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ESTAVA NA MINHA HORA, MAS CÁ ESTOU

Faz 18 anos. Como é rápido o tempo. As lembranças, todavia, morosas em seu apagar. No rádio do carro, Rita Lee...Erva Venenosa. Sempre gostei da Rita Lee, acho-a corajosa. No vidro a chuva fininha. Aquela que molha até e qualquer pensamento. Terça-feira, 8 de dezembro de 1987. Quase uma e meia. Estou em cima da hora. O brilho dos paralelepípedos é uma coisa linda de ver. Parecem de acrílico. Enfim, tudo normal, rotineiro. Sempre gostei do meu trabalho na TVE. Nos dávamos bem, eu e ele. O que havia para ser feito era sempre uma novidade, um desafio. Eu, fazia minha parte. Ele, meu trabalho, ficava satisfeito. Lá na TVE, eu era pequena entre alguns grandes colegas. Hoje, imensos em brilho e realizações. Sabe como são esses “Arteiros”. Eles têm o diabo no corpo. Têm luz própria. Inúmeros talentos. Aprendi muito com cada um deles. Agora, os aplaudo como forma de agradecimento. Seguido tenho visitas das lembranças daquele tempo. Da loucura que era executar em tempo hábil cada acontecimento. Era story-board pra cá, maquetes, chamadas, vinhetas pra lá...Nossa. E os cenários então?! Se confeccionava, montava, testava, remontava, alterava...Eram horas e horas e horas para se produzir o que a edição de imagens quase matava.
– Não, isso não ficou bom. Vamos usar aquele outro.
– Esta cor não favorece. Usaremos aquela. Chama o “pessoal da Arte”:
– Pessoal, mudanças. Temos que refazer pra ontem.
Era legal trabalhar para o dia anterior. Já sabíamos que tudo daria certo. E a gente criava, desenhava, cortava, colava...e íamos nos perdendo em meio a tanta Arte, letra-set, tintas, nanquim e muita cola de benzina...e acabávamos tão envolvidos que fazíamos de tudo um pouco. Genial aquela equipe. Eu e os seis guris. Todos “criantes”. Entre outras coisas, aprendi a pensar como eles. Quem trabalha com Arte têm que ser assim, meio “megafunções”. Depois de tudo aprovado, testado e realizado, podíamos babar com o resultado no ar. Bingo!!!. Puxa, uma super recompensa. Sorríamos de puro orgulho e também por merecimento. Por dentro, cumprimentávamos nossos talentos. E a Ritinha cantando, ...venenosa  eh, eh, eh, eh...erva venenosa...é pior do que cobra cascavel...Fim do ano chegando. Pensamentos voltados para a programação de Natal. Ciclos findando...prestação de contas, retrospectivas, planos. Dezembro, Rita Lee, a chuvinha, a freiada...o estrondo...
Em meus silêncios ainda ouço aquela algravia. Não perdi os sentidos, nem poderia, estava a trabalho. Quase consegui chegar. Seis horas de cirurgia. O choque, a dor, o medo. O cheiro enjoativo de sangue...
Até hoje procuro aquele casal de anjos que por ali passava.









Maira Knop
Enviado por Maira Knop em 21/06/2006
Código do texto: T180024
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Sobre a autora
Maira Knop
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 58 anos
26 textos (1177 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 17:01)
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