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Svetlana, a Ucraniana

O inverno em Kiev era rigoroso, marcando dezenas de graus abaixo de zero. Estava caminhando pela avenida Kreshchatyk, a principal da cidade, fechada para pedestre aos domingos. Casais, crianças, idosos andavam como se estivessem no calçadão de Ipanema. Eu, como um bom homem tropical, não estava acostumado a essa temperatura “polar.” Andava encolhido, agasalhado como um urso.

O trabalho de exportação de café brasileiro me possibilitava conhecer várias cidades do mundo. Naquela época estava concentrando as vendas no Leste Europeu, desbravando este mercado inexplorado, recém aberto para o ocidente, depois da queda da União Soviética.

Naquela viagem havia fechado contratos de seis dígitos com novos clientes. Então resolvi aproveitar o final de semana nessa cidade bela e ao mesmo tempo triste, encravado na fronteira entre a Europa e a Ásia.

Kiev era uma das cidades onde ainda mantinha algumas características da época do socialismo: músicas ucranianas melancólicas cortinavam pela cidade através dos autos-falantes instalados nos postes; lojas de departamentos cinzentas; edifícios do governo, monumentais, ornados com símbolo do partido comunista. E naquela época do ano a neve cobria toda a cidade completando a atmosfera de um lugar remoto, muito longe de Paris ou Los Angeles.

Estava caminhando por cerca de 20 minutos e já não estava agüentando o frio. Resolvi procurar um café para me aquecer e tomar um chá ou uma cerveja local, bem encorpada.

Num gesto rápido, um homem de bigode chegou ao meu lado mostrando um bolo de dólares americanos. E se dirigiu a mim, em um inglês com sotaque forte:

- Achei isso! Estava caído! Juro. O que faremos? Pode ir a policia comigo? – o homem falava rápido, aumentando ainda mais a minha desconfiança.
- Por que eu tenho que ir com você? Não tenho nada a ver com isso – respondi com agressividade.
   
Azar dele. Errou o alvo. Sou brasileiro. Acostumado a essas coisas, moro em São Paulo.

- Mas temos de ir! A polícia! Fica logo ali – estendeu o seu braço em direção a um beco escuro e suspeito.
     
Parei de olhar a cara dele e saí andando em passos rápidos. Ele nem veio atrás de mim, o seu grito repetindo “vamos a polícia” distanciava a cada segundo.

Encontrei um café, sentei numa confortável poltrona (um pouco desbotada) de frente para uma janela que dava para a avenida. Relaxado, quando comecei a tomar a minha caneca de cerveja, uma moça ruiva de cabelos curtos entrou. Ao sentar-se na mesa ao lado, de frente para mim, tirou o sobretudo. Estava com uma minissaia de lã verde e meia calça bordô. Achei interessante o seu rosto, quadrado, e olhos cinza assimétricos, picassianos, porém de uma beleza inédita, única, daquelas que cada dia encontraria uma novidade, um novo ângulo para apreciar.

Foi questão de tempo começarmos a conversar (ela vindo a minha mesa). Afirmou que havia visto a cena, de eu fugindo dos bandidos. “É uma pena, hoje em dia a criminalidade aumenta a cada dia”, ela murmurou, com seu jeito rígido, típico de pessoas de lugares frios.

Svetlana era o nome dela, e por sua causa adiei minha volta para São Paulo. Ficaria mais uma semana, no seu apartamento soviético, porém bem arrumado. Ela era uma bióloga divorciada, bastante culta, sabia de muitas coisas sobre o Brasil que não se resumia em futebol e samba. Nós nos apaixonamos. Passei a semana inteira admirando suas curvas suaves e a sua pele branca, brilhante como manjar.

Na ultima noite da minha estada, ela estava apreensiva. Perturbada até. Era natural, porém não percebia que ela tentava me avisar algo. “Não fique triste assim” eu a consolava como aquele personagem irritantemente desligado dos filmes de suspense americanos. Bebemos vinho, preparei um jantar composto por massa folhada com salmão, capelini com caviar iraniano e torta de limão bem brasileira – ela ficou emocionada – dormimos e fizemos amor com promessa de que encontraríamos em alguns meses.

Na manhã seguinte, acordei com a claridade (ela sempre deixava fechada a grossa cortina). Olhei para Svetlana, graciosa, dormindo com a sua boca ligeiramente aberta, para cima, como se estivesse sorrindo. Quem abriu a cortina? Pensei. Senti o cheiro de cigarro. Levantei, bruscamente.

Havia um homem sentado na poltrona, fumando, tranqüilo, soltando densa fumaça sob o seu bigode, olhando para nós.

Bigode, o homem que quase me assaltou!

Olhei para o meu lado e Svetlana já estava com os olhos bem abertos, querendo dizer algo.


                     





SEIDI KUSAKANO
Enviado por SEIDI KUSAKANO em 17/06/2006
Código do texto: T177150
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Sobre o autor
SEIDI KUSAKANO
São Paulo - São Paulo - Brasil
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SEIDI KUSAKANO