Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O relógio mal-assombrado

O relógio mal-assombrado
 
O casarão na Estrada da Cruz das Almas foi construído no final do século XIX, em pleno esplendor da borracha na Amazônia.
Seu Gonçalves, português de Ponte de Lima e proprietário do casarão, migrou para o Brasil e enriqueceu com a exploração do látex. Sua fortuna permitiu-lhe edificar o suntuoso prédio e ali morou, até a morte, com dona Deolinda  e seus oito filhos.
Desde que foi inaugurado, diziam os vizinhos e os amigos que conviviam com a família Gonçalves, coisas esquisitas ocorriam no casarão, sobretudo em horas soturnas. Portas ruidavam sem mais nem menos, copos e taças estilhaçavam-se sem explicação, vozes e lamúrias ouvidas sem que se soubesse de onde vinham, passos pelo extenso corredor que ligava a ala nobre à cozinha eram escutados com freqüência.
Um fenômeno, no entanto, intrigava a todos: o esplêndido relógio, que ficava no salão de entrada, parava de funcionar sempre que morria um morador do casarão.
O relógio foi trazido por seu Gonçalves quando de uma de suas freqüentes viagens à Europa. Sobre uma requintada estante em jacarandá, o relógio, estilo art-nouveau, tinha o bronze e a madrepérola como matérias-primas. Os ponteiros rendilhados eram revestidos de ouro e, abaixo do mostrador, uma portinhola com gravuras mitológicas em alto-relevo abrigava a chave com que seu Gonçalves dava-lhe corda uma vez por semana. Ladeando o mostrador, duas belas estatuetas davam graciosidade e magnificência ao conjunto.
O relógio encantava os visitantes pela beleza e refinamento. Impressionava, sobretudo, pelo bater das horas. Eram badaladas harmoniosas e penetrantes que ressoavam por todo o casarão, sobremaneira nas horas mortas, parecendo vaticinar tristezas. Nesses momentos, diziam, um calafrio tomava os moradores do casarão
A primeira manifestação sobrenatural teria ocorrido por ocasião da morte de dona Deolinda. Era uma noite de abril do ano de 1903. Um candeeiro encimando um criado mudo derramava uma tênue luz sobre a alcova fazendo com que o rosto da moribunda, descorado pela doença ficasse amarelento. Seu Gonçalves, à cabeceira, enxugava o suor que escorria pela testa da agonizante e Maria dos Anjos, a filha mais velha, passava-lhe nos lábios algodão levemente molhado, tentando aplacar suposta sede.  Os oito filhos acompanhavam, consternados, o transe de morte de sua mãe. De repente, dona Deolinda estremeceu e num ofego exalou seu último suspiro. Os olhos sem movimento indicavam o fim do longo sofrimento, da duradoura agonia. Naquele exato instante, o badalo do relógio ressoou por todo o casarão. Eram três horas. Na alcova, todos se entreolharam. Um arrepio envolveu-os. Maria dos Anjos, trêmula, passou a mão sobre os olhos da defunta para cerrá-los à eternidade. Os homens retiraram-se da alcova e as mulheres trataram de cumprir os ritos habituais de preparação de cadáveres e vestir a defunta com a roupa que esta havia recomendado quando em vida. Do alto do telhado, uma coruja entoou sua lúgubre rasga-mortalha. Após os preparos devidos, Maria dos Anjos acendeu uma vela à defunta e outra que usou para ir até à cozinha que ficava aos fundos do casarão. Ao passar pelo salão parou diante do relógio. Foi quando percebeu que os ponteiros, inclusive o que indica os segundos, mantinham-se na mesma posição, como querendo que o tempo parasse. O relógio não mais trabalhava. Maria dos Anjos estranhou. Afinal, ela vira seu Gonçalves dando corda no relógio no dia anterior. Portanto, não poderia ser falta de corda. Tomada de medo tratou de seguir seu caminho em direção da cozinha, sempre dizendo:
-- valha-me Deus, valha-me Deus!
Ao retornar à alcova, passou pelo salão onde se encontravam seu Gonçalves e os filhos. Intrigados, conjeturavam em torno do relógio. Seu Gonçalves puxou do bolso o seu cebolão de ouro. Queria conferir.
Era madrugada, quando o corpo de dona Deolinda, pronto na sua última vestidura, foi colocado na urna funerária e conduzido até o salão. As luzes de quatro velas tremulavam em volta da defunta. Maria dos Anjos, olhando de soslaio, percebeu que o velho relógio ainda marcava três horas. Diante de todos e sem dar explicação – por que, certamente, não as tinha - ela fez o acerto da hora. Como num passe de mágica, o relógio voltou a trabalhar.
Por algum tempo, aquele estranho episódio caiu no esquecimento. Nada, ou quase nada, falou-se a respeito.
Nos anos seguintes, no entanto, ocorreram outras mortes na família de seu Gonçalves. A cada uma delas, o fenômeno se repetia. Era só o vivo empacotar, lá estava o relógio teimosamente parado. Assim foi por ocasião da morte de Nonó, filho mais novo de seu Gonçalves e vítima de estranha doença, de dona Cotinha, uma prima que se agregou à família e de Sindoca, filha mais velha de seu Gonçalves. Por fim, quando o próprio seu Gonçalves abotoou o paletó, o relógio desembestou a badalar como nunca.  Eram duas horas e quinze minutos da madrugada de uma sexta-feira, 13 de agosto.
 Naquela ocasião, todos ao redor do morto ficaram com o cabelo em pé. Eulália, antiga criada, foi enviada ao salão para investigar as razões daquelas badaladas descomedidas. Quando chegou ao salão, lá estava o relógio silencioso e parado.
-- Não pode ser coincidência. É demais! Será coisa de Deus? Ou do Diabo? --, exclamou.
Dizia ela, de si para si, apavorada e rezando uma Ave-Maria atrás da outra, nas suas andanças pelo corredor.
Nem todos criam na sobrenaturalidade do fenômeno. Apesar das evidências havia os incrédulos. É o caso de Antônio Maria, filho de seu Gonçalves e estudante de direito. Para ele, recorrer ao transcendental para explicar aquele fenômeno relojoeiro era coisa de gente do interior, matuta, de intenso espírito imaginativo e inclinada a essas coisas de visagens, de assombrações.
Com a morte de seu Gonçalves, os herdeiros colocaram o relógio no leilão. O período áureo da borracha ia longe e as dificuldades financeiras abateram-se sobre a família.
Zé Valentino, um rico comerciante da cidade, proprietário de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos, arrematou o relógio. Provavelmente ele desconhecia o mistério que envolvia a peça adquirida. Certa ocasião, a governanta do comerciante confidenciou a seu namorado que um antigo relógio, objeto de excessivos cuidados do patrão, havia parado de trabalhar, misteriosamente, na madrugada em que dona Eustáquia, esposa de Zé Valentino, deixou este mundo. Mas essa é outra história.

Alvesfilho
Enviado por Alvesfilho em 23/06/2006
Reeditado em 24/06/2006
Código do texto: T180953
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Alvesfilho
Belém - Pará - Brasil
21 textos (510 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 08:30)