo, talvez ele perceba que há de ganhar muito mais que perder se movimentar-se.
  A vontade de mudar inúmeras vezes aflorou em sua mente e sua carne, mas a semente da revolução ainda não foi devidamente regada até então. Não havia até o momento condições dela desenvolver-se, reproduzir-se e morrer. Até o momento. Ele era e é muito maior que tudo que havia feito até então... Comportou-se como uma espécie de eufemismo de si mesmo e estava disposto, detsa vez, a romper com tudo isso. Ainda não sabia nada sobre Carpe Diem, Santo Expedito, essas coisas... Mas começava a respirar os novos ares da mudança.
  A idéia de uma vida nova começava a parecer palpável para o rapaz, mas ainda o assustava um pouco. É que às vezes é difícil aventurar-se no desconhecido, reinventar-se sem soar repetitivo. Ele sabe que deve agira de acordo com o que sente, mas sempre negou a seus instintos e a si mesmo. A vida é para ser vivida aqui e agora.
  A imagem que o garoto encontrava no espelho começava a mudar aos poucos. O concreto que ele enxergou durante sua vida inteira estava esboçando uma transformação. O rosto continuou o mesmo, mas o olhar transformou-se drasticamente, transpirando amor, egoísmo, desespero e narcisismo. Seus olhos encontram-se e suas bocas tocam-se. Os dois corpos agora começam a fundir-se, transformando-se na unidade. Seus corpos e suas mentes agora são singulares e ele, dialética de si mesmo, há de se transformar muitas outras vezes, porque a vida é assim: inventada e reinvantada a cada instante.
Vermelho
Enviado por Vermelho em 16/01/2005
Código do texto: T1741
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Sobre o autor
Vermelho
Salvador - Bahia - Brasil, 29 anos
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